O Agir
Invisível de Deus
Pr. Luciano
Subirá

Um ensino profundo sobre o tratamento de Deus conosco e as
formas imprevisíveis que o Senhor utiliza afim de produzir em nós maturidade.
Você será tocado por uma revelação mais profunda da soberania e grandeza de
Deus e compreenderá que Satanás, por não entender a multiforme sabedoria de
Deus, muitas vezes acaba "trabalhando" para o Senhor em suas
tentativas contra as nossas vidas. Estas verdades lhe serão tremendamente
estimulantes e servirão de bálsamo a muitos corações feridos e "em
crise"...
DIREITOS RESERVADOS
Luciano Pereira Subirá -
1999
Maná Edições
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Guarapuava/PR
CEP: 85010-970 - Fone:
(042)723-5266
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O AGIR INVISÍVEL DE
DEUS
Copyright © 2000
- Luciano Pereira Subirá.
1a Edição
Coordenação e diagramação:
Luciano Subirá
Capa: Munhoz Design
Foto: Roberto Yanagawa
Revisão: Juarez Subirá
Impressão: Bless Gráfica
e Editora Ltda.
Todos os textos bíblicos,
salvo menção em contrário, foram extraídos da tradução de João Ferreira
de Almeida, versão Revista e Atualizada, da Sociedade Bíblica no Brasil (SBB).
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ÍNDICE
Introdução
01 – O Agir Invisível
de Deus
02 – Satanás a serviço
de Deus
03 – Mais que vencedores
04 – O canto do galo
05 – Nas asas da águia
06 – Os aguilhões de
Deus
07 – Os abalos de Deus
08 – Planos de bem e não
de mal
Introdução
Tenho aprendido muito com
Deus nos últimos anos acerca de sua estranha forma de agir e sinto-me desafiado
a compartilhar isto com tantos quantos eu puder fazê-lo. A forma como tenho
recebido a compreensão deste assunto e os conflitos pelos quais passei à
medida que Deus falava comigo, dão-me a certeza que este ensino dará o que
pensar e falar a muita gente.
Sei que alguns debaterão
o que digo simplesmente porque são intransigentes; outros porque ainda não
conheceram a dor de circunstâncias aparentemente sem explicação e com cara de
"abandono de Deus"; mas sei que para a maioria dos leitores
estas verdades serão recebidas como um bálsamo divino. E oro para que sejam um
instrumento de restauração e edificação em sua vida.
Não escrevo defendendo e
nem acusando ninguém. Só quero que as muitas vítimas da injustiça de alguns
cristãos (que criam explicações simplistas e falam daquilo que não entendem
e não viveram), possam ter alento. O que compartilho neste livro não é,
necessariamente, a resposta para cada circunstância adversa; mas além de ser a
resposta para muita delas, é também uma tentativa de mostrar que nosso
atual universo de raciocínios e explicações dos fatos da vida cristã está
longe de ser completo; é limitado, pobre, cego, e deve nos lembrar de que
carecemos buscar em Deus mais revelação de sua Palavra.
Vivemos dias em que a fé
evangélica tem crescido e se espalhado grandemente. Graças a Deus por isto!
Mas temos que reconhecer que este crescimento numérico tem se dado numa
velocidade e intensidade muito maior do que a capacidade da Igreja de fazer
crescer em maturidade. O próprio crescimento gera inúmeros problemas e,
na busca de uma melhor acomodação dos novos convertidos para que não se perca
a oportunidade de crescer, uma nova geração de ministros está sendo formada.
Não com um embasamento
forte na Palavra, mas com o estritamente necessário para atender a demanda. E
isto tem trazido ao arraial do povo de Deus um evangelho diluído, simplista. Há
uma diferença entre o evangelho simples, que toca o homem diretamente nas suas
necessidades e que dispensa qualquer intelectualismo, de um evangelho simplista
que tenta dar respostas diferentes da Bíblia, e que ao tentar simplificar as
questões esquece-se que está lidando com gente que pensa, que tem emoções,
sentimentos.
E assim estamos edificando
uma geração confusa, machucada, cheia de dúvidas e até de descrença -
embora para se fugir do inferno as pessoas aprendam a conviver e até mesmo
conformar-se com elas.
Algo precisa sacudir-nos
de nossa prepotência de acharmos que podemos entender Deus e sua forma de agir
e ditar sempre e até antecipadamente como serão as coisas. Se algo acontece
com alguém, sabemos porquê aconteceu; se deixa de acontecer sabemos exatamente
o porquê não aconteceu; temos respostas para tudo!
Não posso negar que o
reino espiritual é regido por princípios, e que sempre tais princípios serão
imutáveis; mas há uma grande diferença entre vê-los funcionando e achar que
são eles em operação!
Por exemplo, se alguém
peca contra Deus, vai colher as conseqüências, que variam em função do
comportamento da pessoa, se ela se arrepende ou não. Davi pecou adulterando e
matando um amigo, foi perdoado por Deus (o que remove a mancha da culpa) mas
colheu as conseqüências que lhe foram anunciadas pelo profeta Natã. Em uma
outra situação (na carta à igreja em Tiatira) vemos Jesus repreendendo o
pecado de uma mulher chamada Jezabel, e dizendo que no caso dela não se
arrepender, seria julgada e prostrada de cama, num leito de enfermidade.
O pecado sempre tem conseqüências.
Se me arrependo sou perdoado mas, ainda assim, colho as conseqüências. No caso
de não me arrepender serei julgado. São situações diferentes, mas sempre
haverá conseqüência. Pelo pecado de alguém podemos saber que haverá conseqüências
e até prevenir a pessoa disto, mas o que não posso aceitar é a análise
inversa; pelas circunstâncias que alguém está vivendo, tentar dizer se
ela está ou não em pecado. É um campo onde não podemos entrar, além de que
não cabe a nós julgar!
A Igreja do Senhor tem
falhado muito nesta matéria nestes dias... São respostas simplistas para tudo.
Se alguém não recebeu a resposta à sua oração, é falta de fé. Se algo
negativo aconteceu foi o diabo e é porque houve brecha espiritual. Se as coisas
não estão bem é porque a pessoa está em pecado. E assim por diante. Muitas
vezes o que está acontecendo PODE ser uma destas coisas, mas não quer dizer
que seja sempre só isto!
Não podemos nos
considerar doutores na psicologia divina. Alguns são assim, parece-nos que
chegam ao ponto até mesmo de se antecipar ao que Deus vai fazer. Neste caso Ele
fará assim, no outro fará assado... mas os caminhos de Deus são mais altos
que os nossos e seus pensamentos também! Paulo declarou aos coríntios: "Se
alguém julga saber alguma cousa, com efeito não aprendeu ainda como convém
saber" (I Co.8:2). Ninguém pode agir como um "sabe-tudo" em
relação às coisas de Deus, principalmente em relação ao seu agir que é
personalizado.
Voltemos a confiar na
soberania de Deus e a aceitar que nem sempre teremos as respostas, mas sempre
poderemos caminhar na certeza de que Ele tem o melhor para nós, quer o
entendamos, quer não.
01
O Agir Invisível de Deus
Nossa reflexão bíblica
começa com um texto escrito pelo homem que foi considerado o mais sábio em
toda história da humanidade: Salomão. Não penso ser coincidência que Deus o
tenha escolhido para escrever acerca disto; na verdade não acredito em coincidência;
a definição dela que aprendi com outros irmãos em Cristo é que coincidência
é a obra divina onde Deus não reclama a autoria.
O fato é que o rei Salomão
era a pessoa mais indicada para nos dar a pista de que o agir de Deus nem sempre
é visto e compreendido pelo homem, não importando quão sábio ele seja.
Observe:
"Assim como tu não
sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da mulher
grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as
coisas."
Eclesiastes 11:5.
Três coisas são
mencionadas como algo que "não sabemos": o caminho do vento, a
formação dos ossos de uma criança ainda no ventre materno, e o agir de Deus.
Na verdade, com a expressão
"não sabes", entendemos que o escritor falava de coisas que "não
vemos". Podemos saber o caminho do vento através do balançar das
folhas de uma árvore, pelas evidências de que ele sopra, mas nunca por ser visível
aos nossos olhos. O caminho do vento em si é algo oculto à nossa visão,
ocorre fora do alcance da vista dos olhos.
Semelhantemente, a formação
óssea de um bebê ocorre fora da vista dos nossos olhos; não podemos ver como
ela se dá. Creio que a expressão "não sabes" que o rei sábio
usou estava apontando para "o que não vemos", senão nem
contemporânea seria esta afirmação, pois hoje a ciência tem trazido uma
perfeita explicação da formação óssea do feto; podemos "saber",
mas continuamos impedidos de ver.
Lembro-me que durante a
gravidez de nosso primeiro filho minha esposa e eu fizemos duas ecografias e
pudemos ver a formação física do Israel mesmo antes dele nascer. Contudo,
mesmo com todos estes recursos da ciência moderna, a formação óssea do feto
– e não falo da certeza que isto ocorre e nem de como ocorre, mas sim do processo
– encontra-se fora da vista de nossos olhos. É algo semelhante ao caminho do
vento. Podemos saber que ocorre e até ter evidências disto, mas é oculto aos
nossos olhos; o que nos leva a defini-lo como invisível.
Com o agir de Deus não é
diferente. O texto bíblico diz que Deus age em todas as coisas. Depois o
versículo nos deixa claro que as duas menções anteriores de coisas ocultas
aos nossos olhos, eram apenas um paralelo que ilustra o agir divino. Deus age
sempre e em todas as coisas, porém, nem sempre este agir será visível aos
nossos olhos, pois o que o caracteriza é esta sua definição bíblica de que
é invisível.
Em nossos dias tenho visto
o prejuízo da falta de conhecimento deste princípio e também da falta de
temor de Deus. Como pastor ouço pessoas dizendo coisas absurdas com: "Ah,
eu já coloquei Deus na parede; se em tanto tempo Ele não me atender,
eu...". Dá vontade de dizer para alguns: - "Você o quê? Que ameaça
é esta? Se Ele não fizer o que você quer, você faz o quê? Dá as costas
para o Senhor e vai para o inferno? Quais são suas opções?"
É incrível a falta de
respeito com a qual muitos se dirigem a Deus. Os papéis andam trocados. Pelo
comportamento destas pessoas parece até que Deus já não é mais Senhor, mas
simplesmente um secretário. Está errado; quem está na condição de servo
somos nós e não Ele!
Sabe, há o ensino bíblico
da fé, e eu creio nele, pois afinal de contas o que é bíblico é o conselho
de Deus e ponto final. Creio no que Jesus ensinou sobre falar à montanha;
creio em dar ordens aos problemas e obstáculos para que se movam de
nossas vidas e sejam lançados no mar.
Contudo, é um absurdo
confundir as coisas e achar que podemos dar ordens para Deus! Ninguém dá
ordens a Deus. Diante dele todos devem se calar. Ele é soberano. Ele é santo.
Ele é Deus. Ele é todo suficiente. Faz o que quer, como quer, quando quer. A
Igreja precisa reaprender isto!
Sei que há promessas e
princípios bíblicos que já são uma revelação da vontade divina, e que em
situações onde eles podem ser indiscutivelmente aplicados, não precisamos
orar para descobrir qual é a vontade do Senhor e o quê Ele quer fazer.
Mas mesmo quando já sabemos o quê Ele quer fazer, nem sempre poderemos
entender COMO Ele vai fazer o que quer, ou mesmo QUANDO isto se dará.
A forma de agir de Deus
nunca foi e nunca será previsível. O homem não pode compreender o agir de
Deus com sua mente e raciocínio, pois a operação de Deus está muito acima do
nosso entendimento.
Quando Salomão mencionou o
agir invisível de Deus, não disse que o Senhor deixa de agir nas circunstâncias
onde pareça ausente, mas sim que nós não podemos VER sua operação. Não se
trata de Deus deixar de agir, mas sim de fazê-lo de tal forma que nós não o
vemos em ação.
Em lugar algum da Bíblia
nos é apresentada uma ação divina padronizada. Não vemos o Senhor lidando
com as pessoas por atacado, mas justamente o oposto. Cada pessoa e cada situação
é tratada por Deus com carinho e criatividade. Há um agir personalizado e isto
é inegável. Mesmo nas guerras e batalhas (acontecimentos muito comuns e
repetidos nas páginas do Velho Testamento), nunca vemos duas intervenções
divinas que sejam iguais.
Para cada situação houve
uma intervenção diferente, embora os resultados finais fossem similares. O que
concluímos é que mesmo quando a vontade expressa de Deus era livrar seu povo
das mãos do inimigo, a forma como Ele faria era sempre um mistério. Ou seja,
mesmo quando sabemos o quê Ele quer fazer, não podemos saber como
irá fazê-lo.
O que necessitamos então,
é parar de achar que Deus nos deva satisfação do seu agir. Ele age sempre e
em todas as coisas (circunstâncias). A parte que nos cabe é crer e esperar sua
manifestação, e não exigir que o Senhor mostre qual a forma de operar que foi
adotada.
Há muita gente cobrando
de Deus uma explicação para o que eles não entendem. Só que o Pai
nunca prometeu que daria explicação de como Ele estaria operando. As únicas
coisas das quais Ele falou foi que podíamos ter como certo é que Ele agiria, e
enquanto Ele trabalhasse de forma INVISÍVEL aos nossos olhos, que nós crêssemos.
Um exercício contínuo de fé
Aliás, quero chamar sua
atenção para a importância do fator confiança. Deus espera que nosso coração
repouse Nele em todo o tempo e circunstância, e escolher um agir invisível aos
nossos olhos é um belo treinamento para a nossa fé! Talvez esta seja uma das
razões porque o Senhor tenha escolhido agir assim: exercitar continuamente
nossa fé. E a definição bíblica de fé é esta:
"Ora, a fé é a
certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem."
Hebreus 11:1
Crer no agir de Deus é
ter a convicção de algo que não se vê. Nosso irmão Paulo disse aos coríntios
que "andamos por fé e não por vista" (II Co.5:7). A lição
que o Senhor Jesus deu a Tomé após sua ressurreição é mais um atestado
disto. A fé nunca se baseia no que vê, mas na certeza de que o que Deus
prometeu é um fato e terá seu cumprimento.
Ora, estas coisas se
aprendem logo no início da caminhada cristã e não são difíceis de aceitar;
tampouco geram discussões entre o povo de Deus, pois são indiscutíveis. Mas
na hora em que alguém está em aperto e não consegue ver Deus agindo (pois Seu
agir é oculto aos nossos olhos), esta pessoa se esquece rapidamente disto!
Ninguém tem o direito de
exigir do Senhor satisfação sobre sua maneira de agir. Primeiro, porque Ele é
Senhor e não está em posição de ser questionado. Segundo, porque Ele nunca
prometeu que alguém veria sua forma de agir; pelo contrário, ensina-nos em sua
Palavra que seu agir é invisível aos nossos olhos e que nossa caminhada deve
ser por fé e não por vista.
Ou seja, não devemos
esperar ver, mas somente crer na fidelidade Daquele que prometeu agir em todas
as coisas. Concluindo, Ele não tem nenhum compromisso de ter que explicar como
está agindo, embora nós tenhamos a responsabilidade de permanecer em fé mesmo
sem que haja evidência visível da operação de Deus.
Desde o início do
relacionamento de Deus com os homens, vemos esta dificuldade humana de crer no
invisível e a insistência divina de que deve ser assim. Quando Deus se
manifestou de uma forma tão intensa a todo povo de Israel que saíra do Egito,
absteve-se de aparecer em alguma forma para que não tentassem imitá-la
depois na forma de ídolo:
"Então, o SENHOR
vos falou do meio do fogo; a voz das palavras ouvistes; porém, além da voz, não
vistes aparência nenhuma.
Guardai, pois,
cuidadosamente, a vossa alma, pois aparência nenhuma vistes no dia em que o
SENHOR, vosso Deus, vos falou em Horebe, no meio do fogo; para que não vos
corrompais e vos façais alguma imagem esculpida na forma de ídolo, semelhança
de homem ou de mulher, semelhança de algum animal que há na terra, semelhança
de algum volátil que voa pelos céus, semelhança de algum animal que rasteja
sobre a terra, semelhança de algum peixe que há nas águas debaixo da
terra."
Deuteronômio 4:12, 15-18.
O que este episódio
retrata é a dificuldade que todo ser humano tem de confiar naquilo que não vê.
O Senhor escolheu esta dimensão de relacionamento baseada na fé e confiança.
E cada vez que Ele age sem que nossos olhos vejam ou nossa mente compreenda, está
proporcionando-nos um exercício de fé. Na verdade, como Ele age sempre assim,
proporciona-nos um exercício contínuo de fé!
O homem tem dificuldade de
aceitar isto; vive tentando criar atalhos e se dá mal, pois quando entra num
caminho que Deus não abriu, acaba indo cada vez para mais longe d'Ele. A
idolatria em todo o mundo é prova disto; cada povo e cultura, em todos os períodos
da história tem conhecido a fabricação de ídolos.
É um meio de tornar a fé
visível e palpável; acham mais fácil crer no que se vê (ainda que seja um
pedaço de pau ou de gesso) do que naquilo que é invisível. Mas Deus tem se
revelado assim e quem quer relacionar-se com Ele tem que submeter-se a isto. E
cada vez que nós, cristãos, murmuramos por não termos evidências aos nossos
olhos para o agir de Deus, estamos incorrendo no mesmo erro dos idólatras!
Parece mais ameno, mas a premissa é a mesma e se não cuidarmos,
entristeceremos ao Senhor e nos afastaremos dele.
O não sabermos COMO Deus
agirá não é, em momento algum, uma incerteza quanto ao fato de se Ele vai
agir ou não; é somente a expectativa de como Ele nos surpreenderá com os
caminhos que escolheu ao intervir em cada nova circunstância de nossa vida.
Devemos depender
inteiramente do Senhor e aprender a exercitar continuamente nossa fé. Nos dias
do ministério terreno de Jesus houve pessoas a quem Ele criticou por sua
pequena fé e houve algumas a quem Ele elogiou por sua grande fé. Mas houve uma
pessoa, da qual Cristo disse não ter achado fé semelhante a dele em todo
Israel.
Era um centurião romano.
Em Mateus 8:5-13 podemos ler sobre o pedido dele para que Jesus curasse um
criado seu, e no momento em que Cristo se dispõe a ir a sua casa, este homem
reconhece que isto nem era preciso e diz que se Jesus dissesse apenas uma
palavra seria suficiente para que o milagre acontecesse, pois quando alguém está
investido de autoridade suas ordens tem que ser obedecidas. Este centurião não
quis nenhuma evidência visível; sua fé estava apoiada na Palavra de Cristo
e isto bastava. Jesus disse que este foi o mais alto nível de fé que Ele
encontrou. É neste nível que devemos nos sentir desafiados a nos mover quanto
às coisas do Senhor!
Não devemos e não
podemos agir tentando nos apoiar no que é visível, mas crer e depender
inteiramente do que Deus tem dito em sua Palavra. E, à medida em que procedemos
assim, exercitamos nossa fé. De fato, confiar em Deus sem depender de um
testemunho visível é um exercício de fé. E repito: como Deus age sempre
assim, então, o que teremos será um exercício contínuo de fé!
PENSAMENTOS MAIS ALTOS
Nossos olhos não alcançam
a esfera da operação de Deus porque ela está num plano superior. Uma outra
razão bíblica - além do exercício da fé - que encontramos para o fato de o
Senhor agir num plano invisível aos nossos olhos, é que seus pensamentos são
mais elevados que os nossos. A mente de Deus é infinitamente maior que a nossa
e sua sabedoria é tão gigantesca que não há como dimensioná-la.
Esperar que Ele aja de
forma que nós entendamos é limitar e rebaixar grotescamente seu agir. A
maneira de nosso Senhor agir transcende o limite humano de compreensão. Quando
as Escrituras falam dos caminhos de Deus mais altos que os nossos, relaciona
este fato com o de seus pensamentos também serem mais altos que os nossos:
"Porque os meus
pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus
caminhos, diz o SENHOR, porque, assim como os céus são mais altos do que a
terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os
meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos."
Isaías 55:8,9
Podemos afirmar com toda
certeza que o fato de Deus agir por caminhos mais altos (e isto deriva-se do
fato de que seus pensamentos também são mais altos) deve-se à sua infinita
capacidade de gerenciar todas as coisas. Quando pensamos na resposta para o
nosso problema nossa mente limitada e egoísta só vê isto; mas quando Deus
pensa na resposta do nosso problema, não pensa só nisto, mas vai além, muito
além...
Ele consegue propor
respostas que não se limitem só ao momento e conseqüência, mas que toquem a
causa do problema e tenham também o poder de continuar agindo em nós
quando o que considerávamos problema já não estiver mais presente. Também
podemos sugerir que além de nos tocar isoladamente, Ele ainda pode estar
propondo soluções que não envolvam somente a nós, mas também outras
pessoas.
Deus pode ainda estar
tocando não só uma área problemática, mas toda uma rede de outros problemas
interligados ao que nos incomodava mais. Ou tocar valores e escolhas erradas que
permitiram a entrada e instalação do tal problema. E mais, muito mais!
Nossa mente pode fazer uma
grande e abrangente lista, mas não interessa o quão longe nossa perspicácia e
raciocínio nos levem, jamais chegaremos perto da forma de pensar de Deus que é
muito mais elevada.
A sabedoria de Deus nos é
apresentada na Bíblia como tendo muitas formas. Em Efésios ela é denominada
como a MULTIFORME sabedoria de Deus. Isto fala de uma sabedoria que não é
limitada, mas que se abre num leque infinito de dimensões da operação divina.
Esta ilimitada sabedoria pluraliza a resposta de Deus para cada problema ou obstáculo
que o ser humano enfrenta; em vez de tocar de forma direta numa única questão,
Deus tem o poder de trazer várias intervenções nas situações em que jamais
enxergaríamos a necessidade disto.
Considere também que o
Senhor conhece o futuro, coisa que homem algum e nem mesmo o diabo tem
capacidade de conhecer; portanto a ação de Deus não está voltada somente ao
já e ao agora, mas ela se estende para o futuro e sempre priorizará o nosso
melhor sob uma visão global, mais abrangente do que jamais nossa mente poderia
alcançar. A atuação de Deus é integrada e sinérgica.
Para o ser humano, o
desvendar de mistérios parece ser algo de suma importância. Deus, por outro
lado, parece fazer questão de ocultar algumas coisas, especialmente aquilo que
diz respeito à sua ação em nossas vidas. Salomão foi um homem sábio e
inquiridor, mas enxergou em Deus esta característica e a mencionou não apenas
no livro de Eclesiastes, mas também no de Provérbios:
"A glória de Deus
é encobrir as coisas, mas a glória dos reis é esquadrinhá-las."
Provérbios 25:2.
Esquadrinhar não é coisa
somente dos reis, mas de todo ser humano; só que no caso dos reis da antigüidade,
quanto mais conhecedores dos mistérios eles eram, mais respeito ganhavam do
povo. Mas esquadrinhar é algo que está ligado ao homem de forma geral; todos
queremos entender bem e saber explicar as coisas, e diante disto, esta forma de
Deus operar parece ser inaceitável à nossa própria carne. Gera lutas, mas
precisamos aprender a superá-las e descansar em fé no Senhor.
É engraçado. Parece que
quanto mais tentamos entender o agir de Deus, menos conseguimos
enxergá-lo. Vemos um acontecimento bíblico que exemplifica isto. É o episódio
da aparição de Jesus aos dois discípulos no caminho de Emaús.
Este texto mostra que
temos a tendência de traçar nossos próprios planos para o agir de Deus. É
como se, inconscientemente, estivéssemos dizendo a Deus como Ele deveria agir.
Nos fixamos tanto em esperar que Ele aja de determinada maneira que, ao agir
diferente do que esperávamos, não o conseguimos ver. Precisamos aprender a
esperar pelo agir de Deus sem nos prendermos ao modo como Ele agirá.
ESPERÁVAMOS QUE FOSSE
Este episódio se deu após
a morte e ressurreição de Jesus, quando dois discípulos caminhavam tristes
para Emaús, não sabendo que Cristo havia ressuscitado, e o próprio Jesus
aparece a eles, mas NÃO PUDERAM reconhecê-lo, pois seus olhos estavam
fechados:
"Naquele mesmo
dia, dois deles estavam de caminho para uma aldeia chamada Emaús, distante de
Jerusalém sessenta estádios. E iam conversando a respeito de todas as coisas
sucedidas.
Aconteceu que, enquanto
conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e ia com eles.
Os seus olhos, porém,
estavam como que impedidos de o reconhecer."
Lucas 24:13-16.
Repare que o texto diz que
os olhos deles estavam impedidos de reconhecê-lo. Não sei se você já
parou para pensar porque estavam impedidos, mas eu já. Durante muito tempo eu
achei que Jesus não quis que eles o reconhecessem, ou que Ele talvez estivesse
diferente depois da ressurreição, mas o fato é que não ocorreu nem uma coisa
e nem outra.
Diferente Jesus não
estava, pois quando aparece ao restante dos discípulos Ele mostra até mesmo as
cicatrizes da ferida que lhe fizeram ao lado como também as dos cravos nas mãos
e nos pés; o corpo ressuscitado era o mesmo em sua aparência.
A continuação do texto
nos mostra porque eles não podiam ver que era Jesus:
"Então, lhes
perguntou Jesus: Que é isso que vos preocupa e de que ides tratando à medida
que caminhais? E eles pararam entristecidos.
Um, porém, chamado
Cleopas, respondeu, dizendo: És o único, porventura, que, tendo estado em
Jerusalém, ignoras as ocorrências destes últimos dias?
Ele lhes perguntou:
Quais? E explicaram: O que aconteceu a Jesus, o Nazareno, que era varão
profeta, poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo, e como
os principais sacerdotes e as nossas autoridades o entregaram para ser condenado
à morte e o crucificaram.
Ora, nós esperávamos
que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas, depois de tudo isto, é já
este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam."
Lucas 24:17-21.
Os dois discípulos
estavam tristes e abatidos e Cristo se faz de alheio e lhes pergunta porque
estavam com o semblante daquele jeito; na resposta que dão, percebemos que eles
tinham uma expectativa com relação a Jesus e que a crucificação tinha
arrebentado com ela! Os judeus em geral esperavam um Messias que se manifestaria
como um general de guerra e que os livraria do domínio dos romanos para
estabelecer seu próprio reino.
É por isso que Tiago e João
pediram, numa certa ocasião, que quando Cristo se assentasse no trono de sua glória,
que eles pudessem assentar-se um à direita e outro à esquerda d'Ele;
imaginavam um reino físico e, ao lado do rei, queriam ser ministros da fazenda
e do planejamento!
Cleopas e seu companheiro
demonstram claramente sua frustração ao concluírem com estas palavras: "esperávamos
que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas, depois de tudo isto, é já
este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam".
O que eles estavam
dizendo?
Que achavam que através
dele viria a redenção (física) de Israel, mas já fazia três dias que ele
havia sido morto; ou seja, esperavam que fosse ele, mas não foi... Era mais ou
menos isto que davam a entender.
A expressão "esperávamos
que fosse" é a chave aqui. Eles tinham uma expectativa de como Deus
iria agir, mas Deus agiu diferente do que eles esperavam. Enquanto esperavam um
reino físico só para Israel, Jesus estava cuidando da redenção dos pecados
de toda a humanidade e estabelecendo o aspecto espiritual do reino. Em seu
retorno a esta terra Ele vai estabelecer o aspecto físico do reino, mas a
primeira vinda não envolvia este aspecto.
Só que os discípulos
estavam tão fixados nesta idéia que não conseguiam ver Deus agindo de outra
forma! Achavam que a morte de Jesus na cruz tinha sido uma derrota e não
conseguiam imaginar Deus no controle dela; e porque só esperavam o agir de Deus
de uma única maneira, não podiam ver o que Deus estava fazendo de modo
diferente do que haviam pensado.
Assim também é conosco.
Fantasiamos tanto o agir de Deus, criamos as hipóteses de como faríamos se nós
fôssemos Deus; fazemos nossos planos, fixamo-nos em nossas idéias, e no fim
das contas quando o Senhor acaba agindo de modo diferente não conseguimos vê-lo
em ação!
Quero desafiá-lo a parar
de tentar ensinar Deus como fazer as coisas quando você ora por algo. E mesmo
quando você não o faz verbalmente, acaba fazendo com os pensamentos. E por se
fixar tanto na espera de uma única forma de atuação divina, seus olhos não
reconhecem quando Deus está operando de maneira diferente.
Muitas vezes não podemos
ver o agir de Deus porque realmente Deus o ocultou, mas há momentos em que nós
nos excluímos da possibilidade de ver por ficarmos tão presos ao que esperávamos
d'Ele. Foi só depois que Jesus lhes explicou biblicamente o que devia acontecer
com o Cristo, e demonstrou pela sua conhecida forma de partir o pão que era Ele
falando com eles, que os olhos deles se abriram! Pois agora já não mais
esperavam o general de guerra, mas o Cristo crucificado e ressurreto; e quando
começaram a esperar que Deus agisse exatamente como estava agindo, já não
havia mais o que os impedisse de ver.
Eu senti o mesmo que estes
dois discípulos sentiram. Eu nunca esperei que Deus pudesse agir em circunstâncias
aparentemente negativas; e em momentos em que Ele estava operando em minha vida
de forma diferente da qual eu esperava, não podia ver que era Ele. Um
impedimento estava sobre os meus olhos e não me permitia ver Deus comigo.
Eram os conceitos errados
e fantasiosos que eu mesmo criara de como deveria ser a ação de Deus naquele
momento. Mas assim que o Senhor começou a me fazer entender a Palavra, e que
havia maneiras diferentes d'Ele agir, meus olhos se abriram e pude reconhecê-lo
comigo nas horas em que não parecia que Ele estivesse. E foi exatamente assim
que se deu com os discípulos:
"E aconteceu que,
quando estavam à mesa, tomando ele o pão, abençoou-o e, tendo-o partido, lhes
deu; então, se lhes abriram os olhos, e o reconheceram; mas ele desapareceu da
presença deles.
Lucas 24:30,31.
Em nossa ânsia de querer
compreender tudo de forma racional, esta forma de agir de Deus não parece ser
algo assim tão bom. Contudo, à medida em que trazemos mais luz da Palavra
sobre esta forma divina de trabalho, percebemos quão linda e inspiradora ela é!
O que inicialmente quero
estabelecer (não explicar) é que isto é um princípio. O agir de Deus é
invisível, e está fora do alcance da nossa vista. E isto se deve a várias razões.
Mencionamos a necessidade de um andar pela fé. Falamos sobre os pensamentos de
Deus serem mais altos e não podermos compreender sua multiforme sabedoria e a
pluralidade das respostas que Ele traz numa única circunstância.
E falamos, também, que
muitas vezes somos tão limitados pela nossa maneira de pensar, em como Deus
deveria agir, que quando Ele trabalha de modo diferente não o conseguimos ver.
Mas em tudo isto o que mais quero destacar é a enorme e indizível diferença
que há entre a nossa forma de pensar e a de Deus em sua multiforme e infinita
sabedoria.
Só que esta vantagem
divina de pensamentos mais altos não é só sobre o homem mas, também, sobre
Satanás e seus demônios...
02
SATANÁS A SERVIÇO de Deus
Chovia na maior parte do
percurso enquanto seguíamos pela Br-116 rumo a Curitiba. Embora o apelido da
estrada fosse "Rodovia da Morte", ela não nos amedrontava, talvez
porque já havíamos feito várias vezes o trajeto de São Paulo até a capital
paranaense e vice-versa; e também pelo fato de confiarmos na proteção de
Deus.
A viagem seguia tranqüila
e sem excessos e, como de costume, gastávamos a maior parte do tempo em oração.
Foi assim até a divisa de Estados e outros quatro quilômetros e meio depois.
Então, aconteceu o que marcaria para sempre minha vida, não pelas implicações
naturais do ocorrido, mas pelo que Deus viria a me mostrar e ensinar, bem como
pela nova direção que tomaria a minha vida.
Estávamos somente em dois
no carro, Harold McLaryea e eu. A equipe ministerial contava com mais um
integrante nas viagens, o Robert Ros, mas neste dia ele não se encontrava
conosco, pois tinha viajado antes de nós. A razão disto é que mudávamos a
base de nosso ministério de Campinas para Curitiba e nesta viagem carregávamos
tudo o que coubera no carro, uma Parati.
O banco traseiro estava
deitado e o carro estava cheio até o teto, além de malas sob nossas pernas que
repousavam no chão do automóvel. A soberania divina fez com que a falta de
espaço poupasse o Robert do acidente e o levou tranqüilo à capital paranaense
num ônibus da Viação Cometa.
Foi no dia 23 de Agosto de
1993, uma segunda feira. Não tenho muitos detalhes em minha memória, que
apagou quase completamente o ocorrido e que teima em permanecer
"esquecida". Mas somei os relatos das pessoas que se envolveram e
consegui informações suficientes para entender o que aconteceu.
Os pneus já estavam um
tanto quanto gastos (para não chamá-los de "carecas") e o carro não
tinha seguro, pois além de tê-lo trocado recentemente, estava meio
"apertado" naqueles dias. Disto, o único culpado era eu mesmo, embora
durante vários meses quisesse transferir a responsabilidade para Deus.
Quase cinco quilômetros
depois de termos entrado no Paraná, ultrapassei um caminhão, e isto fez com
que eu elevasse a velocidade do carro a um pouco mais do que a que vínhamos
mantendo, cerca de cem quilômetros por hora. O caminhão não queria perder seu
embalo e eu forcei um pouco a ultrapassagem, o que me fez terminá-la quando havíamos
entrado numa ponte e voltar para minha pista um pouco antes de um outro caminhão
que vinha no sentido contrário cruzar conosco.
Foi o tempo de voltar e
andar uns duzentos metros apenas, então uma aqüaplanagem aconteceu. Chovera
toda a tarde, e nesta hora, umas cinco e meia da tarde, caía uma garoa fina,
mas a pista tinha muita água. Não sei o tamanho da poça d'água, só me
lembro do carro ter perdido a direção e saído da pista para a esquerda. Não
colidimos com ninguém, a coisa ocorreu só conosco, e nos levou direto para um
enorme declive com degraus com mais ou menos uns quarenta a cinqüenta metros de
desnível.
Ainda me lembro da hora em
que o carro saiu da pista e o Harold clamou pelo nome de Jesus. De repente o
carro voou barranco abaixo e depois do primeiro impacto deu-se um verdadeiro
tobogã, que se responsabilizou por fazer com que tudo o que estava no carro
fosse jogado fora, exceto o motorista e o passageiro, presos ao cinto de segurança.
Fomos parar a uns setenta
metros da rodovia. Bati várias vezes a cabeça, o que me fez perder a consciência.
O caminhoneiro que eu havia ultrapassado assistiu a cena e parou prestar
socorro; Harold e ele me levaram barranco acima e logo um carro parou,
levando-nos até o posto da polícia rodoviária mais próximo; e eles, por sua
vez nos levaram até o hospital em Campina Grande do Sul, próximo a Curitiba.
Tive traumatismo craniano,
levei uns trinta pontos no rosto e na cabeça, e devido à uma fratura mais séria
na mão esquerda, precisei fazer uma cirurgia e colocar dois pinos de platina.
Por causa da intensidade das pancadas na cabeça precisei passar dois dias em
observação na U.T.I. Já o Harold saiu ileso e sem nenhum arranhão.
Já no hospital descobri
que havia perdido tudo. O carro dera perda total. Nossas malas foram roubadas.
Quanto ao resto da mudança, o que não se estragou na queda e no barro, também
foi roubado.
Mas a dor não era tanto a
da perda, mas a de um sentimento estranho que começou a brotar em minha alma.
Era um misto de abandono com rejeição; algo contra o qual eu lutava, mas que
aos poucos parecia me engolir. Porque Deus havia permitido aquilo? E as orações
que lhe havíamos feito? E suas promessas de proteção e cuidado? Porquê?
Porquê? Porquê?
Entrei em crise. Os irmãos
me visitavam e tentavam me animar mostrando que o Senhor guardara nossas vidas.
Afinal eu lhes havia contado que o médico me mostrou o resultado da tomografia
que acusava dificuldade de distinguir massa branca e cinzenta e lesões nas
partes moles do cérebro; isto em si não era assim tão complicado, mas
indicava a intensidade do trauma; só que o médico havia me dito que
considerando que este trauma aconteceu numa parte delicada da cabeça, que é a
fonte, eu poderia até mesmo ter morrido.
Havia ainda a questão da
minha vista; minha pálpebra esquerda foi restaurada no centro cirúrgico pois
havia se rasgado até um pouco mais da metade, e os médicos ali disseram que
meu globo ocular (e consequentemente minha visão) foi poupado de forma
milagrosa.
Vendo-me abatido, os irmãos
em Cristo tentavam mostrar-me o lado da intervenção de Deus. Só que algo
dentro de mim doía muito; eu não ousava dizer, mas pensava comigo mesmo que,
intervenção milagrosa por intervenção milagrosa, não teria sido mais fácil
o Senhor colocar meu carro de volta na pista na hora em que desgovernamos?
Porque Ele havia nos
deixado cair barranco abaixo para então resolver proteger? Onde Ele estava à
hora em que precisei dele? Se eu dera minha vida ao ministério e à obra do
Senhor, cuidando das coisas d'Ele, porque Ele não cuidara de mim e das minhas
coisas?
Pensava como um insensato
e sabia disto. Não tinha coragem de dizer aquelas coisas, mas não conseguia
parar de pensar. E uma dor profunda me atravessava o peito, querendo me
convencer de que Deus havia me abandonado na hora em que eu mais precisei dele.
Para minha razão não havia a menor sombra de dúvida de que o Senhor é justo
e fiel, mesmo quando as circunstâncias insistem em fazer parecer que não; mas
eu não conseguia convencer minhas emoções.
Meus sentimentos diziam
outra coisa e uma verdadeira batalha interior começou, vindo a durar muitos
meses. Em alguns momentos eu achava que era muito drama interior para um rapaz
de vinte anos e que eu podia estar aumentando as coisas, mas não havia meios de
me convencer e aplacar o sentimento.
Eu pregava desde os
dezoito anos e já fazia dois anos que viajávamos por várias cidades e
estados, levando o mover do Espírito a muitas igrejas que não o conheciam.
Tive o privilégio de ver muitos milagres e intervenções poderosas de cura; o
sobrenatural era freqüente nas reuniões; e ainda havia a ênfase de uma vida
vitoriosa que sempre dávamos, e na verdade, era isto o que mais me incomodava,
pois eu me sentia como que se tivesse sido golpeado pelo inimigo. Aquele
acidente não tinha nada a ver com a vida vitoriosa que eu acreditava. E ele
derrubou meus castelos espirituais que eu havia construído com um pouco de
fantasia.
Na época, tínhamos uma
agenda de viagens bem cheia para o ano todo e foi necessário dar uma parada,
pelo menos para a minha recuperação. E de repente os planos mudaram. Na
verdade não apenas mudaram, mas acabaram-se de vez! E comecei a deixar as
coisas rolarem e pedir que Deus estivesse no controle...
Foi neste período que
acabei vindo para Guarapuava, no Paraná. Tínhamos estado várias vezes na
cidade, pregando numa igreja denominacional que foi fortemente impactada pelo
mover do Espírito. O pastor começou um novo trabalho fora da denominação,
mas não ficou muito tempo; uns quatro meses após ter iniciado o trabalho, foi
para outra cidade, e o único contato que aquele grupo de irmãos tivera como
nova igreja fora conosco e com nossos pastores, da Comunidade Cristã de
Curitiba.
Pediram-nos ajuda e começamos
a estender auxílio ao trabalho, embora com a intenção de não ficar em
definitivo, pois não nos considerávamos pastores, somente um ministério
itinerante de apoio. Mas Deus falou ao nosso coração e ao do grupo, e
decidimos dar pelo menos uns tempos investindo no trabalho local. Inicialmente
pedimos reforço ao Luís Gomes, amigo e companheiro de muitas viagens, que na
época não compunha nossa equipe, mas desempenhava seu próprio ministério.
Alguns meses depois,
Harold e Dorilene, recém-casados se uniam conosco na missão de pastorear a
Comunidade Cristã de Guarapuava. Que viravolta! Eu sempre havia declarado a
muitos irmãos e amigos que a última coisa que eu queria neste mundo era ser um
pastor. E de repente aí estava eu! Não sei o que pensei ao certo, mas
recordo-me que não tinha planos de estar aqui até hoje; mas tenho aprendido
que "O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios
vem do SENHOR." (Pv.16:1).
Passei muitas crises
interiores com o acidente, mas cansei de brigar com Deus e não ter resposta e
acabei desistindo de insistir e engolindo minhas interrogações até quando agüentasse.
Um ano e três meses depois do acidente, e com quase um ano em Guarapuava, fomos
ordenados e reconhecidos como presbitério local; nossos pastores vieram de
Curitiba e procederam como de costume, pedindo-nos que nos preparássemos para
uma ministração profética que ocorreria junto com a ordenação. Nesta época
eu já desconfiava que Deus tinha aproveitado tudo aquilo para nos trazer
a Guarapuava, mas tinha minhas dúvidas e o medo de estar sendo acomodado demais
ao transferir tudo ao controle divino.
Foi então que aconteceu;
através dos pastores, Deus falou ao meu coração sobre como ele havia quebrado
algumas pontes para tratar comigo e me guiar dentro de seu plano; que Ele havia
me tirado daquele ministério itinerante para me fazer crescer e que a seu tempo
isto seria restituído.
O Senhor usou Miguel
Piper, Thomas Wilkins, e Francisco Gonçalves, cada um acrescentando algo; mas não
foram só palavras, houve um sentimento novo, uma testificação espiritual de
que era aquilo mesmo, houve uma vida nova que entrou em mim! Louvado seja Deus
por aquele dia tão especial, mas os detalhes do que eu precisava ouvir vieram
quase um mês depois, quando o pastor Francisco Gonçalves voltou para nos
visitar e ministrar. Numa conversa descontraída em casa falávamos sobre nossas
experiências com anjos, eu, Luís, e ele.
E acabei lhe perguntando
qual fora a experiência mais recente que o Senhor lhe tinha dado. Para minha
surpresa, ele respondeu que havia sido na nossa ordenação, e que a palavra
profética que ele havia proferido, era, na verdade, uma visão que Deus lhe
dera e que ele havia conversado com um anjo acerca do meu ministério, e apenas
transmitiu o que ouviu na conversa! Fiquei espantado e comecei a inquisição
para arrancar cada detalhe do que fora aquela experiência.
Não quero parecer
sensacionalista ao contar a experiência em seus detalhes. Justamente pela sua
humildade verdadeira, Francisco nem havia me dito o que acontecera, só dera a
mensagem de Deus sem alardes. Mas Deus sabe que eu jamais teria aceitado os
detalhes se não tivessem vindo de uma forma tão espetacular e por meio de alguém
da minha mais alta confiança.
O QUE O ANJO REVELOU
Enquanto o pastor
Francisco orava por mim, Deus lhe abriu os olhos espirituais e ele viu um anjo
em pé ao meu lado. O mensageiro celestial se apresentou de maneira formal
dizendo: - "Fui enviado da parte do Deus Altíssimo para te fazer saber
algumas coisas acerca destes ministérios (a referência plural envolvia nós
três). Você tem uma preocupação muito grande por eles, mas Deus te faz
saber que eles estão nas mãos do Senhor, e que estão no lugar certo, na hora
certa, fazendo a coisa certa." Após esta referência ao nosso ministério
plural, a palavra passou a ser especificamente sobre a minha vida. O anjo
prosseguiu:
·
"Quanto
a este, é um guerreiro divertido; ele não pergunta se é o tempo de Deus ou não
para atravessar a ponte..." E então a mensagem continuou, não apenas nas palavras
que ele usava, mas em visões que ilustravam o que ele estava falando. Neste
momento em que o anjo afirmava que eu não perguntava o tempo de Deus para
atravessar uma ponte, Francisco via a cena: eu estava diante de uma ponte e
afirmava: - "Ponte foi feita para passar", quase como que dizendo: -
"Se ela está aí eu não preciso esperar nenhuma hora específica, é só
seguir em frente".E era isto que o pastor me via fazer na visão; passei
correndo uma, duas, três, várias pontes! E ele simplesmente sabia, mesmo sem
lhe ser dito, que as pontes significavam o acesso de um nível ministerial a
outro; Deus comunicava-lhe isto ao espírito à medida em que a revelação
vinha. Eu passava as pontes bem depressa, e uma atrás da outra! Até que o
mesmo anjo foi e quebrou algumas pontes diante de mim para que eu não as
atravessasse; foram mostradas três pontes específicas que ele destruiu para
que eu não passasse. E então veio a explicação pela boca do mensageiro
celestial:
·
"Ele
estava avançando para níveis ministeriais sem que estivesse pronto, tratado,
para isto. Por isto foi necessário quebrar algumas pontes, mas ele é rebelde e
não aceita o tratamento de Deus. Quanto àquele acidente do ano passado,
diga-lhe que Satanás tentou tirar-lhe a vida, mas diga por que Deus o permitiu,
embora sem deixar que sua vida fosse tocada. Seu ministério estava crescendo
muito rápido sem que ele fosse trabalhado no íntimo, e neste ritmo ele iria
sucumbir debaixo do peso do próprio ministério; era uma questão de tempo. Por
isso Deus o parou; mas também para trazê-lo a esta cidade e tratar com ele; e
quando ele estiver pronto, o Senhor lhe dará um ministério de proporções
ainda maiores."
O impacto desta mensagem
foi e ainda é muito forte em minha vida. E até hoje quando conto esta experiência
me emociono e ao mesmo tempo me envergonho. Eu questionei a justiça e
fidelidade de Deus muitas vezes por Ele ter permitido que aquele acidente
ocorresse. Eu não falava isto, mas repetidas vezes eu pensei. E enquanto eu o
julgava assim no meu coração, Ele estava cuidando de mim! O Senhor estava me
protegendo de algo pior, não me abandonando naquela hora.
Ele nunca nos abandona.
Ele prometeu estar conosco todos os dias, até a consumação dos séculos.
Jamais haverá um dia sequer em nossas vidas no qual o Senhor não esteja ao
nosso lado! Nosso problema é tentar compreender o agir de Deus em vez de
confiar que Ele está no controle - mesmo que de modo estranho aos nossos olhos
e maneira de pensar.
Meu coração se quebrou
quando entendi o que havia acontecido. Pedi perdão ao Senhor por não confiar
n'Ele de todo coração e ter interiormente duvidado e murmurado contra Ele. Sei
que Deus me perdoou, mas até hoje tenho vergonha do papelão que fiz. Como fui
idiota, insensato! E muitos cristãos têm feito isto; ficam criticando Deus
enquanto Ele os defende, protege e provê o seu melhor para eles. Somos os únicos
injustos (e ingratos!) nesta história, e não Deus.
Mas sei que o Espírito
Santo vai lhe revelar muitas coisas sobre sua vida pessoal à medida em que você
prossegue na leitura deste livro. Aconselho-o a não oferecer resistência, mas
quebrantar-se diante de Deus e permitir que Ele o sare. Eu estava muito ferido e
machucado por dentro devido às mentiras que o diabo havia assoprado em minha
mente, mas a compreensão do que Deus estivera fazendo fora da vista dos meus
olhos sarou-me por completo e revelou-me uma nova dimensão do amor e do cuidado
d'Ele por mim. Muitas outras verdades bíblicas começariam a ser desvendadas
diante dos meus olhos a partir desta revelação.
Até então, se eu ouvisse
alguém ensinar o que hoje estou ensinando, eu discordaria e possivelmente até
entraria em choque. A influência que recebi do "ensino da fé", me
fez ficar um pouco "triunfalista", numa fantasia de que o que crente
pode vir a ser intocável. Recebi uma grande influência dos ensinos de Kenneth
Hagin, Dave Roberson, e outros ensinadores da fé. E louvo a Deus por suas vidas
e ministérios, pois eles têm sido instrumentos de Deus para resgatar a vida
vitoriosa que há em Jesus e vivem o que pregam.
Mas o Senhor começou a me
mostrar que eu havia criado uma mentalidade errada a partir de princípios
corretos. De fato Deus prometeu vitória sobre o inimigo, mas isto não
queria dizer que eu nunca sofreria um acidente como o que sofri, pois foi uma
vitória sobre Satanás! Como disse o anjo, se isto não tivesse acontecido (e
consequentemente me freado), eu poderia até ter perdido o ministério; e isto
sim, seria uma derrota. Mas o acidente não foi derrota, foi vitória e a forma
como Deus não apenas me livrou de um ritmo perigoso, como também redirecionou
o meu ministério e começou a tratar com o meu caráter e alma de forma mais
profunda.
O detalhe que eu não via
nestes homens de Deus é que o que eles pregavam era um alvo de vida cristã, não
algo que ocorreria de forma imediata ou instantânea com ninguém, pois nem em
suas vidas foi assim. Hoje, tendo passado a fase do tratamento de Deus, eles estão
numa outra dimensão, e creio que Deus realmente quer que avancemos para uma
dimensão mais profunda de vida cristã, se movendo mais intensamente no
sobrenatural e em grandes conquistas. Mas ninguém se iluda, pois isto não
acontecerá sem o tratamento de Deus em nossa alma!
O DIABO NÃO ENTENDE O
AGIR DE DEUS
Agora quero chamar sua
atenção para um outro fato: não somos os únicos a não compreender a
forma divina de operar; o diabo também não entende o agir de Deus!
Algo que o anjo deixou bem
claro no diálogo com o pastor Francisco, foi que Satanás tentou me destruir
naquele acidente, mas que Deus, em sua soberania, deixou o diabo trabalhar só
até certo ponto, e guardou-me a vida. Não tenho a menor sombra de dúvida de
que o plano maligno era parar um ministério que estava incomodando o reino das
trevas. A razão da investida do adversário era esta: parar definitivamente o
meu ministério.
Mas o diabo não conhece o
futuro! Quando um espírito maligno faz previsões que se cumprem, ele estava
trabalhando com planos já conhecidos. A razão porque não conseguem acertar
sempre é porque o futuro só é conhecido por Deus. Se Satanás conhecesse o
futuro, não precisava ter tentado me parar com aquele acidente, era só deixar
tudo como estava, e com o tempo a própria pressão de um ministério que
cresceria demasiadamente rápido me liquidaria!
Mas o diabo não conhece o
futuro e também não entende o agir de Deus, e o que ele me proporcionou através
daquela investida em 1993 redundou numa grande benção! Este é o assunto de
nosso capítulo; porque o diabo também não entende o agir de Deus, ele muitas
vezes acaba trabalhando para Deus! No meu caso ele trabalhou para Deus, e o que
quero mostrar são vários textos e exemplos bíblicos que mostram que isto é
um fato.
Satanás tem uma forma de
pensar semelhante à nossa. Logicamente na condição de anjo - caído - ele é
mais inteligente e astuto e tem uma mente superior, mas a forma de pensar é
parecida. A comparação é mais ou menos como se fossem dois computadores, um
bem mais potente que o outro, mas ambos com o mesmo programa; embora um seja
mais veloz que o outro, e com maior capacidade de armazenar informações, o
funcionamento é o mesmo pois trata-se do mesmo programa. Jesus mencionou isto:
"E Pedro,
chamando-o à parte, começou a reprová-lo, dizendo: Tem compaixão de ti,
Senhor; isso de modo algum te acontecerá.
Mas Jesus, voltando-se,
disse a Pedro: Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não
cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens."
Mateus 16:22,23.
O Senhor falou a Pedro e
aos discípulos que era necessário que ele sofresse em Jerusalém, fosse morto
e ao terceiro dia ressuscitasse. E Pedro tenta persuadir Jesus a pensar de forma
diferente, o que era totalmente contrário ao plano de Deus. Não sei se Jesus
se sentiu tentado a ter dó de si mesmo, mas o fato é que ele reconhece que
naquela hora Pedro estava sendo influenciado em sua forma de pensar por
outra pessoa, e repreende a Satanás. Mas é a frase utilizada por Jesus que nos
chama a atenção: "não cogitas das coisas de Deus, mas dos
homens". Cogitar é pensar.
O que o Mestre disse é
que a forma de pensar de Satanás não se assemelha à de Deus, mas à dos
homens. Isto nos leva a concluir que não interessa o quão astuto o adversário
seja, ele também não pode entender a forma de Deus agir! Os pensamentos de
Deus são mais altos, muito mais altos que os do diabo. Para o nosso inimigo, o
agir de Deus também é invisível e incompreensível.
E a revelação que o
Senhor começou a me trazer de sua Palavra, após aquela visão do Francisco,
foi a de que Ele age desta forma imprevisível e invisível para
propositadamente confundir Satanás e seu exército e, ainda, tirar proveito
fazendo com que trabalhem para Ele. Foi isto que Deus fez naquele meu acidente
de carro; usou uma investida maligna para me guardar de uma queda, levar-me de
volta à direção ministerial que Ele tinha, e ainda não só tratar comigo
como também me ensinar claramente estas verdades. Deus é soberano.
Ele não deixou o diabo
tocar naquele carro à toa; na verdade o Senhor pôs uma armadilha diante de
Satanás. Ouvi, há uns anos atrás, a irmã Valnice Milhomens ministrando, e
ela usou na ocasião uma frase que nunca esqueci; ela falou sobre Deus colocar
"sataneiras" diante de Satanás. Então explicou: Quando você quer
pegar ratos em uma casa, põe uma ratoeira como armadilha. E como Deus não
pega ratos, não usa ratoeira; para pegar Satanás Ele sempre usa as "sataneiras".
AS SATANEIRAS DE DEUS
Não estou baseando a ação
de Deus na experiência que eu tive, mas nos muitos exemplos bíblicos que
encontramos. Ao narrar a minha experiência, o faço como um ponto de partida
que geraram estas descobertas e mudaram minha forma de pensar. Examinaremos
algumas passagens bíblicas que mostram Deus agindo de forma que o diabo não
entendeu; e a primeira delas já nos revela que Deus usou tal ocorrido para
mandar um recado ao reino das trevas: sua multiforme sabedoria não pode
ser compreendida.
"A mim, o menor de
todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das
insondáveis riquezas de Cristo e manifestar qual seja a dispensação do mistério,
desde os séculos, oculto em Deus, que criou todas as coisas, para que, pela
igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida, agora, dos
principados e potestades nos lugares celestiais, segundo o eterno propósito que
estabeleceu em Cristo Jesus, nosso Senhor"
Efésios 3:8-11.
O texto fala sobre um mistério,
um segredo, que desde os séculos estava oculto, escondido em Deus. O contexto
(os dois capítulos anteriores e o começo deste) nos revela que tal segredo era
a inclusão dos gentios (ou seja, a Igreja) no plano de Deus para estabelecer
seu reino na Terra. Embora o que se esperava lendo o Velho Testamento era que
Israel fosse quem cumpriria o plano divino, Deus tinha um segredo prometido nas
entrelinhas das profecias acerca de Israel, e que apontava para a Igreja gentílica;
isto só veio a ser revelado nos dias do Novo Testamento (Mt.21:33-46 e
Ef.3:2-5).
A revelação do mistério
foi a manifestação da Igreja, e através dela o apóstolo Paulo disse que Deus
tornou sua multiforme sabedoria conhecida dos principados e potestades nas regiões
celestiais. Não que estes principados não conhecessem antes a sabedoria de
Deus; o livro de Tiago diz que os demônios crêem em Deus e estremecem; eles
conhecem o poder e a grandeza de Deus. Só que quando a Igreja surgiu, isso foi
algo totalmente inesperado no reino das trevas; foi uma verdadeira "sataneira".
O diabo não esperava por
esta! Havia uma expectativa tremenda nos dias de Jesus pela vinda do Messias,
que estabeleceria o reino de Deus, conforme fora dito claramente pelo profeta
Daniel. Os profetas apontavam a vinda de um rei e seu reino, e era isto que os
judeus esperavam; e foi contra isto que Satanás se armou. Para que um reino se
estabeleça, é preciso pelo menos duas coisas básicas:
1) O povo do reino - os súditos;
2.
O Rei do reino.
Se
tirarmos qualquer um destes elementos, não há como haver um reino. E os
registros bíblicos nos revelam que Satanás fez destes elementos o seu alvo
para tentar impedir a manifestação do reino.
Alistei
o povo antes do rei não por ordem de importância, mas de chegada. Pelo menos
aparentemente, já se sabia quem era o povo bem antes de se saber quem era o
rei. Digo aparentemente, pois embora Deus tenha feito promessas à descendência
de Abraão, o que nos levaria a interpretar como sendo o Israel natural, a
revelação que o Novo Testamento trouxe é que os filhos de Abraão não são
necessariamente os da carne, mas os da fé (Rm.2:28,29; Gl.4:22-31).
Mas
isto não ficou claro antes da vinda de Jesus, portanto, era de se esperar que o
povo do reino fosse o Israel natural, e o diabo tentou destruí-lo desde o princípio
da aliança de Deus com Abraão. O livro de Ester, por exemplo, é a narrativa
de como o inimigo tentou exterminar esta nação e como Deus estava sempre
presente, guardando-os. E nos anos que antecederam a vinda de Cristo, o diabo
sufocou a nação israelita debaixo de quatro grandes impérios: Babilônia,
Medo-Pérsia, Grécia e, por fim, Roma; em todos eles ele tentou destruir a
identidade da nação e, mesmo não conseguindo, roubou-lhe a independência e a
liberdade de se preparar para ser um grande e forte reino.
Mas
não adiantou, pois enquanto Satanás lutava para amarrar Israel como nação,
Deus levantou debaixo do nariz do diabo a Igreja gentílica! Era algo impossível
de se ver sem a revelação do Espírito; era um segredo de Deus, ou seja, era
parte do agir invisível de Deus. Ninguém imaginava que Deus estivesse
preparando isto, nem mesmo o diabo!
Portanto,
quando a Igreja foi levantada, por meio dela Deus estava mostrando sua
multiforme sabedoria aos principados e potestades. Foi como um recado que dizia:
"Não adianta, vocês nunca entenderão e jamais vencerão; Eu sou
maior!" O livro de Salmos diz que o Senhor se rirá de seus inimigos; creio
que nesta hora Deus riu... Enquanto os demônios observavam atônitos o mistério
de Deus e reviam seu trabalho inútil de tentar prender o povo do reino, creio
que Deus riu. E a Igreja é um recado eterno desta sabedoria de Deus e seu poder
de armar sataneiras.
Quando
o diabo se tocou que o povo do reino não era necessariamente Israel, mas sim os
que criam em Jesus e nasciam de novo (Jo.1:11,12), tentou então destruir a
Igreja. Observe o que diz a Bíblia:
"E Saulo consentia na sua morte. Naquele dia, levantou-se grande
perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos,
foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria.
Saulo, porém, assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando
homens e mulheres, encerrava-os no cárcere."
Atos
8:1,3.
Assim
que veio a perseguição, a Igreja perdeu seu sossego e os crentes começaram a
ser presos e até martirizados. Então muita gente, devido à intensidade da
perseguição, começou a fugir para outras cidades. E a Igreja que logo no início
já tinha chegado à marca dos cinco mil membros, dispersou-se, ficando apenas
os apóstolos. Aparentemente Satanás conseguiu o que queria e oprimiu o povo do
reino, mas ele não sabia que esta era mais uma sataneira!
Veja
o outro lado da história: Jesus havia capacitado seu povo com o poder do
Espírito Santo com um único propósito:
"mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e
sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e
até aos confins da terra."
Atos
1:8.
Eles
não deviam permanecer só em Jerusalém, mas a responsabilidade de serem
testemunhas de Cristo envolvia o começarem lá seu trabalho, mas depois
espalharem-se progressivamente pelas outras cidades da Judéia, as de Samaria e
então não parar mais! Só que o povo de Deus se acomodou. O tempo passou e
eles estavam lá em Jerusalém ainda. Não estavam obedecendo a Cristo. Não
haviam se tornado ainda uma Igreja missionária. Algo precisava ser feito.
E
sabe quem ajudou?
O
diabo. É, ele mesmo!
Até
Satanás enviar aquela perseguição, ninguém tinha saído pregar nas
circunvizinhanças. Mas quando o diabo quis destruir a indestrutível Igreja de
Jesus, caiu em mais uma sataneira, e ajudou a espalhar o evangelho:
"Entrementes, os que foram dispersos iam por toda parte pregando a
palavra."
Atos
8:1,3-4.
É
irônico como Deus põe seu inimigo para trabalhar para Ele; chega a ser engraçado.
Toda vez que Satanás investe contra a Igreja, ou mesmo contra a sua vida, saiba
de uma coisa meu irmão, enquanto ele ainda está indo, Deus já foi e voltou
algumas eternas vezes! Vimos o como o adversário tentou barrar o povo do reino
e se deu mal.
Agora
permita-me mostrar-lhe suas tentativas contra o rei do reino, e como elas
novamente demonstraram que a multiforme sabedoria de Deus continuava no
controle. Por várias vezes Satanás tentou parar Jesus. No começo foi com as
tentações no deserto, mas logo que Jesus Cristo o derrotou, os planos mudaram;
assim que ele saiu do deserto e foi para Nazaré, sua cidade, o tiraram da
sinagoga e tentaram empurrar-lhe de um penhasco, mas não puderam matá-lo.
Lucas
diz que ele simplesmente saiu do meio deles. Depois vemos que as conspirações
para a morte do Messias vão crescendo até que em Jerusalém Jesus é traído,
preso e crucificado. E o diabo está nesta conspiração; foi ele mesmo que
pessoalmente entrou em Judas para consumar a traição:
"Estava próxima a Festa dos Pães Asmos, chamada Páscoa.
Preocupavam-se os principais sacerdotes e os escribas em como tirar a vida a
Jesus; porque temiam o povo.
Ora, Satanás entrou em Judas, chamado Iscariotes, que era um dos doze.
Este foi entender-se com os principais sacerdotes e os capitães sobre como lhes
entregaria a Jesus; então, eles se alegraram e combinaram em lhe dar
dinheiro."
Lucas
22:1-5.
Nosso
Senhor mesmo declarou no Getsêmani, quando foi preso: "esta é a vossa
hora e o poder das trevas" (Lc.22:53). Não era apenas a hora humana,
daqueles que tinham conspirado contra Jesus, mas era a hora do poder das trevas
porque Satanás estava lutando de todas as formas para empurrar Jesus à cruz. E
"conseguiu".
Não
porque fosse mais forte que Deus, mas porque estava caindo em mais uma sataneira.
Jesus acabou mesmo morrendo e houve trevas sobre a terra. Creio que naquela hora
não se tratava apenas da natureza gemendo pela morte do seu Criador mas, que
também, se tratava de densas trevas de malignidade produzidas por uma reunião
de todo o reino do mal. O Salmo 22, que é messiânico, alude figuradamente à
presença de demônios em volta da cruz quando fala de vários animais como cães
e touros, que no aspecto natural não estiveram lá.
Só
que três dias depois Cristo demonstrou que só morreu porque quis e, que,
realmente, como ele mesmo dissera, tinha o poder de dar a sua vida e também de
retomá-la. Ele ressuscitou vitorioso sobre todo o poder das trevas e demonstrou
que não apenas sua ressurreição, mas a própria crucificação significava a
derrota do diabo. Aquilo que foi uma tentativa maligna de destruir a vida de
Jesus, tornou-se a derrota do próprio diabo.
Veja
dois textos que dão testemunho disto:
"tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que
constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente,
encravando-o na cruz; e, despojando os principados e as potestades, publicamente
os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz."
Colossenses
2:14,15.
"Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e
sangue, destes também ele, igualmente, participou, para que, por sua morte,
destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e livrasse todos
que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida."
Hebreus
2:14,15.
Aleluia!
Um texto diz que na cruz Jesus despojou os principados e potestades e triunfou
deles; outro diz que era necessário Jesus morrer para que pela morte Ele destruísse
o que tinha o poder da morte, o diabo. A tentativa maligna de destruir Jesus
virou contra o próprio diabo e o destruiu! Nossa mente não poderia imaginar
jamais que Deus escolheria um caminho assim tão estranho para vencer o diabo,
dar-lhe um aparente gostinho de "vitória", enquanto usava isto para
destruí-lo.
Não
podemos entender o agir de Deus. E o Senhor faz questão de que assim seja, pois
nesta sua maneira de agir não somente nós, os homens, ficamos sem entender o
que está acontecendo, mas o próprio diabo também fica; e na verdade esta é
uma das razões de Deus agir assim, para levar o próprio diabo a trabalhar para
Ele muitas vezes, como servo compulsório. Há vários textos capazes de
confundir a cabeça de qualquer um se não forem vistos por este prisma.
PERMISSÕES
PARA AÇÕES SATÂNICAS
Encontraremos
algumas vezes nas Escrituras, textos que nos mostram permissões divinas para ações
satânicas. Quero chamar sua atenção para alguns deles; e começaremos com um
dos mais conhecidos (porém mal entendidos) exemplos, o de Jó, que foi
duramente atacado pelo diabo. Só que o diabo conseguiu permissão para furar o
bloqueio da proteção divina; e quem a deu foi exatamente o Chefe da segurança!
"Perguntou ainda o SENHOR a Satanás: Observaste o meu servo Jó?
Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a
Deus e que se desvia do mal.
Então, respondeu Satanás ao SENHOR: Porventura, Jó debalde teme a
Deus?
Acaso, não o cercaste com sebe, a ele, a sua casa e a tudo quanto tem?
A obra de suas mãos abençoaste, e os seus bens se multiplicaram na terra.
Estende, porém, a mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não
blasfema contra ti na tua face.
Disse o SENHOR a Satanás: Eis que tudo quanto ele tem está em teu
poder; somente contra ele não estendas a mão. E Satanás saiu da presença do
SENHOR."
Jó
1:8-12.
Durante
muito tempo não aceitei o livro de Jó. Dizem que durante a Reforma Martinho
Lutero quis tirar o livro de Tiago da Bíblia, pois sua maior revelação na
Palavra havia sido a da justificação pela fé, e as afirmações de Tiago
sobre as obras o incomodavam; não sei se isto realmente foi assim, mas eu já
tive vontade de que o livro de Jó não estivesse na Bíblia! Como não poderia
tirá-lo, tentei arrumar explicações para o porque isto teria acontecido.
Então
comecei a ensinar que Jó havia dado brecha ao diabo; dizia que ele era medroso,
que era por ter tanto medo dos filhos pecarem, que ele fazia sacrifícios
preventivos, e que foi a porta do medo que ele abriu que deixou o adversário
entrar, pois ele mesmo admitiu: "Aquilo que temo me sobrevêm, e o que
receio me acontece" (Jó 3:25).
Mas
Jó disse isto depois das coisas estarem lhe acontecendo; e quanto a dizer que
era brecha espiritual, fica difícil ajustar isto ao testemunho que o Senhor dá
acerca dele, dizendo ser homem justo e irrepreensível; qualquer um que
estivesse dando brecha e lugar ao diabo deveria ser considerado repreensível,
mas ele não foi, pois não era este o seu problema. Se Jó somente
estivesse colhendo o que ele mesmo autorizou o diabo a fazer, então Satanás
nem teria que pedir permissão a Deus.
Tudo
isto é bobagem, são explicações simplistas para que outras doutrinas que
formamos fiquem de pé. O fato é que este é um exemplo de uma permissão
divina para uma ação satânica. Mas Deus não dá este espaço ao diabo à
toa; foi mais uma sataneira. E no fim Jó teve a restituição de tudo
mas, o que é mais importante, ele termina dizendo: "Eu te conhecia só
de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem." (Jó 42:5). No fim das
contas, o diabo acabou aproximando Jó ainda mais de Deus. Isto faz parte do
agir invisível de Deus. O Senhor está agindo mesmo nos momentos e circunstâncias
quando parece que nos abandonou. Ele está no controle.
Observe
um outro exemplo bíblico:
"Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar
como trigo! Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; tu,
pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos."
Lucas
22:31,32.
Confesso
que isto me assusta. É um tipo de coisa que ninguém gostaria de ouvir de
Jesus. Ele se chega para Pedro e lhe diz: - "Olha, o diabo pediu para
apertar vocês e ver o que é que sobra". Estou parafraseando o que foi
dito, pois o significado de peneirar é este; se o grão for graúdo fica na
peneira, se não for, sai do outro lado. O que Simão Pedro provavelmente
esperava e, certamente, se fosse comigo ou com você também seria o que nós
esperaríamos, é que Jesus dissesse não ao diabo e o mandasse embora. Só que
não foi isto que aconteceu.
Então
Jesus comunica a Pedro que deixou o diabo ir com tudo para cima deles, mas
avisa: - "Não é porque deixei ele atacar que isto signifique abandono; já
orei por você para que sua fé não desfaleça; estou cobrindo você." Mas
a maneira como Cristo encerra o assunto nos mostra o que Ele esperava do final
daquilo tudo: - "Mas tu, quando te converteres, fortalece a teus irmãos".
Em outras palavras, Jesus estava dizendo que aquela prova tocaria o coração de
Pedro de maneira tão forte, que ele se converteria, mudaria radicalmente. E o
lucro não seria só dele, mas deveria ser repartido com os irmãos, os outros
discípulos.
Esta
foi uma permissão divina para uma ação satânica. Só que não se tratava de
um abandono, nem de juízo, nem tampouco de injustiça da parte de Deus. Este
ocorrido foi parte do agir invisível de Deus e, tenha certeza: foi mais uma sataneira,
que fez com que o diabo ajudasse a fé de Pedro a se fortalecer, em vez de
destruí-la. Mais uma vez ele trabalhou para Deus.
Nas
cartas de Jesus às igrejas da Ásia, encontramos outro exemplo de uma permissão
divina para um ataque satânico:
"Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está
para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e
tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da
vida."
Apocalipse
2:10.
Mais
uma vez vemos Jesus avisando, antecipadamente, que o diabo vai fazer algo contrário.
Porém, não o vemos fazendo nada para impedir o diabo, nem tampouco mandando
estes irmãos resistirem ou lutarem.
Mas
Jesus avisa antes de acontecer (como com Pedro) para que saibamos que o controle
está nas mãos d'Ele, e não nas do diabo. O que Ele pede é fidelidade, que não
deixem a investida do inimigo mudar sua fé. E isto é vitória, mesmo que não
pareça. Para mim é difícil imaginar porque Deus deixaria alguém ser preso,
ainda mais em se tratando de que o diabo é que o lançou na prisão. Mas sei de
uma coisa, os caminhos e pensamentos de Deus são mais altos que os nossos, e não
há como entendê-lo em seu agir.
Mas
uma coisa eu sei, se Ele deixou o diabo fazer algo, é mais uma sataneira; Satanás
vai trabalhar para Deus de novo! Não estou dizendo que tudo o que o diabo faz
é prestação de serviços para Deus, mas que há circunstâncias onde o Senhor
lhe põe armadilhas. O diabo é como um cão preso; só vai até onde o tamanho
da corrente permitir. Se o Senhor lhe solta um pouco mais a corrente e o deixa
ir um pouco mais longe, não significa que ele está solto. Deus está no
controle das nossas vidas e se por acaso o diabo tiver alguma permissão de
chegar perto, não se assuste; se você é um servo de Deus e isto lhe ocorrer,
saiba que o Senhor o botou para trabalhar.
Um
dos textos que mais nitidamente mostram Satanás sob o controle divino está no
Apocalipse:
"Então, vi descer do céu um anjo; tinha na mão a chave do
abismo e uma grande corrente. Ele segurou o dragão, a antiga serpente, que é o
diabo, Satanás, e o prendeu por mil anos; lançou-o no abismo, fechou-o e pôs
selo sobre ele, para que não mais enganasse as nações até se completarem os
mil anos. Depois disto, é necessário que ele seja solto pouco tempo.
Quando, porém, se completarem os mil anos, Satanás será solto da sua
prisão e sairá a seduzir as nações que há nos quatro cantos da terra, Gogue
e Magogue, a fim de reuní-las para a peleja. O número dessas é como a areia
do mar. Marcharam, então, pela superfície da terra e sitiaram o acampamento
dos santos e a cidade querida; desceu, porém, fogo do céu e os consumiu.
O diabo, o sedutor deles, foi lançado para dentro do lago de fogo e
enxofre, onde já se encontram não só a besta como também o falso profeta; e
serão atormentados de dia e de noite, pelos séculos dos séculos."
Apocalipse
20:1-3, 7-10.
Na
hora certa de Satanás ser preso, não será necessário mais do que UM anjo.
Somente um dará conta do recado. Isto mostra que o diabo não é tão grande
como os crentes às vezes o estão pintando, pois nosso Deus é o Todo-Poderoso.
Satanás tem poder, mas não todo o poder; isto somente nosso Deus tem. Na hora
certa, determinada por Deus, o diabo será preso e permanecerá preso por mil
anos, mas depois É NECESSÁRIO que seja solto por um pouco de tempo.
Observe
o termo "necessário"; o diabo precisa ser solto. Precisa por que?
Porque vai realizar mais um último trabalho para Deus! É claro que ele nunca
acha que está trabalhando para Deus, senão deixaria de agir; mas ao fim de
muitas empreitadas, não resta dúvida, ele acabou caindo em muitas sataneiras.
Após
mil anos de um reinado de paz e justiça, com a presença física de Jesus na
terra, com tudo em plena harmonia, e ainda por cima sem diabo para azucrinar a
vida de ninguém, ainda assim haverá gente que se rebelará contra o Senhor;
gente que por fora se rendeu ao senhorio de Cristo, mas não por dentro. E Satanás
fará o trabalho da peneira, para ver quem é quem. Depois ele e os que se
rebelaram serão julgados e lançados no lago de fogo.
Até
a sua última hora, Satanás estará sob o controle divino e prestando serviços.
Sei que falo com certa ironia, mas quero tentar chocar aqueles que acham que o
diabo está fora de controle. É certo que quando alguém dá direitos legais
para que Satanás opere em sua vida, e ele entra destruindo tudo, Deus não se
agrada disto; não foi Ele quem mandou o diabo fazer o serviço, mas não
podemos negar que ao criar os princípios espirituais, Deus criou também um
risco de ter que ver o seu adversário atacar alguém, e com direito para isto.
Não
quer dizer que Deus mande o diabo fazer o serviço sujo! Não, mil vezes não!
Mas mesmo assim, Deus tem o poder de levar aquela circunstância negativa, que não
era de seu agrado que acontecesse, para uma outra dimensão em que bênçãos
poderão redundar do ocorrido; e é importante lembrar que Deus é presciente,
ou seja, sabe de tudo mesmo antes de acontecer. Ele sabe onde o diabo vai atacar
e quais danos vai causar; sabe como reverter a situação e transformá-la em
lucro mesmo antes que ocorra. Deus é Deus. Aleluia!
03
MAIS
QUE VENCEDORES
"Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores,
por meio daquele que nos amou."
Romanos
8:37.
O
evangelho de Jesus é um evangelho vitorioso. A Bíblia diz que Deus "sempre
nos conduz em triunfo" (II Co.2:14); portanto podemos dizer que o
evangelho é triunfo - em termos finais. O apóstolo João declarou que todo o
que é nascido de Deus vence o mundo; nascer de Deus faz com que participemos da
natureza divina, e Deus é um Deus de vitória; temos, portanto, toda a capacitação
para vencermos. Isto é muito claro nas Escrituras: fomos chamados para vencer!
Mas
os ensinos concernentes a isto tem gerado muita polêmica no Corpo de Cristo
nestes dias, não porque seja difícil compreender pela Palavra de Deus que
nossa caminhada é vitoriosa, mas porque nosso conceito de vida vitoriosa está
muito distante daquilo que a Bíblia apresenta. Fantasiamos demais, e achamos
que seremos totalmente intocáveis, mas a Palavra de Deus não ensina isto. O
que ela ensina e promete é vitória. Vitória sempre e em todas as circunstâncias.
Mas se há algo que precisamos entender melhor, e é O QUÊ É vitória, COMO e
QUANDO ela se dá em nossa vida. Assim nos livramos do triunfalismo aparatoso e
exagerado.
Vencer
é prevalecer sobre o inimigo na batalha. Não se trata de ser inatingível, mas
de prevalecer sobre o inimigo. Muita gente tem pregado em nossos dias um
evangelho que dá garantia sobre tudo; se você não quer mais problemas venha a
Jesus (e a igreja tal...) e tudo estará bem. Desde o começo de meu ministério,
cri e preguei sinceramente este tipo de vitória; não nesta intensidade e nem
nestas palavras, mas muitas vezes dava a entender exatamente isto; dizia às
pessoas que se elas realmente cressem nas promessas do Senhor, estariam
levantando o escudo da fé e não seriam de forma alguma atingidas pelo inimigo
em tempo algum.
Minha
pregação não era fruto somente da influência de outros ministérios que
proclamavam este tipo de vitória, mas principalmente porque eu vivia isto. Tive
experiências tremendas de livramentos de Deus; numa delas, num assalto, onde o
ladrão colocou uma arma na minha cara, houve uma interferência angelical e a
história terminou comigo evangelizando o assaltante que acabou não levando
nada meu. Por causa do que eu mesmo experimentava, acabava dando muita ênfase
nisto; mas o Senhor abriu meus olhos e me mandou escrever este livro para abrir
os olhos de seu povo.
Não
estou escrevendo contra quem tem pregado desta forma; creio que a maioria dos
pregadores que dão esta ênfase são sinceros e não têm encontrado no ensino
convencional uma clareza bíblica que os leve a ver com mais profundidade o
assunto. Ainda assim, prefiro milhares de vezes que alguém exagere na ênfase
da nossa vitória, do que pregue um evangelho de derrota, conformista. Mas
prefiro muito mais que os crentes em geral compreendam a vitória bíblica, do
ponto de vista de Deus, a proclamarem uma vitória utópica.
Toda
vez que eu citava Romanos 8:37, falava de como somos mais que vencedores;
mas para mim a idéia de mais que vencedor é que nós não apenas éramos
vencedores, mas nos encontrávamos num patamar bem mais alto; ou seja, se ser
vencedor já era bom, mais que vencedor era ainda melhor, mais intenso. Para
mim, mais que vencedor significava vitória demais. Porém, depois que Deus começou
a desvendar meus olhos para compreender seu tratamento em minha vida, uma das
primeiras coisas que Ele me falou foi sobre corrigir meu conceito deste versículo.
Um
dia, o Espírito Santo falou comigo enquanto eu lia esta passagem. Ele
questionou-me o que queria dizer a expressão "mais que vencedor". Eu
sabia muito bem porque Ele me perguntava; não porque precisasse saber o que eu
pensava, mas para me fazer meditar no assunto. Respondi que achava se
tratar de um nível mais elevado de vitória, daquele andar triunfalista que eu
pregava. E imediatamente o Senhor falou comigo que na vida espiritual não
existe dois patamares de vitória (o do vencedor e o do mais que vencedor);
vencedor é o que há de mais elevado. Ou alguém vence ou é derrotado, e só.
Então
o Espírito me disse que mais que vencedor significa que, além de vencermos a
batalha, ao fim dela seremos ALGUMA COISA A MAIS! Não só terminaremos como
vencedores, mas seremos algo mais. A partir desta afirmação, o Espírito Santo
conduziu-me por um passeio nas Escrituras, começando pelo seu contexto e se
estendendo a muitos exemplos e declarações bíblicas que comprovam isto. No
fim de cada batalha não seremos apenas vencedores, mas também teremos sido
tratados por Deus em nossa alma!
O
TRATAMENTO DE DEUS
Chamo
de tratamento o amadurecimento que o Senhor produz em nossas vidas em meio às
provas e tribulações. Nosso caráter é aperfeiçoado, enriquecido em meio à
adversidade. Isto não significa que o crescimento venha somente desta forma. Há
muitas formas de crescer espiritualmente: o envolvimento com a Palavra, que é
nosso alimento espiritual; o ensino e ministração dos mais maduros; nossa vida
de oração pessoal e as respostas e experiências que dela decorrem. Há tanta
coisa que pode ser mencionada! Mas quando falo de tratamento, refiro-me à forma
de Deus tratar com as áreas difíceis de nossas vidas, especialmente aquelas em
que não queremos nos deixar ser trabalhados e mudados profundamente.
O
contexto da afirmação de que somos mais que vencedores nos mostra isto. O versículo
começa dizendo: "MAS EM TODAS ESTAS COISAS". A palavra
"mas" revela que não interessa o que foi mencionado antes, a
vitória nos pertence e ela chegará a nós. E a frase "em todas estas
coisas" mostra que não somente a vitória virá, mas em meio a que
condições ela virá. O que são todas estas coisas a que Paulo se refere?
O próprio texto bíblico responde. É só examiná-lo dentro de seu contexto:
"Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia,
ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?
Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia
todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro.
Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio
daquele que nos amou."
Romanos
8:35-37.
Veja
exatamente o que o apóstolo Paulo havia mencionado:
•
tribulação,
•
angústia,
•
perseguição,
•
fome,
•
nudez,
•
perigo,
•
espada.
Aqui
temos a resposta do que são "todas estas coisas", e isto não se
parece com um evangelho onde o crente é intocável! Contudo não é tampouco a
forma como devemos viver, mas algo a que, ocasional e temporariamente, podemos
vir a estar sujeitos. Observe que não estou dizendo que temos que passar por
estas coisas, mas sim que podemos (pode ser que aconteça, pode ser que não);
e, ainda assim, se vier a acontecer, será ocasional e temporário.
O
quadro de tribulação certamente será mudado, pois NESTAS COISAS somos mais
que vencedores! Deus não nos chamou para viver nelas, mas também nunca disse
que elas não tinham a menor possibilidade de aparecer por perto e até mesmo
ficarem um pouquinho.
Portanto,
ser mais que vencedor não é deixar de passar por estas coisas, mas sim vencer
em meio à elas e apesar delas! A tribulação virá e pode durar um tempo, mas
ao fim dela você será vencedor, pois está em Cristo. Mas você não apenas
vencerá como também chegará ao fim da luta e da adversidade mais maduro, mais
forte, e terá experimentado um tratamento todo especial de Deus em seu caráter
cristão. As tribulações vêm e vão e se permanecermos firmes no Senhor,
sempre as venceremos, mas quando elas se vão nos deixam melhores que antes. É
o que diz a Bíblia:
"Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias
provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz
perseverança.
Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais
perfeitos e íntegros, em nada deficientes."
Tiago
1:2-4.
Algumas
deficiências serão tratadas em nós pelo poder das provas, que são permitidas
pelo Senhor para que possamos chegar a ser perfeitos e íntegros, completos. Não
creio que o Senhor queira nos fazer sofrer, mas nossa teimosia e rebeldia nos
impedem de aprender. Penso que quanto mais maleável, tratável, for alguém e
corresponder com rendição ao Senhor, menos tratamento terá. Mas não creio
que haja alguém tão perfeito e puro, com tal domínio de seu coração
enganoso, que não passe por nenhuma espécie de tratamento. Até mesmo Jesus,
sem nunca ter pecado, passou por isto:
"Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte
clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte e tendo
sido ouvido por causa da sua piedade, embora sendo Filho, aprendeu a obediência
pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação
eterna para todos os que lhe obedecem"
Hebreus
5:7-9.
Jesus
aprendeu - como homem - a obediência pelas coisas que sofreu. A Bíblia diz que
Ele foi aperfeiçoado (este é o propósito das provas) em meio ao sofrimento. E
se até mesmo Ele passou por este processo, o que nos leva a pensar que estamos
isentos e que tal não nos sucederá?
Deus
tem uma indescritível habilidade de aproveitar as circunstâncias, mesmo as
mais negativas, para usá-las em nossas vidas. Isto não quer dizer que
viveremos nelas. Temos uma promessa de vitória, elas chegarão ao fim e nós
teremos o livramento do Senhor, mas quando elas tiverem ido deixarão um
tratamento divino em nosso caráter, que se deu durante a prova. No meu caso por
exemplo, no acidente de carro pelo qual passei, sofri perdas materiais.
Tudo
o que perdi me foi restituído de forma multiplicada depois, mas até que isto
acontecesse eu não conseguia entender porque Deus havia deixado Satanás roubar
meus bens. O momento da restituição foi a vitória que eu esperava, mas quando
ela veio, descobri que eu não apenas havia vencido, mas me tornara mais que
vencedor naquela situação, pois aprendi muito acerca de valores. Nossa mente
está muito presa a valores materiais somente; só pensamos em números, e com
um cifrão na frente!
Eu
avaliava minhas perdas usando a calculadora; quanto eu havia perdido no carro,
em roupas, em livros, e coisas assim. Mas quando Deus começou a mostrar-me os
lucros, vi que tais dividendos não podiam ser somados numa calculadora! O fato
do Senhor ter me livrado de cair e comprometer minha vida espiritual e
ministerial e também de ter sido conduzido ao lugar e obra que Ele tinha para
minha vida não podem ser medidos em números! Hoje eu pagaria muitas vezes mais
o que aparentemente perdi naquele acidente para poder ter as coisas que com ele
me sobrevieram. Para o nosso Deus não há nada que não possa redundar em benção
na vida daqueles que o amam e estão sob o seu propósito eterno:
"Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam
a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito."
Romanos
8:28.
Não
há nada, absolutamente nada que nos suceda que fuja ao controle de Deus. Ele
conhece todas as coisas antecipadamente; conhece também o futuro e onde cada
experiência do passado vai ser útil; sua Soberania é impossível de ser
descrita ou explicada. Há certas tribulações que vão trabalhar em nossas
vidas, forjando um melhor caráter para Deus.
Muitas
pessoas só conhecem os verdadeiros valores em meio às perdas materiais. Jó
foi alguém que conhecia a benção da prosperidade, mas em meio às perdas,
conheceu valores ainda mais profundos do relacionamento com Deus do que os que
possuía antes, a ponto de poder dizer: - "Antes eu te conhecia só de
ouvir falar, mas agora meus olhos te vêem" (Jó 42:5).
Em
determinadas ocasiões de dificuldades teremos que aprender a depender de Deus
mesmo. Mas estamos sendo tratados; estamos sendo levados para o matadouro,
morrendo para nosso eu, triturando nossa carne. José passou por anos de provas
terríveis; foi vendido como escravo pelos seus irmãos, distanciou-se de sua
família e foi sujeito a uma grande vergonha e humilhação. Mas ele não se
entregou. Lutou até se tornar o mais alto funcionário na casa em que entrou
como escravo.
Quando
parecia que as coisas estavam se acalmando foi preso injustamente pela sua
lealdade ao seu senhor. Na prisão ele lutou contra as circunstâncias e chegou
a ser chefe dos presos em seus trabalhos. Somente depois de muitos anos veio a
vitória. Ele foi exaltado a governador, e livrou seu povo de ser destruído
pela fome. Mas não creio que tenha sido só isto e mais nada.
Havia um novo homem dentro
de José, amadurecido pelas provas, digno de governar e que reconheceu tudo sob
o controle de Deus a ponto de dizer aos seus irmãos: "Vós, na verdade,
intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como
vedes agora, que se conserve muita gente em vida" (Gn.50:20). Quem dera
cada um de nós pudesse ver esta soberania de Deus sobre as circunstâncias como
José viu! Mas isto não acontece sem as provações; são nelas que aprendemos
a ver Deus numa dimensão mais profunda.
Infelizmente, em nossos
dias o evangelho diluído que se prega está formando uma geração de medrosos
e covardes que correm diante das adversidades; mas uma reviravolta está por
acontecer! O Senhor levantará um exército cuja fé estará firmada n'Ele e não
nas circunstâncias, e o diabo não poderá barrá-los com nada. Este dia se
aproxima e este livro em suas mãos é uma convocação divina para que você se
junte a este exército. O Senhor quer uma geração de crentes valorosos que
realmente podem tudo naquele que os fortalece.
PODENDO TODAS AS COISAS
A grande maioria dos cristãos
de hoje não entende a clássica afirmação de Paulo que tanto repetimos:
"Tudo posso naquele que me fortalece" (Fl.4:13). Decoram o versículo,
colocam-no em tantos lugares na forma de adesivo: porta de casa, vidro do carro,
capa de caderno, etc; pintam-no nas camisetas, fazem tudo com ele, mas não o
entendem! Poder tudo em Deus não reflete só a força para vencer, mas sim para
suportar as circunstâncias até que venha a vitória. Quando examinamos o seu
contexto vemos que é exatamente disto que Paulo falava:
"Alegrei-me,
sobremaneira, no Senhor porque, agora, uma vez mais, renovastes a meu favor o
vosso cuidado; o qual também já tínheis antes, mas vos faltava oportunidade.
Digo isto, não por
causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação.
Tanto sei estar
humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já
tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de
escassez; tudo posso naquele que me fortalece.
Todavia, fizestes bem,
associando-vos na minha tribulação."
Filipenses 4:13.
Tanto no versículo 10
como no 14, Paulo fala que estava em tribulação, ou seja, necessidades
materiais. Os irmãos interviriam com uma ajuda, uma oferta amorosa para seu
sustento, e ele lhes diz que ela veio de encontro à sua necessidade do momento,
ou como ele mesmo denomina: pobreza. Mas o apóstolo não reclama da privação,
mas diz que APRENDEU a viver contente em toda e qualquer situação.
Observe isto: ele aprendeu
o contentamento, o que significa que no início de sua carreira cristã ele não
o possuía. E onde foi que ele aprendeu a exercer esta virtude? Em meio a abundância
ou à falta? É claro que na falta, pois são em circunstâncias como esta que
Deus trata conosco.
Quando chegou a provisão
enviada pelos irmãos filipenses, Paulo teve a vitória sobre a privação e
necessidade, mas ele não apenas venceu, ele foi mais que vencedor! Ele venceu e
APRENDEU o contentamento. Aprendeu que sua alegria em Deus independe do que
acontece do lado de fora e deve estar presente em toda e qualquer situação.
Aprendeu que não são as circunstâncias que devem reger nossos sentimentos,
mas sim a confiança no Deus da nossa vitória. Ele foi tratado pelo Senhor a
ponto de se desapegar completamente das coisas materiais e viver contente pelo
fato de que Deus é maior do que nossos problemas e intervém neles.
Paulo ainda diz que tinha
experiência em tudo, tanto na fartura e abundância como na falta e escassez,
mas que não interessava que tipo de situação ele passava, pois ele podia
todas as coisas naquele que o fortalecia: Deus. E vemos claramente que poder
todas as coisas não é deixar de passar por tribulações, nem tampouco vencê-las
tão imediatamente cheguem, mas suportá-las paciente e confiantemente sabendo
que a vitória do Senhor é certa e que ela chegará a tempo.
O Senhor está à procura
de homens e mulheres que se deixarão ser tão trabalhados por ele nessa questão
e que virão a ser soldados de tamanho poder de guerra que darão muita dor de
cabeça ao diabo.
Já é tempo de deixarmos
de lado nosso egoísmo como se o evangelho fosse apenas um meio pelo qual temos
nossos sonhos realizados; não servimos a Deus por causa do que Ele faz, mas sim
por causa do que Ele é! Não estou negando que Deus faz, pois realmente faz, e
faz muito pelos seus! O que estou afirmando é que o que Ele nos faz não é
mais importante do que o que Ele é.
Quando Moisés queria um
nome para anunciar a Israel quem era o Deus que se revelara a ele na sarça,
Deus chamou-se a si mesmo de Eu Sou. Quando alguém chega ao ponto de servir ao
Senhor baseado naquilo que Ele é, independentemente do que Ele faz, está num
lugar onde o diabo não poderá prendê-lo no seu ministério. O apóstolo Paulo
estava dizendo que tendo a provisão material em abundância ou não, ele vivia
contente de qualquer forma, pois muito acima dos milagres de provisão - que
sempre vinham, era uma questão de tempo apenas - ele aprendera a se relacionar
com Deus e se fortalecer nele. Isto é ser mais que vencedor.
OLHANDO PARA O ALTO
Fomos chamados para viver
acima das circunstâncias e ter os nossos olhos no Senhor. As Escrituras
Sagradas nos dizem que Satanás veio para roubar, matar e destruir (Jo.10:10).
Esta era uma das menções bíblicas que eu mais gostava de pregar, dando ênfase
ao fato de que Cristo, por sua vez, veio para nos dar vida e vida com abundância.
Eu sempre dizia que o diabo vive tentando roubar a saúde, o dinheiro e a família
de cada vivente, pois ele não quer que ninguém seja feliz sob as bênçãos de
Deus.
Mas o fato é que o diabo
não está tão preocupado com estas coisas, elas não são seu verdadeiro alvo.
O que ele verdadeiramente quer é roubar nossa fé e relacionamento com Deus.
Este é seu fim, seu grande objetivo; mas roubar a saúde, o dinheiro e a família,
são MEIOS QUE ELE USA para tentar conseguir chegar onde realmente quer.
Portanto, precisamos
aprender a viver olhando para o alto, com nossos olhos fixos no Senhor em todo
tempo, independentemente das circunstâncias à nossa volta. E o processo de ser
mais que vencedor tem a ver com isto. No fim da prova Deus não somente nos dá
a vitória, como também nos ensina a apegarmo-nos mais a Ele, vivendo acima das
situações externas. A geração atual de crentes vive olhando somente para as
coisas terrenas, não tem seus olhos em Deus. Nossa pregação praticamente só
enfatiza o que é terreno, quase não se leva as pessoas a olharem o celestial;
mas segundo a exortação bíblica, devemos levantar nossos olhos:
"Portanto, se
fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde
Cristo vive, assentado à direita de Deus.
Pensai nas coisas lá
do alto, não nas que são aqui da terra; porque morrestes, e a vossa vida está
oculta juntamente com Cristo, em Deus."
Colossenses 3:1-3.
Note o mandamento da
Palavra que vem como um imperativo: Buscai e pensai nas coisas do alto, não nas
que são da terra. Em toda a Bíblia encontraremos advertências quanto à
termos nossos olhos no alto em vez de na terra. No tabernáculo de Moisés, que
Deus o mandou construir segundo o exato modelo das visões que ele teve no
monte, é impressionante a ênfase figurada que o Senhor deu deste assunto.
Quando mandou Moisés
fazer as quatro coberturas que se sobrepunham como teto da tenda da revelação,
o Pai Celestial mandou que elas fossem todas bordadas, embelezadas; eram um
verdadeiro espetáculo artesanal que ninguém hoje poderia reproduzir, pois a
arte não era meramente humana, Deus havia enchido os artesãos com seu Espírito
para que pudessem executar o modelo divino ordenado. Portanto, quando alguém
entrava na tenda da revelação, se queria ver algo belo tinha que olhar para
cima, para o alto.
Mas se conservasse seus
olhos no chão não veria beleza alguma, pois Deus nunca mandou que fizessem
nenhum tipo de piso, aonde acampavam utilizavam-se da própria terra do local.
Enquanto o teto era indescritivelmente belo, o chão era feio, de terra. Assim
também é na vida cristã, a beleza do andar com Deus está quando aprendemos a
olhar para o alto, para Deus mesmo e as coisas celestiais; não há beleza numa
vida de preocupação somente com o terreno.
Não há nada
espiritualmente belo num evangelho que só prega sobre o dinheiro e os caprichos
deste mundo como se isso fosse a prosperidade bíblica! Não se engane, nossos
olhos devem se levantar bem acima do que é terreno, sejam os atrativos deste
mundo ou as circunstâncias negativas que nos cercam; devemos olhar para o alto
em todo tempo.
Crentes que só se
preocupam com o dinheiro e seus negócios, não servirão ao propósito divino
da colheita de almas, pois para se ter a sensibilidade espiritual de ver a
necessidade dos perdidos é preciso tirar os olhos das coisas terrenas e levantá-los
para os céus. Jesus mesmo disse: "erguei os olhos e vede os campos,
pois já branquejam para a ceifa" (Jo.4:35). Por que o Mestre disse
isto aos discípulos?
Porque enquanto eles só
haviam pensado em buscar comida e saciar sua fome naquela aldeia de samaritanos,
Jesus se preocupara em ganhar aquela mulher que estava junto ao poço de Jacó,
e ela por sua vez, trouxe praticamente toda a aldeia para ouvi-lo. Então ele
lhes diz que se nossos olhos estiverem no chão, cuidando apenas das coisas
terrenas, não enxergaremos os campos brancos para a ceifa; ou seja, não
teremos a sensibilidade de ver a necessidade espiritual das pessoas.
Temos que olhar para o
alto se queremos ser úteis ao Senhor, pois aqueles que só olham para o chão
desanimam-se nas horas difíceis e deixam de servi-Lo. Já quanto aos que têm
seus olhos no Senhor, não há o que os faça parar.
Prender nossos olhos no chão
é o grande plano satânico contra nossas vidas; ao atacar nossa saúde, família
e bens, o que o maligno quer de fato é tirar nossos olhos do Senhor, fazendo
com que fitemos somente o chão, o terreno. Embora, como diz meu pai, tirar os
olhos da terra não significa tirar os pés do chão (a perda do pragmatismo e
da disciplina). Há um texto bíblico que revela esta astúcia do inimigo em
seus ataques; examinêmo-lo com suas figuras espirituais:
"E veio ali uma
mulher possessa de um espírito de enfermidade, havia já dezoito anos; andava
ela encurvada, sem de modo algum poder endireitar-se.
Vendo-a Jesus, chamou-a
e disse-lhe: Mulher, estás livre da tua enfermidade; e, impondo-lhe as mãos,
ela imediatamente se endireitou e dava glória a Deus."
Lucas 13:11-13.
Esta mulher andava
encurvada por quase duas décadas, e não havia meios de se endireitar pois sua
doença era espiritual e não física. Tratava-se de um espírito maligno de
enfermidade, um agente de Satanás prendendo seu corpo. Sabe, há uma figura
aqui; esta mulher vivia olhando somente para o chão; sua costa encurvada a
impedia de andar olhando para cima. Podemos ver em operação na vida desta
mulher o verdadeiro plano maligno contra cada cristão; Cristo disse que ela
estava numa prisão de Satanás:
"Por que motivo não
se devia livrar deste cativeiro, em dia de sábado, esta filha de Abraão, a
quem Satanás trazia presa há dezoito anos?"
Lucas 13:16.
Estar numa prisão de
Satanás não quer dizer que o próprio príncipe das trevas a prendia
pessoalmente, pois já vimos que era um enviado dele, um espírito de
enfermidade, quem realizava o trabalho. Mas Jesus mostrou que tal espírito
maligno só estava cumprindo ordens de seu chefe, o que nos permite ver que o
plano era de Satanás e a execução era do subalterno dele. Por que é
importante notar isto? Para entendermos que o inimigo não nos ataca só por
atacar, ele tem planos e estratégias para tentar nos derrubar e devemos nos
prevenir contra ele!
Que tipo de prisão era
esta que Jesus mencionou? Não era a doença e nem o espírito de enfermidade em
si, mas a que ponto ele levava esta mulher. Ela não podia olhar para o alto! É
isto que o diabo quer, que tiremos os nossos olhos de Deus; esta era uma crente
da época, pois foi chamada de "filha de Abraão", referência dada não
só por ser naturalmente descendente do patriarca, mas por esperar na promessa
divina feita a ele. Também vemos que ela estava na sinagoga, o que poderíamos
chamar de a igreja da época. Não se tratava de uma pecadora qualquer que nada
queria saber acerca de Deus, mas de alguém que o temia, cria n'Ele e queria
andar em sua presença.
Semelhantemente, Satanás
tenta nos prender com os olhos no chão, para que não olhemos para cima. E por
que ele nos ataca desta forma? Porque ele não pode nos arrancar das mãos de
Deus, como Jesus mesmo falou:
"As minhas ovelhas
ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem.
Eu lhes dou a vida
eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão.
Aquilo que meu Pai me
deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar.
Eu e o Pai somos
um."
João 10:27-30.
O diabo jamais poderá nos
tirar das mãos de Jesus! Nunca! Temos um claro pronunciamento de Jesus Cristo
neste sentido. Mas ele vai atacar com sutileza; ele quer nos indispor com o
Senhor, fazendo com que nos voltemos contra Ele, porque então nós mesmos
desceremos dos braços do Senhor e estaremos expostos. No livro do Apocalipse, o
Senhor faz menção da doutrina de Balaão, que costumava ensinar Balaque a por
tropeços diante dos filhos de Israel para que pecassem (Ap.2:14).
Lemos em Números que
Balaque contratou Balaão para amaldiçoar a Israel pois tinha medo de ser por
ele destruído na batalha. Deus advertiu a Balaão que não fosse após Balaque,
mas ele amou o prêmio da injustiça e desobedeceu. Mas não conseguiu amaldiçoar
ao povo do Senhor, pois em cada uma das quatro vezes em que tentou fazê-lo,
Deus mudou suas palavras em bênçãos sobre os israelitas. Vendo que nada podia
contra o povo, Balaão aconselhou Balaque, rei dos moabitas, a enviar as
mulheres do seu povo ao arraial dos israelitas para que se prostituíssem com
eles e então os levasse a adorar os deuses delas.
Qual foi o pensamento de
Balaão? Ele viu que não havia como tocar o povo pois eles estavam debaixo da
proteção divina e com Deus ninguém pode; então a única saída seria colocar
o povo contra Deus, visto que Deus não abandonaria o povo. E quando através do
pecado da prostituição e também da idolatria o povo se afastou do Senhor, então
ficou vulnerável, e a ira do Senhor se acendeu contra o povo.
O que Balaão não podia
fazer contra o povo, fez com que o próprio povo fizesse contra si mesmo! É
assim que o diabo age. Uma vez que ele não pode tirar-nos da mão do Senhor,
nem fazer nada contra nossas vidas por permanecemos em Cristo, então tenta nos
colocar contra o Senhor, para que saiamos do colo d'Ele e fiquemos vulneráveis.
Esta é a razão porque o
maligno tanto tenta prender nossos olhos nas coisas materiais, para que quando
conseguir tocar nelas isto venha a doer em nós a tal ponto de nos indispormos
contra Cristo. Mas na vida daquele que ama o Senhor e tem os olhos n'Ele, o
inimigo não consegue isto.
Isso nos permite ver
porque Satanás investe tanto contra o que possuímos, não porque seja isto o
que ele queira, mas por ser o meio para que ele tente chegar onde realmente quer
chegar: minar nossa fé e relacionamento com o Senhor. Mas diante disto podemos
também enxergar porque Deus permite o inimigo investir contra estas áreas de
nossas vidas; cada ataque maligno pode ser visto como um tempo de treinamento e
adestramento para os soldados do exército divino.
No paralelo natural, nunca
vemos num quartel os soldados prepararem-se para a guerra passando um ano
inteiro deitados em redes com sombra e água fresca. Não! Pois isto não
prepara ninguém! Também o Senhor não treina seu exército no bem-bom da vida,
mas em meio às provas e tribulações.
E muitas vezes Deus
permitirá o ataque do maligno contra seus bens materiais para que ao fim você
não apenas vença, mas seja mais que vencedor, seja alguém tratado pelo
Senhor; pois enquanto Satanás nos tira algo tentando fazer com que nosso coração
egoísta se volte contra Deus, o Senhor por sua vez, permite que aquilo seja
temporariamente tirado até que nosso coração aprenda a não se apegar àquilo
mais do que a Deus.
Às vezes será do
interesse não só do diabo, mas também de Deus que algo nos seja
temporariamente tirado. Percebi isto em meu acidente; não era somente Satanás
que queria me tirar o carro e o ministério, mas naquele momento singular da
minha vida Deus também queria muito fazê-lo! Não só para me conduzir ao seu
plano para a minha vida, mas para me fazer entrar no que aquele anjo celestial
chamou de "o tratamento de Deus comigo".
Mas o golpe do diabo doeu
em mim porque minhas coisas valiam mais para mim do que eu imaginava; meus olhos
estavam no chão e não no alto. Mas Deus me ensinou, e como Paulo posso dizer
que aprendi. Quando um homem ou uma mulher de Deus colocam seus olhos no Senhor
e assim permanecem, serão vitoriosos. Tenho aprendido que os ataques mais
atrozes do inimigo, como aqueles em que pessoas chegaram ao ponto de morrer por
Cristo, não visavam tocar nas circunstâncias e nem mesmo na vida destas
pessoas; o diabo não queria que morressem, mas que, por medo da morte negassem
Jesus.
Cada vez que um mártir
derramou seu sangue pelo evangelho, Satanás não ganhou, só perdeu. Pois o
heroísmo dos mártires somente fortaleceu o evangelho, nunca o enfraqueceu.
Nosso conceito de vitória ainda é muito carnal, terreno; mas os mártires
foram além disto e venceram ao diabo (Ap.12:11), pois sabiam manter seus olhos
no Senhor. Veja um exemplo disto:
"Mas Estêvão,
cheio do Espírito Santo, fitou os olhos no céu e viu a glória de Deus e
Jesus, que estava à sua direita, e disse: Eis que vejo os céus abertos e o
Filho do Homem, em pé à destra de Deus.
Eles, porém, clamando
em alta voz, taparam os ouvidos e, unânimes, arremeteram contra ele.
E, lançando-o fora da
cidade, o apedrejaram. As testemunhas deixaram suas vestes aos pés de um jovem
chamado Saulo.
E apedrejavam Estêvão,
que invocava e dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito!
Então, ajoelhando-se,
clamou em alta voz: Senhor, não lhes imputes este pecado! Com estas palavras,
adormeceu."
Atos 7:55-60.
O relato bíblico diz que
Estevão, cheio do Espírito, FITOU OS OLHOS NO CÉU. Algo que o Espírito Santo
vai operar em nós à medida em que nos rendemos a Ele, é tirar nossos olhos do
chão para o céu; das coisas terrenas para as celestiais. Estevão foi o
primeiro mártir e nos deixou um modelo perfeito de vitória sobre o inimigo:
seus olhos estavam em Deus, não no que é terreno. E neste texto tenho
descoberto um princípio espiritual figurado muito forte: Quando nossos olhos
estão no Senhor, somos anestesiados para os ataques malignos contra nossa vida!
Estevão foi milagrosa e
sobrenaturalmente anestesiado por Deus contra as pedradas que o mataram; o texto
diz que enquanto o apedrejavam ele invocava ao Senhor e orava, e mais: diz que
ele se colocou de joelhos, e à semelhança de Cristo na cruz, pediu que o
pecado de seus assassinos fosse perdoado. Ninguém que está sendo apedrejado
faz isto; nossa imediata reação é cobrir o rosto e se proteger como puder;
mas os olhos de Estevão não estavam em si mesmo, estavam nos céus, e em razão
disto podemos dizer que ele foi fortalecido por Deus, ou até mesmo que foi
"anestesiado".
Seria impossível em condições
normais ele se ajoelhar e ficar olhando para o alto sem se defender, mas algo
aconteceu com ele. E quando colocamos os nossos olhos no Senhor
independentemente de que tipo de situação estamos enfrentando, algo também
vai acontecer conosco; seremos confortados e anestesiados pelo Senhor, e Satanás
não será vitorioso. Pelo contrário, nós é que seremos mais que vencedores!
No caso de Estevão, o que
veio além da vitória não foi o tratamento, pois ele passou à glória
celestial, mas além de vencedor ele recebeu um galardão mais glorioso. É isto
que acontece com os mártires; Hebreus 11:35 diz que alguns não aceitaram seu
livramento porque visavam uma maior recompensa.
Quando passamos pelas
provas e tribulações, Deus não somente nos prepara a vitória que
inevitavelmente virá, mas usa o tempo em que nela estamos para tratar com nossa
alma. O Senhor lida com todo apego excessivo que temos nas coisas terrenas e nos
ensina a ter os olhos n'Ele; isto é ser mais que vencedor, é ser tratado por
Deus e chegar ao fim da adversidade melhor do que entramos.
ESPERANDO NO SENHOR
Se a vitória só vem no
fim da prova, o que acontece até lá? Podemos dizer que o tratamento acontece
dentro da prova, no tempo em que a pessoa está esperando o livramento de Deus.
O que faz alguém mais que vencedor não é uma vitória imediata, no primeiro
"round" da luta, por assim dizer; é justamente a espera que produz em
nós este tratamento.
Vivemos na época dos
instantâneos. Comida pronta congelada que em poucos minutos se prepara num
microondas. Rápida locomoção e transporte, como o avião. Fac-símile, e
outras coisas mais. Nossa geração não sabe ser paciente. Foi-se aquela época
em que se fazia a massa do macarrão em casa antes de prepará-lo no almoço! E
por causa disto não sabemos esperar; vivemos ansiosos, afobados e fazendo de
tudo para ganhar tempo.
Só que quando as provas e
tribulações chegam, achamos que as orações tem que ser todas
instantaneamente respondidas e que tudo deve se resolver com urgência; mas como
na maioria das vezes não acontece assim, acabamos nos desesperando. Precisamos
aprender a esperar, pois a espera produzirá preciosos frutos em nós se o
permitirmos.
Entre toda promessa de
Deus e seu cumprimento há um intervalo chamado tempo. O tempo é o período de
espera até que tudo se cumpra. O mesmo se dá na adversidade; entre o começo
dela e seu fim (nossa vitória) há um intervalo chamado tempo, em que devemos
esperar. A espera vai produzir mais resultados dentro de nós do que aquilo que
veremos fora de nós neste tempo. Muita gente acha que a espera é uma desculpa
dos que não crêem na intervenção imediata de Deus, mas na verdade ela é uma
marca na vida daqueles que crêem! Fé e paciência caminham juntas e não há
meios de separá-las; vemos isto no ensino do Novo Testamento:
"Desejamos, porém,
continue cada um de vós mostrando, até ao fim, a mesma diligência para a
plena certeza da esperança; para que não vos torneis indolentes, mas
imitadores daqueles que, pela fé e pela longanimidade, herdam as
promessas."
Hebreus 6:11,12.
Falando de perseverança,
e de não se desesperançar em meio às lutas, o escritor desta epístola fala
sob a divina inspiração que é preciso que sejamos diligentes e imitemos
aqueles que pela fé e paciência herdam as promessas. Ou seja, não se herdam
as promessas divinas apenas por fé, mas pela fé e paciência juntas! Isto não
dá sustento à visão de uma fé automática, tipo varinha de condão das fadas
madrinhas, mas leva-nos a ver que a espera faz parte do processo de intervenção
divina em nossas vidas.
Abraão foi chamado pai da
fé e deixou-nos um exemplo a ser seguido; vemos isto na carta de Paulo aos
romanos, no capítulo quatro, quando após chamá-lo de pai da fé, o autor diz
que devemos seguir as pisadas da fé de Abraão; e em Hebreus ele é novamente
apresentado como exemplo: "E assim, depois de esperar com paciência,
obteve Abraão a promessa." (Hb.6:15). Quando Deus fez a Abraão a
promessa de dar-lhe um filho, ele tinha 75 anos (Gn.12:4), mas quando a promessa
se cumpriu ele já estava com 99 anos (GN.17:1), o que totaliza um período de
espera de 24 anos!
O rei Davi também esperou
muitos anos desde o dia em que Samuel o ungiu até aquele dia em que assentou-se
sobre o trono de todo Israel. A espera não é sinal de derrota ou de falta de fé,
mas parte da operação da própria fé. É o período quando Deus estará
trabalhando mais dentro de nós do que fora. A espera nos amadurece para que
possamos receber o que o Senhor tem para nós; não passar o período de espera
significa não estar pronto para a herança.
O filho pródigo que o
diga! Não quis esperar a hora certa de receber a herança, e ao antecipar-se ao
momento devido, demonstrou não estar ainda preparado para o que tinha direito
de receber. E justamente por não estar preparado acabou perdendo tudo: o
dinheiro, o tempo fora de casa, sua moral e dignidade.
Verdadeiramente temos uma
herança em Deus. Temos direito a tudo aquilo que o Pai Celestial nos tem
prometido. Mas não encontramos em lugar algum da Bíblia qualquer alusão à
posse instantânea delas. Quando esperamos em oração e fé algo da parte do
Senhor, estamos amadurecendo para que possamos estar à altura daquilo que
viermos a receber.
Não aprecio muito as
campanhas promovidas por muitas igrejas que pregam a intervenção de Deus ao
fim daquelas semanas; há momentos em que Deus tocará a pessoa na primeira oração
que receber, e se isto não acontecer então precisamos ensinar esta pessoa a
esperar no Senhor até que receba o que necessita. Não interessa se vai demorar
um mês ou cinco anos! Temos que ensinar o processo da espera e perseverança.
Para a maioria destas igrejas, o máximo que se espera são as semanas da
campanha, depois, se nada aconteceu acaba ficando por isso mesmo...
A grande verdade é que
tais campanhas exploram a credibilidade das pessoas e as amarram nas reuniões
por mais tempo, forçando-as a permanecerem na igreja. Não podemos deixar de
desafiar as pessoas a crerem que o milagre e a intervenção do Senhor pode
acontecer de imediato; contudo não podemos dar nenhuma garantia de que sempre
será assim. Haverá momentos de espera e neles Deus não agirá apenas nas
circunstâncias externas, mas principalmente nos valores internos.
Tenho aprendido muito com
Moisés neste assunto. Ele viveu cento e vinte anos, que se dividem em três períodos
de quarenta anos. No primeiro período, o líder hebreu levou quarenta anos para
achar que podia fazer a obra de Deus; seu engano foi apoiar-se em toda cultura,
conhecimento, e educação que recebera no palácio de Faraó. Ao fim deste
tempo tentou fazer a obra de Deus em sua própria força e capacidade e
fracassou, o que o levou a fugir do Egito.
Então iniciou-se o
segundo período, e, ao fim destes quarenta anos, ele chegou à conclusão de
que não podia fazer a obra do Senhor; mesmo quando o Anjo do Senhor apareceu na
sarça e o comissionou, ele ficou se desculpando, alegando não ser a pessoa
ideal para o papel; após este período ele descobriu que não podia fazer nada
de si mesmo. E só então que o Senhor o envia a fazer, e o último período
(quarenta de anos) de sua vida foi gasto no ministério. Um ministério do porte
do que recebeu Moisés não se forma da noite para o dia e nem em alguns anos de
seminário! É necessário tempo, muito tempo para que toda a capacitação
interior ocorra; é preciso esperar, pois é na espera que Deus forja o caráter.
Mas a espera, em algumas
vezes, não envolve somente a dimensão pessoal. No caso de Moisés, seus
oitenta anos de preparação não eram apenas em função do tempo de Deus na
vida dele, mas também de outros fatores envolvidos na mesma história. Havia o
tempo de Israel como nação; o Senhor já falara antecipadamente a Abraão que
sua descendência seria escravizada: "Sabe, com certeza, que a tua
posteridade será peregrina em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e
será afligida por quatrocentos anos. Mas também eu julgarei a gente a que têm
de sujeitar-se; e depois sairão com grandes riquezas" (Gn.15:13,14).
Só que embora Israel
tivesse seu tempo dentro do plano de Deus, isto não dizia respeito a ele
somente, mas para que Deus os pudesse livrar do Egito e levá-los a possuir Canaã,
havia uma outra questão ainda: o tempo dos povos que habitavam em Canaã; o
Senhor disse, na mesma ocasião, à Abraão: "Na quarta geração,
tornarão para aqui; porque não se encheu ainda a medida da iniqüidade dos
amorreus" (Gn.15:16). Para tirar a terra dos cananeus e entregá-la ao
povo de Israel, havia um tempo onde a longanimidade de Deus estaria em operação,
depois este tempo se esgotaria quando eles enchessem a medida da ira divina, o
que resultaria em juízo.
Ao dar a terra de Canaã
aos hebreus, o Senhor não apenas cumpria seu plano na vida de seu povo, como
também julgava aqueles povos que rejeitaram a Deus em seus pecados. Estas
coisas aconteciam simultaneamente e tinham seu tempo. Mesmo antes de tudo isto
ocorrer, mais de seiscentos anos antes, Deus já havia dito que seria assim. Ou
seja, esta espera era necessária e não seria mudada. Foi o que o Senhor quis
dizer ao anunciá-la previamente. Dentro de todo este contexto é que entrava o
ministério de Moisés e foi por isso que ele não foi aceito antes, ainda não
era a hora; mas quando o tempo chegou, Deus o levantou.
Precisamos aprender a
esperar no Senhor. Davi declarou: "Esperei com paciência pelo Senhor, e
ele se inclinou para mim e ouviu o meu clamor" (Sl.40:1 - Revisada).
Para um número considerável de pessoas entre o povo de Deus hoje, esta não é
uma mensagem tão agradável, pois choca muito do que se tem ensinado por aí,
mas é bíblica. E será também um remédio para muitos que estão em crise! Não
pare de crer no que Deus pode e quer fazer em sua vida.
Se não acontecer
imediatamente à sua oração, persevere em buscar ao Senhor e crer que Ele agirá.
Espere n'Ele até receber e, quando tudo terminar, você verá que não somente
terá vencido a tribulação como também terá se tornado mais que vencedor.
Você terá sido tratado e trabalhado por Deus e, ao fim do período de espera,
descobrirá que enquanto esperava no Senhor, Ele não apenas agiu nas circunstâncias
mas também o levou a alcançar mais maturidade.
E aconteça o que
acontecer, saiba que Deus é soberano sobre todas as coisas a ponto de levá-lo
a lucrar em qualquer situação e que, se você não tirar os olhos d'Ele, nada
poderá afastá-lo do amor e cuidado d'Ele. Nada!
"Porque eu estou
bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem
as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a
profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus,
que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.
Romanos 8:38,39.
04
O CANTO DO GALO
O agir de Deus é invisível
aos nossos olhos. Está além da compreensão de nossa mente. A multiforme
sabedoria divina sempre trará surpresas, não somente a nós como também ao
adversário de nossas almas.
É lógico que dentro
daquilo que a Palavra de Deus afirma claramente sobre Deus mesmo, ou acerca do
Reino e seus princípios, não devemos esperar mudanças ou surpresas; por
exemplo, se lemos na Bíblia que a salvação é pela graça mediante a fé, não
há perigo de que o Senhor mude de idéia e anule o que está escrito. Quando
falamos de um agir imprevisível, referimo-nos àquelas coisas das quais as
Escrituras não falam claramente sobre como Deus agirá. Há assuntos dos quais
sabemos que Deus tem um compromisso de agir por ter prometido isto; a questão não
é se Ele agirá ou não, pois sabemos que certamente agirá, a questão é COMO
fará, e não há como prevermos isto.
Entretanto, dentro desta
visão de um agir invisível aos olhos humanos, a Bíblia revela princípios que
podemos saber que se manifestarão em nossas vidas. Quando nos rebelamos, Deus
trata conosco. Quando nos ensoberbecemos, Ele trata conosco também. Em várias
circunstâncias a ação divina poderá se mostrar um tanto quanto misteriosa.
Gerações anteriores à
nossa costumavam atribuir a Deus todas as coisas. Recentemente, Deus levantou
muitos mestres e profetas que contribuíram com o Corpo de Cristo trazendo luz
quanto a muitos princípios mal compreendidos, e pudemos ver que muitas vezes o
diabo estava agindo em vidas não por uma permissão divina, mas por autorização
da própria pessoa que quebrara princípios espirituais, dando assim lugar ao
maligno.
E em meio a tantos princípios
que vieram à luz, começamos a ir para o outro extremo; e uma figura distorcida
de Deus começou a ser proclamada, como se seu amor fosse colocado em questão
quando permitisse que passássemos por provas e tribulações. Antes, tudo
parecia vir de Deus; agora, tudo parece vir do diabo! Mas a grande verdade é
que nossos valores são tremendamente materialistas e corrompidos e nunca
conseguimos ver os valores interiores de caráter que precisam ser formados em nós;
e se esta formação de caráter nos custar perdas materiais, tenha certeza de
que Deus não só a aprovará, como verá LUCRO nisto!
Neste capítulo quero
partilhar um princípio que tenho aprendido com um dos meus pastores. Há
momentos em que o Senhor quer que saibamos que nós não somos tudo o que
pensamos ser. Nossa auto-suficiência e soberba impedem a ação de Deus em nós
e através de nós. E quando viermos a nos encontrar em situação de perigo
devido a estes sentimentos enganosos e ocultos em nossa alma, podemos ter
certeza de algo: o Senhor tratará conosco!
O título deste capítulo
é uma referência a como Deus tratou com Pedro na ocasião em que ele negava a
Cristo e o galo cantou. Convido-o a examinarmos a vida deste apóstolo e
aprendermos com ele acerca disto.
OS DISCÍPULOS ERAM
HOMENS FALHOS
Tiago, irmão do Senhor,
escreveu acerca do profeta Elias, um dos maiores vultos do Velho Testamento: "Elias
era homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos..." (Tg.5:17).
Uma outra versão diz que "era sujeito às mesmas paixões". A
tradução de J. B. Phillips diz que "ele era alguém tão humano quanto
nós"! Isto deixa bem claro como foi cada um dos homens a quem Deus
muito usou em toda a história: frágeis, falhos, tentados, limitados em si
mesmos. Não eram os super-heróis ou semi-deuses que pintamos em nossa imaginação.
Cada um deles foi usado por Deus por dispor-se, anular-se, e deixar ser tratado.
Entre os doze apóstolos
havia muita coisa humana, falhas na alma e no caráter que precisavam ser
corrigidas. O sentimento de terem sido os escolhidos do Messias certamente
afetou a cada um deles. A honra de ter a constante companhia e intimidade de
Jesus, de verem seus milagres e prodígios, e também de serem usados por Deus
para operação de maravilhas é uma descarga poderosa em cima do ego de
qualquer um. E, inicialmente, eles ainda não sabiam como lidar com isto; a
sensação de grandeza e superioridade penetrou o interior deles, e pode ser
claramente vista em alguns episódios narrados nos evangelhos.
Em determinada ocasião,
dois deles, sem ainda entender a natureza do Reino que Jesus estava proclamando,
quiseram tornar-se os dois homens mais influentes depois de Jesus em seu
reinado:
"Então, se
aproximaram dele Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo-lhe: Mestre, queremos
que nos concedas o que te vamos pedir.
E ele lhes perguntou:
Que quereis que vos faça?
Responderam-lhe:
Permite-nos que, na tua glória, nos assentemos um à tua direita e o outro à
tua esquerda.
Mas Jesus lhes disse: Não
sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu bebo ou receber o batismo
com que eu sou batizado?
Disseram-lhe: Podemos.
Tornou-lhes Jesus: Bebereis o cálice que eu bebo e recebereis o batismo com que
eu sou batizado; quanto, porém, ao assentar-se à minha direita ou à minha
esquerda, não me compete concedê-lo; porque é para aqueles a quem está
preparado.
Ouvindo isto,
indignaram-se os dez contra Tiago e João."
Marcos 10:35-41.
Observe que os outros dez
se indignaram contra Tiago e João, mas não por aceitarem o que Jesus lhes
falara, e sim porque cada um deles também estava tomado do mesmo sentimento
egocêntrico e soberbo. O restante da narrativa de Marcos mostra que Cristo teve
que chamá-los para junto de si e estabelecer a ótica correta quanto ao ministério,
que é baseada no serviço e não na posição:
"Mas Jesus,
chamando-os para junto de si, disse-lhes: Sabeis que os que são considerados
governadores dos povos têm-nos sob seu domínio, e sobre eles os seus maiorais
exercem autoridade.
Mas entre vós não é
assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o
que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos.
Pois o próprio Filho
do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate
por muitos."
Marcos 10:42-45.
Em meio a este desejo de
ser, a esta ânsia de posição, poder e prosperidade, Tiago e João, filhos de
Zebedeu foram confrontados por Jesus com a afirmação de que posição como a
que eles haviam pedido Ele não podia lhes prometer, mas beber do seu cálice (e
isto fala de sofrimento) era algo que eles podiam ter certeza que
experimentariam.
Em nossos dias,
estimulamos muito a busca de poder e prosperidade como se isto fosse a coisa
mais importante que um cristão pudesse vir a experimentar, mas Deus está
levantando seus profetas para declarar que Ele espera que bebamos o cálice das
provações e saiamos não só como vencedores ao fim delas, mas tratados por
Ele! Assim como o ouro provado no fogo se torna mais limpo, também sob o
tratamento de Deus em meio à adversidade e crises (externas e internas) seremos
também aperfeiçoados. E isto faz parte do agir divino.
Até esta hora, contudo,
os discípulos que Jesus escolhera ainda não haviam sido trabalhados
interiormente neste sentido. E o curioso é que o próprio evangelista Marcos
relata no capítulo anterior que tal problema já havia se manifestado no meio
dos doze e que Jesus por sua vez também já interviera ensinando-lhes os
conceitos corretos; mas eles só tinham ouvido o Senhor, ainda não tinham
aprendido. Observe:
"Tendo eles
partido para Cafarnaum, estando ele em casa, interrogou os discípulos: De que
é que discorríeis pelo caminho?
Mas eles guardaram silêncio;
porque, pelo caminho, haviam discutido entre si sobre quem era o maior.
E ele, assentando-se,
chamou os doze e lhes disse: Se alguém quer ser o primeiro, será o último e
servo de todos."
Marcos 9:33-35.
Lucas também nos mostra
este tipo de sentimento entre os apóstolos: "Suscitaram também entre
si uma discussão sobre qual deles parecia ser o maior." (Lc.22:24). O
que precisamos notar é que este sentimento de grandeza entre eles era algo que
cada um já carregava dentro de si quando Jesus os chamou, mas que certamente só
se manifestou depois disto. Tente imaginar-se no lugar de Pedro na pesca
milagrosa, e imagine que história de pescador isto não daria!
Coloque-se no lugar dele e
tente imaginar-se andando sobre as águas, coisa da qual não se ouvira dizer
que um vivente experimentara. E o que não dizer da multiplicação de pães,
das curas, libertações, e tantos outros milagres! Mas não era só isto; eles
eram os escolhidos do Messias e estavam sendo preparados para uma tarefa ainda
maior... O coração de cada um deles começou a se ensoberbecer, e começaram a
pensar de si mesmo mais do que realmente eram.
Eles haviam se tornado tão
importantes, que nenhum outro poderia fazer o que Jesus lhes mandou fazer.
Externaram este sentimento que neles estava na primeira ocasião que surgiu:
"Disse-lhe João:
Mestre, vimos um homem que, em teu nome, expelia demônios, o qual não nos
segue; e nós lho proibimos, porque não seguia conosco.
Mas Jesus respondeu: Não
lho proibais; porque ninguém há que faça milagre em meu nome e, logo a
seguir, possa falar mal de mim.
Pois quem não é
contra nós é por nós."
Marcos 9:38-40.
Só eles podiam fazer
aquilo; outra pessoa não! Ninguém poderia brilhar como eles brilhavam ao lado
de Jesus. Este sentimento que tinham é externado diversas vezes. Quando uma
aldeia de samaritanos não quis receber Jesus, dois deles quiseram orar para que
descesse fogo do céu e os consumisse. Propuseram isto a Jesus imitando o estilo
de Elias.
Ao falarem assim, não
estavam apenas demonstrando ser guardiões da "reputação" de Jesus,
mas já se achavam tão "homens de Deus" quanto Elias. Precisamos ter
muito cuidado quando crescemos em Deus, para que o diabo não encha os nossos
corações de orgulho. Contei como o anjo de Deus se referiu ao meu ministério
na época em que me acidentei. O Senhor permitiu e usou aquilo para que eu não
crescesse ao ponto de ensoberbecer e cair. Nunca achamos que isso possa
acontecer conosco; é sempre com os outros, nunca conosco! Mas as Escrituras
advertem que quem está em pé deve cuidar para que não venha a cair (I
Co.10:12).
Este sentimento foi se
avolumando nos apóstolos até este nível de cegueira, em que a pessoa acha que
a queda pode acontecer com os que estão à sua volta, mas não consigo mesma.
Vejamos isto de forma específica na vida do apóstolo Pedro:
"Então, lhes
disse Jesus: Todos vós vos escandalizareis, porque está escrito: Ferirei o
pastor, e as ovelhas ficarão dispersas. Mas, depois da minha ressurreição,
irei adiante de vós para a Galiléia.
Disse-lhe Pedro: Ainda
que todos se escandalizem, eu, jamais!
Respondeu-lhe Jesus: Em
verdade te digo que hoje, nesta noite, antes que duas vezes cante o galo, tu me
negarás três vezes.
Mas ele insistia com
mais veemência: Ainda que me seja necessário morrer contigo, de nenhum modo te
negarei. Assim disseram todos.
Marcos 14:27-31.
"Ainda que todos
se escandalizem, eu, jamais!" Você percebe esta mentalidade em Pedro? Ele se achava
tremendamente fiel ao Senhor, mas estava prestes a descobrir que não era tudo o
que pensava ser. E embora nosso enfoque esteja em Pedro, que se achou melhor que
os outros, note que cada um deles disse que se preciso fosse morreria com Jesus.
Eles realmente acreditavam em sua espiritualidade e fidelidade! Mas na hora em
que Cristo foi preso, todos fugiram (Mc.14:50).
Nenhum deles ficou por
perto. "Pedro seguira-o de longe até ao interior do pátio do sumo
sacerdote e estava assentado entre os serventuários, aquentando-se ao
fogo." (Mc.14:54). Mesmo não abandonando completamente a Jesus, Pedro
permaneceu à distância, de onde pudesse satisfazer sua curiosidade do que
viria a ocorrer, mas ao mesmo tempo salvar sua pele. E foi este distanciamento
que o levou ao passo seguinte, já antes profetizado pelo Mestre: negar três
vezes a Jesus.
"Estando Pedro
embaixo no pátio, veio uma das criadas do sumo sacerdote e, vendo a Pedro, que
se aquentava, fixou-o e disse: Tu também estavas com Jesus, o Nazareno.
Mas ele o negou,
dizendo: Não o conheço, nem compreendo o que dizes. E saiu para o alpendre. [E
o galo cantou.] E a criada, vendo-o, tornou a dizer aos circunstantes: Este é
um deles.
Mas ele outra vez o
negou. E, pouco depois, os que ali estavam disseram a Pedro: Verdadeiramente, és
um deles, porque também tu és galileu.
Ele, porém, começou a
praguejar e a jurar: Não conheço esse homem de quem falais!
E logo cantou o galo
pela segunda vez. Então, Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe dissera:
Antes que duas vezes cante o galo, tu me negarás três vezes. E, caindo em si,
desatou a chorar."
Marcos 14:67-72.
Mateus em seu relato
declara que Pedro chorou amargamente. Marcos enfatiza que ele irrompeu em
prantos assim que "caiu em si".
CAINDO EM SI
O fato dele ter caído em
si quando o galo cantou, mostra que até então estava um pouco fora de si.
Nosso coração muitas vezes nos engana, levando-nos a achar que somos mais do
que o que realmente somos. Pedro havia fantasiado seu amor e fidelidade ao
Senhor; construíra também um sentimento de grandeza em si, e de repente tudo
foi para o chão. Ele descobriu que não era tão forte assim; descobriu também
que há uma grande distância entre o que achamos ser e o que de fato somos.
É por isso que o Novo
Testamento enfatiza muito o cuidado para que não nos enganemos a nós mesmos.
Na carta aos romanos, Paulo declarou: "...digo a cada um dentre vós que
não pense de si mesmo além do que convém, antes, pense com moderação..."
(Rm.12:3). Cada um de nós passará por momentos de crise semelhante à do
apóstolo; elas não são tão negativas quanto parecem; na verdade são
tremendamente positivas, pois trabalham o nosso caráter.
Curioso, porém, foi Jesus
relacionar este momento de límpida autoconsciência de Pedro com o cantar do
galo. E sei de uma coisa: não é coincidência estas duas coisas estarem
relacionadas; tudo o que foi escrito, foi escrito para nosso ensino. O canto
deste galo tem uma figura, fala de um sinal, um alarme, um testemunho que nos
fará cair em si e ver quem de fato somos. Note que é quando o galo canta que
Pedro lembra-se do que Jesus lhe dissera; logo, o canto do galo é um sinal que
Deus usa para nos despertar e mostrar quem realmente somos. É o despertador de
Deus!
PORQUE Jesus NÃO IMPEDIU?
O Senhor Jesus Cristo,
sabendo de antemão o que o apóstolo iria passar, avisou-o antes que
acontecesse. Mas porque Jesus não fez nada para o livrar? Porque não impediu?
Por que era necessário que Pedro passasse por isto; era parte do tratamento de
Deus na vida e ministério dele. E mais: não era um acontecimento meramente
humano, mas espiritual; Lucas, o médico amado, registra este detalhe:
"Simão, Simão,
eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo!
Eu, porém, roguei por
ti, para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres,
fortalece os teus irmãos.
Ele, porém, respondeu:
Senhor, estou pronto a ir contigo, tanto para a prisão como para a morte.
Mas Jesus lhe disse:
Afirmo-te, Pedro, que, hoje, três vezes negarás que me conheces, antes que o
galo cante."
Lucas 22:31-34.
Observe que até Satanás
estava envolvido nisto! O diabo também ouvia as afirmações de grandeza e
espiritualidade que os discípulos ostentavam e por isso pediu a Deus para
peneirar a vida deles do mesmo modo como se peneirava o trigo. E o interessante
é que ele recebeu a permissão divina para isto. Jesus estava apenas alertando
Pedro que iria acontecer para que, quando acontecesse, ele soubesse da soberania
de Deus sobre todas as coisas.
Mas em momento algum
Cristo disse que impediria o diabo. Ao contrário, Ele estava fortalecendo Pedro
e dizendo que aquilo realmente iria acontecer. Jesus não só não impediu, como
também não mandou que Pedro resistisse ao diabo. Nada foi dito sobre orar
contra aquilo, fazer guerra espiritual ou mesmo usar a autoridade espiritual.
Porque esta era uma ação maligna sob permissão divina. Era mais uma daquelas
muitas vezes que Deus coloca Satanás para trabalhar para si!
Toda esta cena de perseguição
a Jesus que ocorreu no jardim em que foi preso, e tudo aquilo que se seguiu,
estava debaixo de uma ação maligna. A pressão das pessoas sobre Pedro
indagando se ele não estava junto com Cristo, o próprio medo que ele sentiu e
que deve ter sido incrementado por pensamentos sombrios, todos aqueles
acontecimentos estavam sendo empurrados pelo adversário.
Jesus mesmo declarou no
jardim: "Esta é a hora e o poder das trevas" (Lc.22:53).
Contudo nada saiu (e nada sai) debaixo da soberania de Deus, que sempre age por
sua multiforme sabedoria.
Embora Jesus não tenha
impedido este acontecimento, não quer dizer que não houve intervenção sua.
Ele mesmo declarou a Simão Pedro que havia orado e intercedido em favor dele; e
deu a entender com isto que ele não apenas venceria a batalha, mas que ao final
também seria tratado e trabalhado por Deus: "quando te converteres,
fortalece a teus irmãos"... e foi exatamente isto que aconteceu.
Há momentos em que não
vemos o Senhor ao nosso lado; e essa sensação de estar sozinho parece ocorrer
justamente sob os mais intensos e violentos ataques das trevas, mas podemos ter
a certeza de que jamais estaremos abandonados, pois Cristo intercede por nós!
Quando Estevão estava sendo apedrejado, viu Jesus em pé a direita de Deus; o
Senhor intercedia por ele e quis que Estevão soubesse para que tal certeza o
fortalecesse. Foi também por isso que Cristo avisou Simão que já havia orado
antes, pois esta certeza nos fortalece em momentos de dificuldade. O Senhor
nunca deixa de interceder por nós; nunca mesmo! Tenha certeza disto!
Jesus avisou Simão Pedro
que ele iria passar por aquilo, e não impediu o diabo, pois era necessário que
ele passasse pelo que passou! Pedro tinha que passar pela peneira. O diabo
queria com isto derrubá-lo. Deus, sabendo de antemão que este fim não seria
alcançado, permitiu que a peneira maligna viesse sobre seu servo. Mas quando
veio a peneira, o diabo acabou trabalhando para Deus e permitiu que Pedro
experimentasse um profundo quebrantamento e se despojasse da altivez e grandeza
que arruinariam seu ministério... Aleluia! Nosso Deus é tremendo em sua forma
de tratar conosco.
As provações são mal
compreendidas no meio eclesiástico. Alguém disse que o Senhor nos prova para
sabermos quem somos, mas esta não é a verdade, pois Ele é onisciente, sabe
todas as coisas mesmo antes que aconteçam. Então, por que Ele nos prova? Ele o
faz para que NÓS saibamos quem realmente somos. Pedro foi provado para que
soubesse que não era tudo o que pensava ser; e nós também seremos provados
neste sentido. É o momento em que o galo canta nas nossas vidas e faz com que
caiamos em nós mesmos.
É o momento em que nossa
soberba e espiritualidade fingida caem por terra. É justamente nesta crise que
o quebrantamento de Deus vem e opera em nós.
O CANTO DO GALO
Uma vez que estamos
observando as figuras do texto, entendemos que este galo em nossas vidas não é
literal. Diversas situações podem enquadrar-se como o cantar do galo em nossas
vidas; na verdade toda crise que nos leva a perceber que não somos tudo o que
pensávamos ser pode ser vista como este alarme divino. Decepções consigo
mesmo por não atingir as metas, por tropeçar em áreas que já julgávamos
tratadas, por esfriar espiritualmente depois de um período de avivamento
interior e assim por diante.
Estabelecido o conceito
genérico do que pode ser este galo cantando em nossas vidas, quero me deter em
um aspecto específico onde percebo que muita gente se prende sem entender o que
está acontecendo, ou mesmo sem sequer imaginar que possa haver uma permissão
divina para este tipo de crise. Penso ser este um dos cantos do galo que mais se
repete nas vidas em crise no meio evangélico: a angústia.
Há tipos e tipos de angústia,
refiro-me àquela para a qual, normalmente, não temos uma explicação. Em que
não conseguimos encontrar razão ou motivo para que ela chegasse a alojar-se em
nós. Ainda me lembro de quando o pastor Francisco Gonçalves nos ministrou
neste sentido e abriu nossos olhos para ver uma outra dimensão da angústia na
vida do crente. Isto aconteceu no ano seguinte ao acidente que mencionei e eu me
encontrava em grande crise.
Ele nos perguntou: -
"O que vocês acham da dor? É algo bom ou ruim?" Todos afirmaram ser
ruim, e então ele declarou: - "Se não fosse a dor, você colocaria o braço
no fogo e só iria perceber quando só tivesse sobrado do cotovelo para
cima!" Todos riram, e foi aí que ele acrescentou: - "A dor, na
verdade, é um sinal de que alguma coisa em algum lugar não está bem e precisa
ser tratada". A partir daí ele discorreu sobre a febre não como algo ruim
mas que, à semelhança da dor, faz parte do sistema de defesa de nosso
organismo. Que também é um sinal de que alguma coisa em algum lugar não está
bem e precisa ser tratada.
Se não fosse a febre,
nosso corpo poderia apodrecer de tanta inflamação; mas ela é um sinal de
advertência e nos leva a sermos tratados. Semelhantemente, o medo também pode
ser visto sob esta ótica; se não fosse o medo, as crianças sairiam colocando
o dedo em tudo quanto é buraco de bicho! O medo é um mecanismo de defesa e
autopreservação. Há alguns sinais de advertência que Deus colocou em nós, e
a angústia é um deles. Ela é um sinal de que alguma coisa em algum lugar não
está bem e precisa ser tratada.
Foi isto que Pedro sentiu
aquela noite que chorou amargamente; não era apenas a decepção de descobrir
que não era tudo o que pensava ser, mas um testemunho interior de algo não
estava bem e precisava ser resolvido. O galo cantou na vida de Simão Pedro; mas
o verdadeiro sinal de advertência não foi aquela ave, e sim a angústia que se
instalou em seu interior. Existem diversos tipos de choro, mas penso que o pior
de todos seja este que ele experimentou: o choro amargo.
Não há alívio neste
tipo de choro. Ele nos dilacera por dentro e quanto mais choramos, mais vontade
temos de chorar. Mas isto tudo foi muito positivo na vida do apóstolo. Muita
gente diz que Pedro foi mudado no dia de Pentecostes, mas creio que sua mudança
(ou conversão, como denominou Jesus) começou mesmo foi nesta noite e com este
tratamento de Deus em sua alma.
COMPREENDENDO AS NOITES ESCURAS
Um dos períodos de crise
mais difíceis para muitos é o que eu chamo de "noites escuras". Há
momentos em que nos sentimos desprovidos de qualquer tipo de iluminação ou
direção, perdidos e impotentes. Hoje temos muita vantagem em relação às
pessoas que viveram nos períodos bíblicos. Com a energia elétrica e o avanço
da tecnologia podemos fazer muita coisa durante à noite. Eu mesmo sou um dos
muitos corujões que gostam de trocar a noite pelo dia.
Mas naquela época as
pessoas ficavam muito limitadas pois não podiam fazer nada até que
amanhecesse. Assim são nossas crises. Sentimo-nos atados em meio a angústia, a
ponto de não podermos fazer nada até que a noite acabe e venha a luz do dia. Não
bastasse este sentimento de impotência, vem também o medo. Medo do escuro é
das coisas mais comuns entre as crianças. E há aqueles que, mesmo crescendo não
conseguem livrar-se deste pavor. A noite escura sugere o incerto, o inesperado,
o imprevisível.
Não é um momento em que
explicamos os medos, mas em que temos medo do que nem sabemos! Some-se ao medo o
frio e o desconforto. Pedro sentiu isto naquela noite, pois foi aquentar-se ao
fogo. É exatamente nestas circunstâncias que o galo cantará em nossas vidas,
pois é de noite que ele canta! Estamos vendo na noite o aspecto da escuridão,
das trevas.
Consideremos alguns princípios
acerca das trevas: Tem tesouros ocultos; algumas versões traduzem Isaías 45:3
como dizendo: "dar-te-ei os tesouros das trevas". Deus tem
tesouros para nós reservados nesses momentos. É o próprio tratamento de nossa
alma que nesta hora torna-se bastante vulnerável ao Senhor. Foi criada por
Deus. Às vezes imaginamos trevas como algo estritamente maligno, mas Deus criou
as trevas (Is.45:7); há um aspecto nelas que não tem nada de negativo.
Por exemplo, é um momento
de descanso que o Senhor deu aos homens; quando estamos vivendo a crise das
noites escuras devemos nos conscientizar que não é hora de tentar fazer nada,
mas simplesmente descansar no Senhor. As trevas também podem ser vista como um
lugar onde a vida está sendo gerada! Gênesis relata que na criação
havia trevas sobre a face da terra, e neste ambiente a vida foi gerada; a
semente sob o solo é outro exemplo, e a criança no ventre materno é ainda um
exemplo da vida sendo gerada em meio às trevas.
A Bíblia ainda cita uma
figura, a vara de Arão que floresceu (Nm.17:1-11). Ela era apenas um pedaço de
pau seco, mas floresceu quando foi colocada na tenda da revelação conforme a
instrução do Senhor! A vida se manifestou enquanto a vara foi guardada onde não
havia nenhuma iluminação, no Santo dos Santos diante da arca do testemunho.
Se você está enfrentando
as noites escuras, anime-se! Reconheça que o agir de Deus em nossas vidas vai
muito além da limitação do nosso entendimento. Ele não age só quando
achamos ou vemos que age, mas Ele opera sempre. E na maioria das vezes não
conseguiremos entender como as coisas estão acontecendo até que tudo termine.
Fique firme sabendo que Deus é fiel e tem cuidado de nós! Às vezes,
sentimo-nos como se estivéssemos no Polo Norte, no período das noites eternas;
parecem não terminar... mas vão terminar e haverá alegria ao amanhecer:
"Porque não passa
de um momento a sua ira; o seu favor dura a vida inteira. Ao anoitecer, pode vir
o choro, mas a alegria vem pela manhã."
Salmos 30:5.
Esta crise terá o seu
fim. E o Sol nascente brilhará sobre os tesouros que ficaram.
DEPOIS DO CANTO DO GALO
Vemos claramente que um
novo Pedro surgiu com o fim da noite escura. O evangelho de João nos mostra
isto numa das últimas conversas que Cristo teve com ele. As palavras de Jesus
sugerem muita coisa que, numa leitura rápida, acabam passando desapercebidas
aos nossos olhos.
"Depois de terem
comido, perguntou Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do
que estes outros? Ele respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Ele lhe
disse: Apascenta os meus cordeiros.
Tornou a perguntar-lhe
pela segunda vez: Simão, filho de João, tu me amas? Ele lhe respondeu: Sim,
Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Pastoreia as minhas ovelhas.
Pela terceira vez Jesus
lhe perguntou: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro entristeceu-se por ele
lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes
todas as cousas, tu sabes que eu te amo. Jesus lhe disse: Apascenta as minhas
ovelhas.
Em verdade, em verdade
te digo que, quando eras mais moço, tu te cingias a ti mesmo e andavas por onde
querias; quando, porém, fores velho, estenderás as tuas mãos e outro te
cingirá e te levará para onde não queres.
Disse isto para
significar com que gênero de morte Pedro haveria de glorificar a Deus. Depois
de assim falar, acrescentou-lhe: Segue-me."
João 21:15-19.
Porque o Senhor pergunta
por três vezes o mesmo assunto, quando na verdade não precisava perguntar
nenhuma, visto que após a ressurreição e conseqüente glorificação, o
atributo da onisciência do qual Cristo se despira temporariamente voltara a
operar em plenitude na sua vida? Se sabendo todas as coisas ainda assim
perguntou, concluímos que o fez não por necessidade da resposta, mas para
conduzir o apóstolo a uma sincera auto-avaliação. Penso que o que realmente o
Senhor queria era justamente isto; levar Pedro a olhar dentro de si mesmo e
reconhecer onde ele estava em relação ao seu amor a Cristo.
Lembre-se que antes Simão
Pedro achava que amava ao Senhor Jesus à ponto de dar sua própria vida por
Ele, e de repente veio a descobrir que não era tudo o que pensava ser e nem
tampouco amava tanto quanto achava. E depois de sua decepção, Pedro passa a
achar que não amava tanto o Senhor; é dentro deste dilema vivido pelo apóstolo,
que Cristo o leva a examinar-se a si mesmo e localizar-se espiritualmente onde
ele verdadeiramente estava quanto ao seu amor. Vemos isto na maneira como as
perguntas lhe foram feitas pelo Senhor e pela promessa que ele lhe fez depois
delas.
Há um jogo de palavras no
original grego que não percebemos na tradução do Português; trata-se da
palavra "amor". O grego usa palavras diferentes para conotar expressões
diferentes do amor; se a referência ao amor é física, sexual, então a
palavra grega empregada é "eros"; se a conotação do amor for
fraternal, então é "fileo"; e quando trata-se um amor
perfeito, intenso, do tipo de Deus, a palavra usada é "ágape".
No português não temos
este tipo de diferença; contudo, Jesus usou diferentes tipos de palavras na
conversa com Pedro. Na primeira pergunta, Ele diz: - "Tu me amas (ágape)"?
E Pedro lhe responde: - "Tu sabes que te amo (Fileo)". Na segunda vez
se dá o mesmo, Jesus pergunta se Pedro o ama no nível mais alto de amor – o
ágape - e Pedro reconhece que ama, mas nem tanto – seu amor só é fileo.
Como não consegue levar Pedro ao seu nível, Jesus desce ao dele e na terceira
vez lhe pergunta: - "Tu me amas (fileo)"? E então Pedro diz: -
"Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo (Fileo)".
É como se por mais uma
vez ele afirmasse: -"O meu amor não vai além disto e eu não quero me
enganar de novo". A Nova Versão Internacional traduziu estas diferentes
palavras como amar (ágape) e gostar (fileo). Portanto para as perguntas de
Jesus a Pedro: "Você me ama?" as respostas foram: "Senhor, você
sabe que eu GOSTO de você".
Mas Jesus termina dizendo
que ele viria a glorificar a Deus através de sua morte; ou seja, que chegaria o
dia em que ele amaria tanto ao Senhor como achou que amava no começo. E nesta
promessa de que Pedro daria sua vida por Ele, Jesus declarou até mesmo que tipo
de morte seria; o apóstolo estenderia suas mãos, um tipo de morte comum nos
dias do Império romano: a crucificação. E a tradição diz que quando o
imperador Nero mandou crucificá-lo (entre 64 a 67 d.c.), Pedro teria dito: -
"Não sou digno de morrer como o meu Senhor". E então teria pedido
que o crucificassem de cabeça para baixo, o quê, se de fato ocorreu, foi uma
demonstração ainda maior de amor a Jesus Cristo.
Somente quando descobrimos
que não somos tudo quanto pensamos e enxergamos nossas fraquezas e
vulnerabilidades (na maioria das vezes em meio às crises) é que Deus vai
trabalhar profundamente em nós. Este é um tipo de ação de Deus que não
vemos com os nossos olhos, é invisível a nós. Quando estamos no meio destas
crises, normalmente não entendemos o que está acontecendo e nem tampouco
achamos que Deus possa estar agindo, mas Ele sempre estará operando em nós,
mesmo quando não vemos!
Não restrinja o agir de
Deus só ao que você vê e compreende, mas permita-lhe ser Senhor em sua vida.
Ame-o! Confie n'Ele em toda e qualquer circunstância, e saiba que a seu tempo
tudo será esclarecido. E você terá sido aperfeiçoado e conduzido a um nível
de maior maturidade.
05
NAS ASAS DA ÁGUIA
"Como a águia
desperta o seu ninho, adeja sobre os seus filhos e, estendendo as suas asas,
toma-os, e os leva sobre as suas asas, assim só o Senhor o guiou, e não havia
com ele deus estranho".
Deuteronômio 32:10,11.
O texto acima é parte do
cântico que Moisés cantou antes de morrer; foi seu último cântico e foi
proferido no limiar da terra prometida. Israel tinha chegado bem próximo à
Canaã, sem contudo possuí-la. Moisés não chegou a entrar na terra, somente a
avistou de longe. E numa verdadeira retrospectiva, ele olha para trás e fala da
forma que Deus os havia conduzido desde que deixaram o Egito. E a ilustração
natural que ele encontrou para resumir o que espiritualmente lhes ocorrera foi a
da águia em seu vôo de adejamento. A ação de Deus em prol de seu povo foi
por ele comparada com o a águia que leva seus filhotes em suas asas.
Primeiramente precisamos
entender a ilustração natural para então entendermos o significado espiritual
da afirmação deste profeta do Senhor. Os escritores da Bíblia tomavam
exemplos das coisas que eles conheciam muito e bem e que dispensavam explicações
aos que viviam dentro de seu contexto. Mas no tocante a nós, a compreensão não
vem assim tão rápida!
Eu nunca vi uma águia de
perto, só em fotos e filmes; não entendo nada de águias, de modo que quando
leio um texto bíblico dizendo: "como a águia"... isto não me
diz nada. Mas um dia resolvi entender o comportamento da águia, e o que
significa voar nas asas dela. O que descobri me tocou profundamente, pois pude
ver esta verdade natural como um paralelo do agir de Deus em nossas vidas.
Lembre que Moisés estava
olhando para trás e repassando a forma como Deus tinha agido para com eles
quando deu esta ilustração, o que nos faz perceber que o Espírito Santo
permitiu-lhe ver algo concernente ao agir de Deus. O Senhor age mediante seus
princípios, e como eles não mudam, seu agir também não. O que Moisés viu,
na verdade é um princípio para nós hoje também. Não se trata apenas de história,
de algo do passado, mas sim de um princípio que se encaixa perfeitamente em
nosso viver cristão.
Quem é que voa na asa da
águia? Seus filhotes. Quando? Na hora em que precisam aprender a voar, a mãe
águia os tira do ninho com sua asa e os leva para um passeio; lá pelo meio do
passeio ela sacode a asa e joga o filhotinho para o alto, que no susto, no
desespero, começa a bater suas asas, e é assim que aprende a voar. Geralmente
o filhotinho não consegue voar no primeiro susto e despenca em direção ao
solo; nestas ocasiões a águia mãe dá um vôo rasante e vai buscá-lo; leva-o
de volta ao ninho e tempos depois vai repetir o processo até que ele aprenda a
voar.
Este vôo nas asas da águia
não é panorâmico, é um momento quando a maturidade é imposta.
Trata-se de um tempo de amadurecimento, onde o filhote deixa de ser totalmente
dependente e terá que ganhar sua própria vida. Logo, ao referir-se a Deus
levando seu povo nas asas da águia, Moisés não falava de um vôo panorâmico,
mas de um tempo onde o Senhor estava exigindo deles a maturidade. Até então
Deus tinha feito tudo pelo povo, mas agora eles haviam chegado a um ponto onde
teriam que crescer. Querendo ou não teriam mesmo que crescer!
Deus agiu assim com Israel
e age assim conosco. Esta é uma crise pela qual cada cristão passa, sem
distinção. Esta não é uma hora agradável. Ninguém gosta de deixar o ninho.
Para que sair atrás de comida se no ninho só se precisa abrir a boca para
comer o que a águia mãe traz? Eu não exageraria a ponto de dizer que é traumático
mas, certamente, é um choque. Você sempre teve tudo à mão e de repente tem
que se virar! O fácil ao qual estávamos acostumados se vai, e repentinamente
tudo fica difícil; a princípio, não penso que alguém consiga ver tudo isto
com alegria, pois é um momento de crise interior. Reflete abandono, rejeição.
Se Deus sempre fez tudo
por nós, porque deixar de fazer? Não vemos isto com bons olhos até
entendermos o que de fato está acontecendo. A verdade é que muitos cristãos não
chegam a entender isto nunca! Culpam a Deus achando que Ele os rejeitou e acabam
não crescendo nunca. Tomam o susto e mesmo assim não voam. Voltam ao ninho e o
processo se repete; e como nunca voam, suas vidas tornam-se aquela mesmice de
ficar sendo jogados para o alto, ter o frio na barriga, despencar precipício
abaixo até que o Senhor os salve e recolha ao ninho. E depois tudo de novo...
A águia não é
considerada uma mãe desnaturada por fazer isto com seus filhotes, pois sabemos
que o que ela faz é benéfico, importante e indispensável. Só que quando o
Pai Celeste age assim conosco, não entendemos e o acusamos. Esta crise de
aparente abandono e rejeição é inevitável; é parte integrante da vida cristã.
Se ainda não aconteceu com você, vai acontecer, é questão de tempo. É o
amor de Deus operando com psicologia de águia.
Se você já passou por
isso, é importante que você entenda o que aconteceu, pois muitos cristãos
ficam magoados com Deus e acabam interpretando errado os fatos, o que lhes
impede de crescer e implica na repetição do processo. Caso ainda não tenha
passado por isso, é importante que saiba o que de fato estará acontecendo
nesta hora. Assim você não vai se desesperar e nem tampouco culpar a Deus.
DEIXANDO A MENINICE
Precisamos crescer! A Bíblia
fala do crescimento espiritual num perfeito paralelo com o crescimento natural.
Menciona as criancinhas que precisam de leite e o adulto que come alimento sólido.
Não há como ignorar o crescimento pois ele faz parte da vida. O apóstolo
Paulo declarou: "Quando eu era menino, falava como menino, sentia como
menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias
de menino." (I Co.13:11). Quando somos crianças, comportamo-nos como
tal, e as outras pessoas também nos tratam assim; mas ao crescermos, não
somente temos que deixar de agir como crianças, mas as pessoas à nossa volta,
e em especial os pais, também têm que deixar de nos tratar como crianças.
Quando casei, minha mãe
entrou comigo na igreja; e seria um absurdo se ela entrasse me carregando no
colo; mesmo porque ela não me agüentaria! Não importa se ela me carregou
quando eu era um criança; a partir do momento que cresci ela começou a me
tratar de acordo com o crescimento. Não se pode permanecer na infância para
sempre, nem naturalmente e nem espiritualmente.
O QUÊ MUDOU PARA ISRAEL
Basicamente, a diferença
no agir de Deus para com os israelitas entre a fase de voarem nas asas da águia,
e a fase do amadurecimento "forçado" ao entrarem em Canaã, são
quatro:
1) alimento especial
- o maná;
2) proteção especial
- vestes e sapatos sempre novos;
3) direção especial
- coluna de nuvem e de fogo;
·
ausência de guerra
- Deus os desviou do caminho da Filistia exatamente por isso, para não verem a
guerra.
Em cada uma destas áreas
o povo israelita provou mudanças drásticas. Foi como se o Deus que eles
conheceram passasse por uma grande mudança! Sabemos que Deus não muda, n'Ele não
há mudança e nem sombra de variação; entretanto, como esta fase de
amadurecimento vem revelando um aspecto do agir de Deus que até então não
conhecíamos, acaba por parecer que Ele mudou. Só que a verdade é que chegou o
tempo em que nós devemos mudar, e se não levarmos um "empurrãozinho"
neste sentido, ficaremos eternamente acomodados.
O ALIMENTO ESPECIAL
Tão logo Israel saiu do
Egito, se viu num deserto onde não havia como plantar e colher seu próprio
alimento, não só pela questão de ter ou não terra fértil, como também pelo
fato de que estavam a caminho de Canaã e somente lá se fixariam
definitivamente. Mas logo chegaram ao questionamento: o que comeremos? E Deus
misericórdia e graciosamente lhes deu o maná, o pão do céu:
"E, quando se
evaporou o orvalho que caíra, na superfície do deserto restava uma cousa fina
e semelhante a escamas, fina como a geada sobre a terra.
Vendo-a os filhos de
Israel, disseram uns aos outros: Que é isto? Pois não sabiam o que era.
Disse-lhes Moisés: Isto é o pão que o Senhor vos dá para vosso alimento.
Deu-lhe a casa de
Israel o nome de maná; era como semente de coentro, branco e de sabor como
bolos de mel.
E comeram os filhos de
Israel maná quarenta anos, até que entraram em terra habitada; comeram maná
até que chegaram aos termos de Canaã."
Êxodo 16:14,15,31,35.
Durante quarenta anos
foram sustentados desta forma milagrosa pelo Senhor, mas ao entrarem em Canaã e
comerem do fruto da terra, cessou o alimento especial.
"No dia imediato,
depois que comeram do produto da terra, cessou o maná, e não o tiveram mais os
filhos de Israel; mas, naquele ano, comeram das novidades da terra de Canaã."
Josué 5:12.
Foi como se Deus lhes
dissesse: - "Enquanto não havia meios de vocês se sustentarem por si
mesmos, Eu o fiz por vocês. Mas agora é com vocês, estão por conta própria".
Não que o Senhor deixaria de estar com eles, mas agora teriam que se esforçar
para terem seu próprio alimento.
E o princípio espiritual
que disto se aplica é que no começo de nossa caminhada da fé experimentamos
durante um tempo o alimento especial. Parece que onde quer que abríamos as
nossas Bíblias Deus falava, até mesmo nas genealogias! Só que depois de um
tempo na caminhada da fé, todos passamos por aquela crise quando parece que a
fonte secou; que a Palavra já não é mais a mesma. Falta-nos algo, e não se
trata apenas de ânimo ou motivação, mas é como se a própria Bíblia tivesse
mudado de repente...
E o que não dizer
daquelas promessas tão vivas em nosso coração e que nos sustentavam nas horas
difíceis, mas que agora não parecem mais do que meras lembranças? Ou ainda
aqueles cultos quando parecia não interessar quem pregasse, a Palavra de Deus
jorrava sobre nossos corações... Então nossa fé era suficiente para crer que
Deus poderia usar até mesmo a jumenta de Balaão em nossas vidas mas, depois de
um tempo, parece que já não somos supridos. E o pior: tornamo-nos críticos e
já não temos mais nem os ouvidos e nem o coração abertos.
Por que isto nos ocorre?
Será que é porque tão somente não queremos mais ser alimentados? Não! Na
verdade chega um momento quando o Pai Celeste mesmo muda não somente o nosso
cardápio, mas também a forma de obter o alimento! É o momento quando Ele
"sacode a asa", e nos joga para despenhadeiro abaixo. É a hora de
voar, de ser maduro, de crescer. E daí por diante teremos que dar duro pelo
alimento, à semelhança de Israel que teve que arar, plantar e colher para, então,
se alimentar.
E isto é muito mais
complicado do que receber o maná, não é mesmo? Esta é a hora de começarmos
a estudar e meditar de fato na Bíblia; é a hora de se cavar mais fundo para
poder extrair mais ricos minérios. Enquanto estamos no início, Deus nos
sustenta de forma especial, mas seu plano não é que vivamos na moleza, na
comodidade. O Senhor quer de nós empenho e determinação na busca de alimento;
Ele quer que a maturidade tenha o seu lugar em nós. Paradoxalmente, se é de
Deus é difícil... tem preço!
PROTEÇÃO ESPECIAL
Não foi somente a
alimentação especial que sofreu mudanças. Houve mudança também na forma de
Deus proteger seu povo. Durante o tempo em que peregrinou pelo deserto, os
israelitas provaram um milagre após o outro, e entre tantos eles há um que
queremos destacar:
"Quarenta anos vos
conduzi pelo deserto; não envelheceram sobre vós as vossas vestes, nem se
gastou no vosso pé a vossa sandália."
Deuteronômio 29:5.
Pense nisto, eles nem
sabiam o que era moda! Usaram as mesmas roupas por quatro décadas. Suas sandálias
também não se envelheceram (além de outros milagres de preservação, como a
cura para a picada das serpentes abrasadoras). Mas quando chegaram à Terra
Prometida tiveram que inventar a confecção de roupas e calçados!
Ao iniciarmos a jornada da
fé cristã provamos o mesmo: proteção especial, cura, etc. Parece que nos
tornamos inatingíveis, que há um escudo especial à nossa volta. Alguns
parecem nem conhecer as provas e tribulações, pois as poucas que lhes sobrevêm,
parecem já vir acompanhada do livramento... Mas chega o dia de ser lançado do
ninho e de alcançar a maturidade e é, então, que as provas e tribulações
parecem vir com tudo para cima da gente.
Isto não significa rejeição,
mas é indício de crescimento espiritual. Tenho acompanhado a vida espiritual
de muita gente nos últimos anos e tenho visto o quanto isto lhes sucede.
DIREÇÃO ESPECIAL
Uma outra coisa que sofre
mudanças neste tempo de amadurecimento é a forma como Deus manifestará sua
direção em nossas vidas. No início ela parece vir sempre e de forma
espetacular. Depois chega o momento em que ela já não parece vir sempre e se
torna ocasional, até que definitivamente pareça tornar-se rara e nada
espetacular. Com Israel foi assim. A princípio, Deus o guiou através de uma
nuvem de dia e de uma coluna de fogo à noite:
"O Senhor ia
adiante deles, durante o dia, numa coluna de nuvem, para os guiar pelo caminho;
durante a noite, numa coluna de fogo para os alumiar, a fim de que caminhassem
de dia e de noite.
Nunca se apartou do
povo a coluna de nuvem durante o dia, nem a coluna de fogo durante a
noite."
Êxodo 13:21,22.
Mas tão logo chegaram em
Canaã, tudo mudou! Nem sequer ouvimos mais falar da coluna de nuvem e de fogo.
Quando Deus dá instruções a Josué para atravessarem o Jordão, Ele diz que o
povo deveria seguir a arca carregada pelos sacerdotes:
"Sucedeu, ao fim
de três dias, que os oficiais passaram pelo meio do arraial e ordenaram ao
povo, dizendo: quando virdes a arca da Aliança do Senhor, vosso Deus, e que os
levitas sacerdotes a levam, partireis vós também do vosso lugar e a seguireis.
Contudo, haja a distância
de cerca de dois mil côvados entre vós e ela. Não vos chegueis a ela, para
que conheçais o caminho pelo qual haveis de ir, visto que, por tal caminho,
nunca passastes antes."
Josué 3:2-4.
Este tipo de direção não
é nada espetacular. Quem carregava a arca eram homens e, antes, as colunas de
nuvem e de fogo se moviam sobrenaturalmente. Isto fala de uma mudança que
experimentamos na forma de Deus nos dirigir quando nos aproximamos de Canaã, o
lugar da plenitude espiritual.
No início de nossa
caminhada com o Senhor Jesus, muitos de nós temos experiências tremendas com a
direção de Deus. São manifestações de todo gênero: sonhos, visões,
palavras proféticas, textos bíblicos recebidos com grande impacto no íntimo e
isso sem sequer termos procurado. Só que tempos depois, a "fonte"
parece secar e este tipo de direção deixa de ser freqüente.
Há pessoas que, para tudo
o que iam decidir, oravam antes, e então abriam "aleatoriamente" suas
Bíblias e sempre recebiam uma palavra específica para sua situação. Sabe, não
duvido nenhum pouco que Deus se mova assim, pois já tenho visto muita gente
recebendo muita resposta específica para o que buscavam em Deus.
Lembro-me em especial de
uma ocasião em minha adolescência em que vi meu pai negociando um carro com
uma outra pessoa que se dizia ser cristã, mas parecia estar querendo se
aproveitar dele no negócio; meu pai pediu licença para aquele homem por um
instante, entrou em casa, fez uma oração a Deus pedindo sua direção e abriu
a Bíblia esperando uma resposta; caiu num texto do livro de Provérbios que diz
o seguinte: "Nada vale, nada vale, diz o comprador; mas depois sai e
vai-se gabando".
Coincidência? De forma
alguma! Reconheço que Deus usa esta forma de falar com seus filhos, e eu mesmo
tenho provado muito de orientações deste gênero. Mas penso que depender
sempre deste tipo de orientação é algo infantil. O Pai quer que amadureçamos.
Precisamos aprender a ouvir a voz do Espírito Santo em nossos corações. Paulo
escreveu aos romanos que "todos os que são guiados pelo Espírito de
Deus são filhos de Deus" (Rm.8:14).
E enquanto Deus trouxer
este tipo de direção espetacular, não cresceremos a ponto de aprender a
sermos sensíveis à voz do Espírito. Não estou dizendo que as manifestações
espetaculares desaparecerão em definitivo de nossas vidas, mas que há um princípio
de maturidade nisto, e que de fato precisamos aprender a sintonizar nosso coração
com o Senhor. Jesus declarou que suas ovelhas ouvem a sua voz.
As manifestações
espetaculares poderão vir como uma confirmação da própria direção divina,
mas teremos que aprender a ouvir Deus. À semelhança do filhote da águia,
teremos que aprender a voar. E meu conselho é que quando o Senhor sacudir sua
asa e lançá-lo ao ar, você não murmure contra Ele e nem tampouco venha
sentir-se abandonado, mas reconheça que é tempo de amadurecer.
AUSÊNCIA DE GUERRA
Quando ensinamos aos novos
convertidos sobre a batalha espiritual que nos cerca, isto lhes parece fantasia.
Primeiro, porque não estão habituados ao convívio com o mundo espiritual.
Segundo, porque são poupados da guerra no início de sua caminhada, exatamente
como se deu com a nação israelita:
"Tendo Faraó
deixado ir o povo, Deus não o levou pelo caminho da terra dos filisteus, posto
que mais perto, pois disse: Para que, porventura, o povo não se arrependa,
vendo a guerra, e torne ao Egito.
Porém Deus fez o povo
rodear pelo caminho do deserto perto do Mar Vermelho; e, arregimentados, subiram
os filhos de Israel do Egito."
Êxodo 13:17,18.
A batalha espiritual é um
fato e não uma fantasia; vemos isto com clareza nas Escrituras e também no dia
a dia de nossa vida espiritual.
"Quanto ao mais,
sede fortalecidos no Senhor a na força de seu poder.
Revesti-vos de toda
armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo; porque
a nossa luta não é contra o sangue e a carne e sim contra os principados e
potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças
espirituais do mal, nas regiões celestes.
Portanto, tomai toda a
armadura de Deus, para que possais resistir no dia mal e, depois de terdes
vencido tudo, permanecer inabaláveis."
Efésios 6:10-13.
Contudo, assim como o
Senhor poupou a seu povo no início da sua caminhada, também nós somos
poupados até que tenhamos a maturidade suficiente para entrar em batalha. Sei
pela minha própria experiência que durante um tempo não provamos da batalha
contra os demônios pois Deus nos impede de ver a guerra para que não
desanimemos; mas depois de estarmos mais consolidados na fé, o Senhor não só
permitirá que entremos em guerra, como nos ordenará que batalhemos contra o
inimigo!
Não há plenitude
espiritual sem batalha; eles saíram do Egito sem ver ou conhecer a guerra, mas
para entrar em Canaã era necessário pelejar contra os inimigos da terra.
Não devemos, portanto,
nos desanimarmos na hora da guerra, mas saber que é um sinal de que estamos no
limiar da terra prometida, e não de que fomos abandonados.
COMPREENDENDO A REJEIÇÃO
O que torna este processo
um tanto quanto dolorido, é que ele aparenta rejeição ou abandono. É quase
inevitável provar este sentimento, mesmo nos conscientizando de que é apenas
um momento de tratamento de Deus.
Penso, contudo, que o fato
de sentirmos isto tão fortemente, não se deve somente ao lado humano, frágil,
que sente a necessidade de curtir sua própria dor, mas que Deus mesmo usa deste
sentimento para produzir outras coisas em nosso íntimo, tratando conosco de
forma mais profunda do que parece.
Ao observarmos a vida dos
homens que se destacaram servindo a Deus, não consigo encontrar um sequer, na Bíblia
ou na história, que não tenha passado por um profundo sentimento de rejeição.
Parece-me que a sensação de rejeição é uma das ferramentas que Deus usa
para aperfeiçoar nosso caráter, pois ela tem um poder de produzir grandes REAÇÕES
no nosso íntimo.
O próprio Jesus
experimentou a rejeição em diversos níveis; João 7:5 diz que nem seus irmãos
criam nele. Marcos 6:1-6 nos mostra que seus vizinhos também não criam nele.
Um dos doze o traiu. E a própria nação o rejeitou, pois como escreveu João: "veio
para o que era seu, mas os seus não o receberam..." (Jo.1:11).
Mas o pior sentimento de
rejeição não é aquele produzido por homens, mas aquele quando parece que
Deus nos rejeitou. Os homens, reconhecemos como falhos e imperfeitos, e quando
nos rejeitam por alguma razão, podemos buscar refúgio em Deus; entretanto,
quando parece que Deus nos rejeitou, para onde iremos?
Este tipo de sentimento
mexe profundamente conosco! Jesus suportou bem toda rejeição que sofreu. Isaías
se referiu a Ele em sua profecia como uma ovelha muda que não abriu sua
boca quando levado ao matadouro, pois diante de toda rejeição humana ele nada
reclamou. No entanto, houve um único instante em que Cristo não permaneceu
calado - quando bradou na cruz: "Deus meu, Deus meu, porque me
desamparaste?" (Mt.27:46). A Bíblia diz que ele bradou em alta voz, ou
seja: gritou. E o que é isto, senão um desabafo de alma?
Toda rejeição pode ser
suportada no nível humano, mas não no divino. Quando parece que fomos
rejeitados por Deus, não temos consolo em mais nada. Mas porque o Senhor
permite que tenhamos este sentimento? Sabemos que quando Ele nos leva nas asas
da águia, e nos lança ao ar para que aprendamos a voar, seu propósito não é
nos abandonar mas sim fazer-nos crescer. Contudo, o sentimento de rejeição
nesta hora é inevitável, e creio que Deus quer aproveitar este tipo de
sentimento para produzir algo em nós.
"Ele, Jesus, nos
dias de sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplica
a quem o podia livrar da morte, e tendo sido ouvido por causa da sua piedade,
embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas cousas que sofreu e, tendo sido
aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe
obedecem"
Hebreus 5:7-9
O escritor nos revela que
Jesus em sua condição humana passou por um tratamento de Deus, e aprendeu
a obediência pelas coisas que sofreu! Você pode imaginar isto? Jesus
Cristo aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu, inclusive a rejeição. E
o escritor aplica isto à ocasião em que Jesus orou por livramento da cruz no
jardim do Getsêmane; ou seja, a um momento de conflito, onde parecia que Ele
estava sendo abandonado por Deus. O evangelho de Mateus declara que sua alma
estava cheia de tristeza até a morte. Isto é rejeição. Angustia e tristeza
à ponto de sentir a morte não dão nenhum outro sentimento a não ser solidão
e abandono!
Mas no sofrimento da rejeição
Ele foi aperfeiçoado por Deus. Tal sentimento provocou dentro dele respostas e
uma reação para Deus. Quando nos leva "nas asas da águia" Deus quer
produzir em nós o mesmo. É um tempo de crescimento.
Além de Jesus, podemos
ver o mesmo exemplo de rejeição na vida do apóstolo Paulo. Depois de sua
conversão em Damasco, ele foi para Jerusalém e a Palavra nos declara que os
cristãos tinham medo dele, não acreditando que fosse de fato discípulo e não
o recebiam (At.9:26). Não bastasse a rejeição inicial por parte dos cristãos,
Paulo experimentou em quase todo o seu ministério perseguição por parte dos
judeus; sua nação também o rejeitou, razão pela qual ele ficou preso muitos
anos, indo seu julgamento até Roma. Não bastando isto tudo, durante o tempo de
sua prisão até mesmo alguns de seus colaboradores o abandonaram:
"Procura vir ter
comigo depressa.
Porque Demas, tendo
amado o presente século, me abandonou e se foi para a Tessalônica; Crescente
foi para a Galácia, Tito para a Dalmácia.
Somente Lucas está
comigo. Toma contigo Marcos e traze-o, pois me é útil para o ministério."
II Timóteo 4:9-11.
Paulo declara que em sua
primeira defesa ele esteve sozinho, que ninguém estava ao seu lado, mas que o
Senhor esteve ao seu lado e o fortaleceu, e isto lhe foi um conforto.
Como já disse, é fácil
suportarmos a rejeição no nível humano, quando o Senhor está ao nosso lado;
mas e quando nos sentimos rejeitados por Ele? Em sua segunda carta aos coríntios,
Paulo desabafa num momento destes, e declara que achava que Deus havia posto os
apóstolos em último lugar (II Co.4:9). O que seria isto a não ser achar-se no
fim da fila, como quem ficou para ser atendido depois dos outros? E ele
enfatiza: "a nós, apóstolos"; como querendo dizer: somos apóstolos,
não devíamos estar no fim da fila, mas no início.
Sabemos que Deus não nos
rejeita, mas por que Ele permite situações que nos fazem sentir assim? O que
Ele quer com isto? Mais uma vez insisto em declarar que Ele se utiliza deste
sentimento para provocar em nós uma reação, uma resposta para Ele. Então dá-se
conosco o mesmo que se deu com Jesus: foi aperfeiçoado pelas coisas que sofreu,
inclusive a rejeição.
Podemos compreender melhor
este conceito, quando o apóstolo Paulo diferencia a tristeza segundo o mundo e
a tristeza segundo Deus. A Bíblia não diz que nunca seríamos contristados e
que só viveríamos em alegrias mil; pelo contrário, diz que Deus tem uma
tristeza para ser usada nos seus! Só que ela nada tem a ver com a tristeza
deste mundo. Sua diferença percebe-se não somente por quem a origina, mas também
pelos resultados que produz. Observe:
"Agora, me alegro
não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para
arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus, para que, de nossa parte,
nenhum dano sofrêsseis.
Porque a tristeza
segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar;
mas a tristeza do mundo produz morte."
II Coríntios 7:9,10.
Uma conduz à vida, outra
à morte! E como a tristeza segundo Deus pode produzir em mim vida? Pelas reações
que em mim provoca. Paulo fala que esta tristeza segundo Deus havia produzido
uma reação interior positiva nos coríntios:
"Porque quanto
cuidado não produziu isto mesmo em vós que, segundo Deus, fostes contristados!
Que defesa, que indignação, que temor, que saudades, que zelo, que vindita! Em
tudo destes prova de estardes inocentes neste assunto."
II Coríntios 7:11.
Note as palavras
"defesa", "indignação", "temor",
"saudades", "zelo", e "vingança". Eu diria que o
sentimento de rejeição provoca em nós uma reação destes sentimentos
mencionados pelo apóstolo. No brado de Jesus na cruz, Ele mostrava saudades do
Pai, indignação pelo aparente abandono, temor por estar sozinho, e defesa de
si mesmo.
As reações podem ser
claramente vistas! No caso de Paulo que mencionou ter sido colocado por último,
não foi diferente; havia a indignação do fim da fila, as saudades de quem
parecia já ter estado no início da fila, sua defesa demonstrando ser
espiritualmente melhor que os coríntios, o zelo dele pelo Senhor sendo
suscitado e a reação de um combate contínuo e forte.
A rejeição produz em nós
a reação do nosso valor-próprio. E porque Deus a permite? Para nos ensinar a
auto-negação. Não há crescimento espiritual genuíno sem que haja a
auto-negação. E na hora em que nos ensina a voar, além de nos dar a
maturidade de vivermos a vida cristã sem ser carregados no colo, Deus ainda faz
isto de um modo em que venhamos a conhecer seu tratamento em nós.
Paulo declarou que em
certa ocasião orou três vezes sobre um assunto e não foi atendido por Deus.
Mas esta aparente rejeição era um tratamento de Deus na vida dele, para lhe
ensinar a caminhar em humildade. Trata-se de seu espinho na carne, relatado em
II Coríntios 12:7-10. O agir de Deus continua sendo invisível aos nossos
olhos. Suas formas de operar em nós são tão variadas! Até mesmo nossas próprias
crises, como as de rejeição, podem ser um tempo quando Ele esteja nos fazendo
crescer em sua presença...
Embora o agir de Deus nos
pareça algumas vezes tão incerto e imprevisível, uma coisa temos como certa:
Ele JAMAIS nos abandonará! Ele está conosco todos os dias, até a consumação
dos séculos. Como declara o famoso poema, "pegadas na areia", há
momentos quando parece que ficamos sozinhos, mas é justamente nesta hora que o
Pai nos carrega no colo. Precisamos compreender a rejeição, ou, melhor
dizendo, a APARENTE rejeição, que pode ser mais um instrumento do agir invisível
de Deus.
06
OS AGUILHÕES DE DEUS
Quando Saulo seguia pela
estrada de Damasco, teve a mais importante experiência de sua vida: viu Jesus,
que se revelou a ele como o Cristo. E encontramos nesta revelação uma afirmação
do Senhor Jesus para a qual não atentamos muito: "Dura coisa te é
recalcitrar contra os aguilhões" (At.26:13-15).
Há uma profunda revelação
divina aqui. A compreensão desta frase tem afetado muito o meu andar em Deus. Já
partilhei que quando um anjo do Senhor falou com um dos meus pastores em minha
ordenação, ele disse acerca de mim: "Ele é rebelde e não aceita o
tratamento de Deus em sua vida". De fato, eu não aceitava mesmo; não
porque quisesse ir contra Deus, mas por não achar que Deus estivesse tentando
tratar comigo. Mas o fato é que eu realmente não aceitava. Só que quando ouvi
esta frase, que eu fora chamado de rebelde, doeu em mim.
Quando o anjo do Senhor
apareceu ao profeta Daniel, chamou-o de homem muito amado; a outros, os anjos
tem trazido muitos elogios, e eu fui chamado de rebelde! Me rebelei
contra aquilo só para tentar provar a Deus que eu não era rebelde... Saí para
um retiro à sós com o Senhor, querendo ouvir sua voz e aprender dele numa época
em que até estes termos como "tratamento" eram coisa nova para mim. E
ouvi. O Espírito Santo me conduziu naquele tempo de oração a uma compreensão
deste assunto aqui explanado, e então compreendi muitas coisas na minha vida e
na vida dos que eu pastoreava.
Deus trata mesmo conosco.
O livro de Hebreus declara que se estamos sem correção, então não somos
filhos, somos bastardos. Mas Deus corrige a quem ama. Não me refiro à correção
do pecado como atitudes apenas, mas sim àquilo que povoa nosso íntimo, nossas
intenções e motivações erradas, nossa visão distorcida do reino de Deus,
nossa falta de quebrantamento, nossa vida egoísta e carnal, centrada só no que
pensamos e queremos. O Pai Celestial sabe como lidar com tudo isto; e tenha
certeza: Ele lidará mesmo conosco nesta questão.
Penso que devemos começar
com algumas definições. O que é um aguilhão? É uma ferramenta que
praticamente não conhecemos nos dias de hoje, pois a tecnologia substituiu seu
uso. Hoje em dia, a grande maioria dos campos de plantio são arados por um
trator, mas naqueles dias de Paulo, o arado era puxado por bois ou cavalos;
quando o animal empacava, usava-se um aguilhão de metal, tal qual uma lança,
para espetá-lo e fazê-lo andar de novo.
O aguilhão, portanto, era
uma haste comprida de metal com a ponta afiada, cujo propósito era produzir incômodo
e dor no animal, fazendo-o obedecer seu dono. Só era usado nos animais teimosos
e obstinados.
Agora veja o paralelo:
Jesus disse que Paulo estava recalcitrando contra os aguilhões, o que nos
revela que Deus tem seus aguilhões. E com que propósito Deus tem seus próprios
aguilhões? Para usá-lo em nossas vidas, quando empacamos em relação à sua
vontade. Sabe, o tratamento de Deus sempre tem a ver com aquelas áreas em que não
nos deixamos ser trabalhados facilmente; tem a ver com nossa teimosia e
rebeldia, mas o Senhor sabe como nos espetar e fazer com que andemos de novo!
Esta é mais uma parte do
agir invisível de Deus. Ele age de formas misteriosas que, na maioria das
vezes, não são visíveis aos nossos olhos. Temos o costume de atribuir ao
diabo toda circunstância negativa, mas nem sempre é assim. Há momentos quando
podemos estar colhendo o fruto de nossa própria obstinação, e o diabo não
será o responsável não.
O que quero partilhar
neste capítulo é que, algumas vezes, Deus mesmo pode estar nos resistindo. Não
é fácil ver Deus agindo assim, como não é fácil ver a maior parte do seu
agir em nós, pois Ele trabalha fora da vista dos nossos olhos e da compreensão
de nossa mente. Se empacarmos, certamente o aguilhão será usado.
Tendo definido o que é um
aguilhão, creio que precisamos entender melhor a palavra
"recalcitrar", que já não é tão usada em nossos dias. Recalcitrar
significa: "resistir; não ceder; teimar; obstinar-se; insurgir-se;
desobedecer; e no caso do animal: dar coices". Nos dias em que Jesus
escolheu esta ilustração havia alguns animais tão teimosos e rebeldes, que
mesmo sendo aguilhoados não andavam. E não só não avançavam como ainda se
rebelavam contra o próprio aguilhão; ao serem espetados ficavam embravecidos e
davam coices no aguilhão.
Resultado: se machucavam
muito mais ao darem coices do que quando eram aguilhoados. O Senhor Jesus não
somente revelou que Deus tem e usa seus aguilhões, como também que Saulo (como
muitos de nós) estava sendo por demais obstinado; além de empacado em relação
a Deus, ele se encontrava recalcitrando, ou seja, dando coices contra o aguilhão
de Deus em sua vida, tentando lutar contra ele. Nós, cristãos de hoje, também
somos assim; muitas das vezes em que o Senhor quer tratar conosco, resistimos e
recalcitramos.
Tenho certeza de que o Pai
Celeste não quer ter que nos tratar como se trata com os animais, mas a verdade
é que muitas vezes agimos como tais. A própria Escritura nos adverte a não
agir assim; e certamente Deus não nos advertiria desta forma se não fosse
comum procedermos desta maneira. Observe o que o Espírito Santo disse por boca
de Davi:
"Instruir-te-ei e
te ensinarei o caminho que deves seguir; e sob as minhas vistas, te darei
conselho.
Não sejais como o
cavalo ou a mula, sem entendimento, os quais com freios e cabrestos são
dominados; de outra sorte não obedecem."
Salmo 32:8,9.
A Bíblia está dizendo
que os animais só obedecem na marra, e menciona os freios e cabrestos usados
para forçá-los a obedecerem. E então somos exortados a não agirmos
como o cavalo ou a mula! O fato é que quando agimos como animais Deus nos
tratará tal qual agimos. Se empacamos em relação à sua vontade, Ele tem seus
aguilhões. E tenha certeza: Ele não deixará de usá-los contra a nossa
caturrice!
O AGUILHÃO DA CONSCIÊNCIA
Em relação a Saulo, Deus
já vinha usando seus aguilhões e ele recalcitrando contra. Mas que aguilhões
eram estes? O que já poderia estar espetando a vida de Paulo em relação à
pessoa de Cristo Jesus? Contra o quê ele já vinha lutando quando viu o Senhor?
Em toda a Bíblia vemos
que os aguilhões de Deus podem tratar com a pessoa interiormente (sua consciência)
e exteriormente (as circunstâncias à sua volta).
Como no caso da conversão
de Paulo a Bíblia nada diz sobre uma pressão circunstancial, entendemos que se
tratava de aguilhões espetando seu íntimo, sua consciência. Pela própria
Escritura podemos discernir alguns aguilhões que vinham aferroando sua consciência:
1) Insatisfação quanto
ao judaísmo;
2) A identidade de Jesus.
Era fácil perseguir seus seguidores, mas livrar-se de pensamentos quanto à
identidade de Jesus, não era assim tão simples... nenhum homem jamais operou
tantos milagres!
3.
O testemunho de
cristãos que, mesmo em meio a perseguição e morte, estavam cheios de alegria
e perdão.
Certamente todas estas
coisas vinham dando um nó na cabeça de Paulo. Ele estava tremendamente
desgostoso com um judaísmo que não lhe comunicara vida, e o que lhe faltava de
justiça, paz e alegria, sobejava aos cristãos que se dispunham a morrer por
Jesus. Quem era este homem? Creio que Paulo deve ter feito esta pergunta a si
mesmo centenas de vezes, mas em momento algum ele cedia à idéia de que Jesus
podia ser o Messias de Deus. E com todas estas evidências, o Senhor foi
espetando Paulo por dentro; mas ele era teimoso e lutava contra isto.
Recalcitrava contra os aguilhões, até que o Senhor lhe apareceu.
Tenho conhecido pessoas
que eram totalmente contra o mover do Espírito Santo na Igreja, e lutavam com
unhas e dentes contra a obra de renovação espiritual que o Senhor tem operado,
e que começaram a ser "torturadas" por dentro com pensamentos de que
só Deus podia estar fazendo aquilo. Elas têm nos relatado que enquanto sua
boca negava esta obra, era como se, aos poucos, sua mente e coração começassem
a dizer sim. E esta guerra interior as deixava realmente aborrecidas! Não sei
dimensionar o que Paulo passou, pois foi uma experiência pessoal dele; mas sei
que certamente ele enfrentou lutas interiores.
Este é o primeiro nível
da aguilhoada de Deus. O Senhor começa sempre falando ao nosso interior de
forma tão meiga e suave, que às vezes pode parecer que nem sequer seja Deus
falando. Mas depois aquela voz começa a insistir a ponto de tornar-se até incômoda.
Lembro-me de quando estava num ministério itinerante de apoio a igrejas e Deus
começou a falar ao meu coração sobre a necessidade de pastorear. Eu sempre
dizia que a última coisa que eu queria ser na vida era pastor e, de repente,
via o meu coração começar a concordar com Deus e uma luta muito grande
iniciar-se no íntimo, entre ceder àquilo ou ao que minha boca dizia.
A princípio, parecia ser
apenas um pensamentozinho qualquer; depois, tornou-se uma idéia mais clara; por
fim um desejo de pastorear. Contudo, minha razão dizia que não havia pressa,
que podia esperar mais tempo para ver como as coisas se conduziriam. E eu
recalcitrei contra aquele aguilhão interior como pude, até que Deus passou ao
segundo nível.
O AGUILHÃO CIRCUNSTANCIAL
Quando não cedemos ao
aguilhão da consciência, Deus pode avançar para um outro nível de
aguilhoada: o das circunstâncias adversas. Penso que o melhor exemplo deste
tipo de aguilhão pode ser encontrado na vida do profeta Jonas.
"Veio a palavra do
SENHOR a Jonas, filho de Amitai, dizendo: Dispõe-te, vai à grande cidade de Nínive,
e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até mim.
Jonas se dispôs, mas
para fugir da presença do Senhor para Társis; e, tendo descido a Jope, achou
um navio que ia para Társis; pagou, pois, a sua passagem, e embarcou nele, para
ir com eles para Társis, para longe da presença do Senhor."
Jonas 1:1-3.
O Senhor comissionou Jonas
a proclamar contra o pecado de Nínive, mas ele sabia que se o fizesse os
ninivitas poderiam arrepender-se e neste caso, seriam poupados. Desejando que
fossem destruídos pela ira e juízo divinos por julgá-los cruéis e
merecedores de tal sorte, Jonas decide não levar a mensagem de Deus a eles, e
se rebela contra Deus. E ao rebelar-se, experimenta os aguilhões de Deus em sua
vida:
"Mas o Senhor lançou
sobre o mar um forte vento, e fez-se no mar uma grande tempestade, e o navio
estava a ponto de se despedaçar.
Então os marinheiros,
cheios de medo, clamavam cada um ao seu deus, e lançavam no mar a carga, que
estava no navio, para o aliviarem do peso dela. Jonas, porém, havia descido ao
porão, e se deitado; e dormia profundamente.
Chegou-se a ele o
mestre do navio, e lhe disse: Que se passa contigo? agarrado no sono?
Levanta-te, invoca o teu deus; talvez assim esse deus se lembre de nós para que
não pereçamos.
E diziam uns aos
outros: Vinde, e lancemos sortes, para que saibamos por causa de quem nos
sobreveio este mal. E lançaram sortes, e a sorte caiu sobre Jonas.
Então lhe disseram:
Declara-nos, agora, por causa de quem nos sobreveio este mal. Que ocupação é
a tua? Donde vens? Qual é tua terra? E de que povo és tu?
Ele lhes respondeu: Sou
hebreu, e temo ao Senhor, o Deus do céu, que fez o mar e a terra.
Então os homens
ficaram possuídos de grande temor, e lhe disseram: Que é isto que nos fizeste!
Pois sabiam os homens que fugia da presença do Senhor, porque lho havia
declarado."
Jonas 1:4-10.
Este foi o primeiro aguilhão
de Deus na vida de Jonas. O Senhor enviou-lhe uma grande tempestade. Sempre que
falamos de tempestades, pensamos em adversidades, dificuldades, pois é
exatamente isto que elas significam. Só que em geral vemos em Satanás a origem
das adversidades, e neste caso, a Bíblia diz que foi Deus quem a enviara! É lógico
que o Senhor pode colocar o diabo para trabalhar para Ele, permitindo uma
investida contra áreas específicas de nossas vidas; mas isto não quer dizer
que o diabo esteja no controle da situação. E há tempestades como esta de
Jonas que Deus mesmo envia.
Sabe, nossa rebeldia
produz as aguilhoadas de Deus que, muitas vezes, podem vir através de circunstâncias
adversas enviadas por Ele mesmo. E nesta hora não adianta orar, repreender o
diabo, e nem jejuar. A única coisa que podemos e devemos fazer é nos
arrepender e deixar a rebeldia. Enquanto Jonas não se posicionou, a tempestade
foi ficando cada vez pior. É assim, também, com muitos cristãos rebeldes. Tem
muita gente em rebeldia que vive correndo atrás de igrejas e pregadores, como
se uma oração resolvesse seus problemas... Mas o que é preciso quando Deus
está usando seu aguilhão, é desempacar e decidir obedecê-lo!
Mas Jonas não cedeu ao
aguilhão de Deus. Pelo contrário, recalcitrou, e se machucou ainda mais. Deve
ter pensado consigo mesmo: "Se Deus pensa que eu vou desistir tão fácil,
deve estar enganado! Ele mandou a tempestade para me assustar com o medo da
morte, mas eu sou duro na queda, e não vou recuar, se é para morrer, eu morro,
mas não irei à Nínive!" E decidiu morrer afogado em vez de obedecer ao
Senhor:
"Disseram-lhe: Que
te faremos, para que o mar se nos acalme? Porque o mar ia se tornando cada vez
mais tempestuoso.
Respondeu-lhes:
Tomai-me, e lançai-me ao mar, e o mar se aquietará; porque eu sei que por
minha causa vos sobreveio esta grande tempestade.
Entretanto os homens
remavam, esforçando-se por alcançarem a terra, mas não podiam; porquanto o
mar ia se tornando cada vez mais tempestuoso contra eles.
Então clamaram ao
Senhor, e disseram: Ah! Senhor! Rogamos-te que não pereçamos por causa da vida
deste homem, e não faças cair sobre nós este sangue, quanto a nós, inocente;
porque tu, Senhor, fizeste como te aprouve.
E levantaram a Jonas, e
o lançaram ao mar; e cessou o mar da sua fúria.
Temeram, pois, estes
homens em extremo ao Senhor; e ofereceram sacrifícios ao Senhor, e fizeram
votos."
Jonas 1:12-16.
Note que a tempestade
enviada por Deus era progressiva. Quanto mais os homens tentavam alcançar a
terra remando, mais tempestuoso ficava o mar. Quando Deus usa seu aguilhão, não
há escapatória a não ser cedermos e arrependermo-nos. Jonas não se intimidou
diante do risco da morte e preferiu morrer a deixar de teimar. Ele queria
morrer, estava muito desgostoso com Deus. Só que Deus começou a jogar duro com
ele, e não o deixou morrer! Em momento algum o Senhor queria destruir Jonas,
mas sim tratar com ele. Lembre-se que este é o nosso assunto: o agir misterioso
do Pai tratando conosco. Deus se recusa deixar Jonas morrer:
"Deparou o Senhor
um grande peixe, para que tragasse a Jonas; e esteve Jonas três dias e três
noites dentro do peixe"
Jonas 1:17.
O profeta queria que tudo
tivesse acabado sem que ele precisasse ceder, mas Deus não deixou. E então vem
o segundo aguilhão, que nas palavras de Jonas em sua oração, é quando
"todas as tuas ondas e vagas passaram sobre mim" (Jn.2:3). Muitos
descrêem do relato do livro de Jonas, mas vale lembrar que Jesus se referiu a
ele não só como histórico mas também como tipológico (Mt.12:39-41).
É interessante que no
navio Jonas ficou firme e não cedeu, mas quando Deus pegou pesado com ele,
enviando um peixe que o engoliu vivo, impedindo-o até mesmo de morrer, e
trazendo ainda mais sofrimento, então ele se rendeu. Temos em seu livro o
relato da oração que ele fez no ventre do peixe:
"Então Jonas, do
ventre do peixe, orou ao Senhor seu Deus, e disse: Na minha angústia clamei ao
Senhor, e ele me respondeu; do ventre do abismo gritei, e tu me ouviste a voz.
Pois me lançaste no
mais profundo, no coração dos mares, e a corrente das águas me cercou; todas
as tuas ondas e vagas passaram por cima de mim.
Então disse: Lançado
estou diante dos teus olhos; tornarei, porventura, a ver teu santo templo?
As águas me cercaram
até à alma, o abismo me rodeou; e as algas se enrolaram na minha cabeça até
aos fundamentos dos montes. Desci à terra, cujos ferrolhos se correram sobre
mim para sempre; contudo fizeste subir da sepultura a minha vida, ó Senhor meu
Deus!
Quando dentro de mim
desfalecia a minha alma, eu me lembrei do Senhor; e subiu a ti a minha oração,
no teu santo templo.
Os que se entregam à
idolatria vã abandonam aquele que lhes é misericordioso.
Mas com a voz do
agradecimento eu te oferecerei sacrifício; o que votei, pagarei. Ao Senhor
pertence a salvação!"
Jonas 2:1-7.
Imagine você o estado
deplorável (e até cômico) de Jonas com todas aquelas algas enroladas no pescoço
e cabeça, três dias e três noites molhado, no escuro, sem comer, e com enjôo,
fora o resto do que ele passou e que nem sabemos. Deus sabe como nos quebrar. Se
endurecemos e empacamos, Ele irá nos aguilhoar; e se começarmos a recalcitrar,
Ele sabe exatamente como lidar conosco.
Jonas se rendeu, e lembrou
de deixar claro em sua oração que ele pagaria todos os seus votos (o que
provavelmente indicava que ele aceitava ser obediente e levar a mensagem de Deus
à Nínive). E como ele cedeu e se arrependeu, então Deus retirou seu aguilhão:
"Falou, pois, o
SENHOR ao peixe, e este vomitou a Jonas na terra".
Jonas 2:10.
Nunca vi um peixe
vomitando, mas imagino que não foi nada agradável, e que de tudo o que passou,
o profeta precisou de uns bons dias para se recuperar totalmente. Então o
Senhor falou novamente com Jonas no sentido dele ir e pregar aos ninivitas e,
desta vez, ele foi. Foi e pregou o juízo que Deus estabelecera por um dia
inteiro.
Um avivamento aconteceu, e
todos desde o menor até o maior se arrependeram. E Deus não destruiu a cidade.
E o comportamento de Jonas nos revela que mesmo tendo obedecido a Deus ele não
o fez de coração. Agiu como aquela criança que a professora pôs de castigo,
em pé diante da classe, e que disse: "por fora estou em pé, mas por
dentro estou sentada"; ou seja, obedeceu mecanicamente, não de coração.
"Com isso
desgostou-se Jonas extremamente, e ficou irado.
E orou ao SENHOR, e
disse: Ah! SENHOR! Não foi isto que eu disse, estando ainda na minha terra? Por
isso me adiantei fugindo para Társis, pois sabia que és Deus clemente e
misericordioso, tardio em irar-se e grande em benignidade, que se arrepende do
mal.
Peço-te, pois, ó
SENHOR, tira-me a vida, porque melhor me é morrer do que viver."
Jonas 4:1-3.
Nesta hora, Jonas voltou a
agir como um animal, e empacou. Portanto, precisava de um aguilhão e Deus lhe
deu uma terceira espetada. Ele está tão contrariado, que quando o Senhor lhe
pergunta se sua ira é razoável, ele vira a cara e não responde. Sai da cidade
e se isola de Deus e das pessoas, remoendo sua bronca. É aí que o Senhor o
pega de jeito mais uma vez. Desta vez Deus dá algo a Jonas para depois o tirar.
Penso que isto retrata o Senhor mexendo na própria estabilidade que um dia nos
deu, a fim de nos levar a ceder.
O tratamento visa
justamente mudar nossos conceitos e valores, e isto aconteceu com o profeta. O
livro termina com Deus falando por último, e não Jonas, o que nos mostra que
ele aprendeu a parar de retrucar e de empacar. Nós também precisamos aprender
isto, que não importa o que achamos ou sentimos, Deus SEMPRE TEM RAZÃO! Ele é
perfeito e não erra nunca. Precisamos aceitar isto com fé infantil e não mais
empacarmos em relação à vontade divina.
"Então Jonas saiu
da cidade, e assentou-se ao oriente da mesma e ali fez uma enramada, e repousou
debaixo dela, à sombra, até ver o que aconteceria à cidade [note que ele
esperava que Deus mudasse de idéia e acabasse destruindo aos ninivitas].
Então fez o Senhor
Deus nascer uma planta, que subiu por cima de Jonas, para que fizesse sombra
sobre a sua cabeça, a fim de o livrar de seu desconforto. Jonas, pois, se
alegrou em extremo por causa da planta [note que ele era um homem de extremos, tanto para a
tristeza (v.1), como para a alegria].
Mas Deus, no dia
seguinte, ao subir da alva, enviou um verme, o qual feriu a planta, e esta se
secou.
Em nascendo o sol, Deus
mandou um calmoso vento oriental; o sol bateu na cabeça de Jonas, de maneira
que desfalecia, pelo que pediu para si a morte, dizendo: Melhor me é morrer do
que viver.
Então perguntou Deus a
Jonas: É razoável esta tua ira por causa da planta? Ele respondeu: É razoável
a minha ira até a morte.
Tornou o Senhor: Tens
compaixão da planta que não te custou trabalho, a qual não fizeste crescer;
que numa noite nasceu e numa noite pereceu; e não hei de eu ter compaixão da
grande cidade de Nínive, em que há mais de cento e vinte mil pessoas, que não
sabem discernir entre a mão direita e a mão esquerda, e também muitos
animais?"
Jonas 4:5-11.
Imagine Jonas vendo uma
planta crescer no prazo de um dia, com uma velocidade assustadora, nunca antes
vista, era um milagre! E o milagre animou o coração de Jonas; é bem provável
que ele tenha achado que estava vencendo o jogo, que Deus já estava se dobrando
a ele, e até mesmo o paparicando. De repente, Deus lhe arrancou a única coisa
que lhe valia naquela hora! E Jonas teve que se render, pois se continuasse
endurecendo, Deus também endureceria com ele.
Quando Jonas se rende, o
livro termina, pois é a história dos aguilhões de Deus na vida do profeta...
Muitas vezes temos passado
por aflições e angústias que nós mesmos geramos. Precisamos de um coração
submisso à vontade do Pai, que saiba orar como Jesus orou no jardim do Getsêmani:
"não seja como eu quero, e, sim, como tu queres" (Mt.26:39).
OS AGUILHÕES NA MINHA VIDA
Mencionei que Deus já
vinha aguilhoando a minha consciência em relação ao ministério pastoral. Mas
eu resisti sua voz mansa e suave que tentava convencer meu coração.
Continuava sabendo que Ele
me queria no ministério pastoral e fora da correria na qual nos encontrávamos,
mas não fazia nada a respeito e ainda discutia por dentro com Deus. Em
muitas circunstâncias adversas Deus me espetou e eu não cedi, até aquele
acidente na estrada.
Foi neste momento que seu
aguilhão em minha vida deixou de me espetar somente por dentro e começou a fazê-lo
do lado de fora, nas circunstâncias. Fazia um mês que eu estava com aquele
carro que era uma resposta de oração, e me senti como Jonas em relação à
planta. Parecia que Deus pusera o doce na boca da criança só para tirar
depois.
Também tive vontade de
morrer por achar que Deus estava brincando comigo. Mas ao fim de tudo,
compreendi que estava lutando contra a vontade de Deus. Eu queria que as coisas
acontecessem do meu jeito. Tinha meus próprios planos para o ministério e
ainda relutava com o plano de Deus, mas quando me rendi os aguilhões cessaram e
a graça de Deus me envolveu.
Se resistirmos, o aguilhão
também será insistente, mas se cedermos, o Senhor nos tratará com bondade e
graça.
Se você tem sido
aguilhoado por Deus, ceda. Não fique recalcitrando, pois em um certo momento o
tratamento cessa, e o que vem depois é juízo. Devemos aprender que é possível
viver sem ter que provar os aguilhões de Deus, basta andar em plena submissão.
Mas como nem todos (para não dizer ninguém) andam nesta dimensão de rendição,
torna-se inevitável o uso deles.
Muitas vezes nossa obediência
é meramente externa, de atitudes apenas; mas é preciso rendermo-nos de coração
ao Senhor. Há momentos em que temos que ser sábios e sensíveis, e discernir
espiritualmente o agir de Deus, ainda que oculto aos nossos olhos. Não adianta
ficar culpando o diabo e companhia ltda., temos que reconhecer que quanto mais
endurecermos, mais Deus endurecerá também; é necessário contrição e
quebrantamento, e se não nos rendermos espontaneamente, Deus irá nos espetar!
Não estou tentando pintar
uma caricatura de Deus. Muita gente tem feito isto e O distorcem completamente;
não servimos a um Deus tirano que vive nos perseguindo para castigar e tirar
nosso couro! Esta é uma imagem distorcida, uma caricatura que fizeram d'Ele e
nada reflete da verdade. O que quero é apenas mostrar que Deus é infinitamente
amoroso, mas disciplina com firmeza. Não estou dizendo que Ele irá nos
aguilhoar a troco de nada, por diversão; refiro-me a ocasiões específicas de
rebelião dos seus filhos.
E é lógico, ao falar de
rebelião não me refiro a um crente desviado que abandonou tudo e se jogou no
mundão, mas sim a atitudes como as de Jonas, onde não nos dobramos diante da
vontade divina e ficamos lutando por aquilo que nós achamos certo. Contudo,
Deus não está em posição de ser questionado nem tampouco desafiado, e toda
rebeldia será tratada por Ele, que nos quer fazer voltar à submissão que
sempre regeu nossas vidas.
Os aguilhões não fazem
parte do cotidiano, são ocasionais. São extraordinários, e não ordinários.
Mas existem e certamente serão usados quando necessário. Eles são parte do
agir invisível de Deus, da sua forma soberana de fazer com que todas as coisas
contribuam para o bem daqueles que amam a Deus e são chamados segundo o seu
propósito.
07
OS ABALOS DE DEUS
Você já ouviu falar dos
abalos de Deus? É provável que não, pois não é um tipo de mensagem que
esteja na moda em nossos dias, mas eles existem e estão acontecendo muito no
meio evangélico. E creio que ainda aumentarão. Visto ser uma promessa para o
tempo do fim, é lógico pensar que quanto mais nos aproximamos do fim, mais se
intensificam os abalos. Eles compõem mais uma parcela interessante do agir
invisível de Deus. São o modo como Deus faz com que nossas vidas sejam
chacoalhadas para que as coisas abaláveis sejam removidas e as inabaláveis
permaneçam. O autor da epístola aos hebreus foi divinamente inspirado para
falar disto:
"Tende cuidado, não
recuseis ao que fala. Pois, se não escaparam aqueles que recusaram ouvir quem
divinamente os advertia sobre a terra, muito menos nós, os que nos desviamos
daquele que dos céus nos adverte, aquele, cuja voz abalou, então, a terra;
agora, porém, ele promete, dizendo: Ainda uma vez por todas farei abalar não só
a terra, mas também o céu.
Ora, esta palavra:
Ainda uma vez por todas, significa a remoção dessas cousas abaladas, como
tinham sido feitas, para que as cousas que não são abaladas permaneçam.
Por isso, recebendo nós
um reino inabalável, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus de modo
agradável, com reverência e santo temor; porque nosso Deus é um fogo
consumidor"
Hebreus 12:25-29.
Vemos que a rebeldia
daqueles que não dão ouvidos à voz divina será repreendida com abalos. Note
que não estamos falando sobre Deus recompensar a fidelidade com abalos, mas sim
daqueles que rejeitam a voz de Deus, ou seja, sua Palavra. Isto não se refere a
incrédulos, mas a cristãos que não estão dando ouvidos à Palavra de Deus em
determinadas áreas de sua vida!
O tratamento e correção
de Deus nas nossas vidas vem naquelas áreas onde ainda não estamos
correspondendo com o que Ele diz em sua Palavra. São áreas de nossa vida cristã
e caráter onde necessitamos ser trabalhados, e é justamente por isto que os
abalos vêm.
O Senhor fala claramente
sobre trazer seus abalos; na verdade, Ele promete que vai trazê-los, e é de se
esperar que Ele cumpra sua promessa, pois é Fiel! O texto fala de abalos sísmicos,
tremores de terra produzidos por terremotos. Nunca vi pessoalmente um terremoto
(e jamais gostaria de ver um), mas o que vi pela televisão e por fotografias,
foi suficiente para me assustar.
As pessoas ficam
completamente indefesas, o governo e as autoridades nada podem fazer; tudo o que
se pode fazer num terremoto, além de tentar preservar a vida, é esperar que
ele passe e ver o que dá para reaproveitar depois.
Estes abalos mencionados
na carta aos hebreus, são uma aplicação de outros dois textos bíblicos; o
primeiro é quando Deus diz a Moisés que falaria com ele aos ouvidos de todo o
povo, para que soubessem que o Senhor lhe falava e cressem em seu ministério; o
segundo é uma profecia de Ageu que citaremos adiante. Tanto um como outro
refletem os abalos que, espiritualmente, podem ser trazidos pelo Senhor em
nossas vidas.
Nesta ocasião em que Deus
se revelou ao povo de Israel o que aconteceu foi o seguinte:
"Ao amanhecer do
terceiro dia houve trovões e relâmpagos e uma espessa nuvem sobre o monte, e
mui forte clangor de trombeta, de maneira que todo o povo que estava no arraial
estremeceu.
E Moisés levou o povo
fora do arraial ao encontro de Deus; e puseram-se ao pé do monte.
Todo o monte Sinai
fumegava, porque o Senhor descera sobre ele em fogo; a sua fumaça subiu como
fumaça de uma fornalha, e TODO O MONTE TREMIA GRANDEMENTE."
Êxodo 19:16-18.
É exatamente deste
ocorrido que o escritor de Hebreus vinha falando nos versículos anteriores,
mostrando que há uma grande diferença entre as manifestações do Velho e as
do Novo Testamento. Porém, no que diz respeito a Deus trazer abalos pela sua
Palavra, nada mudou; esta é a mensagem do fim do capítulo doze de Hebreus.
Quando os abalos de Deus
chegam a nossas vidas, são semelhantes a um terremoto, não há o que fazer.
Nenhum pastor pode orar e vê-lo passar imediatamente; nem tampouco a própria
pessoa; tudo o que se pode fazer é tentar se salvar (não deixando que o diabo
nos desanime a ponto de nos fazer desistir) e esperar que o terremoto passe para
ver o que sobrou e o que terá que ser reconstruído.
Alguém poderia argumentar
que este texto de Hebreus não parece falar de algo acontecendo no âmbito
individual, mas ele não só sugere esta aplicação pessoal (ao falar de outras
pessoas que não deram ouvidos à voz de Deus), como também se refere a uma
outra porção bíblica de aplicação pessoal, no livro do profeta Ageu.
OS ABALOS NOS DIAS DE AGEU
Ageu foi a primeira voz
profética que se levantou entre os israelitas depois do exílio na Babilônia.
A reconstrução do templo fora interrompida, e estava parada por cerca de
quinze anos; o povo não se envolvia na retomada da restauração dizendo que o
tempo de reconstruir a casa de Deus ainda não havia chegado. Então o Senhor o
envia com uma mensagem de repreensão ao seu povo, mostrando que enquanto não
obedecessem a voz divina, Deus continuaria abalando a vida financeira
deles, que já não estava nada fácil.
"Veio, pois, a
palavra do SENHOR, por intermédio do profeta Ageu, dizendo: Acaso é tempo de
habitardes vós em casas apaineladas, enquanto esta casa permanece em ruínas?
Ora, pois, assim diz o
SENHOR dos Exércitos: Considerai o vosso passado.
Tendes semeado muito e
recolhido pouco; comeis, mas não chega para fartar-vos; bebeis, mas não dá
para saciar-vos; vestis-vos, mas ninguém se aquece; e o que recebe salário,
recebe-o para pô-lo num saquitel furado".
Ageu 1:3-6.
Se a profecia parasse
aqui, ninguém diria que, embora as condições materiais dos israelitas fossem
ruins, Deus estivesse por trás disto. Quando pensamos no agir de Deus, pensamos
em provisão, em prosperidade, nunca no contrário. Contudo, observando a
continuação da profecia dada a Ageu, percebemos que a mão do Senhor estava
estendida contra a nação de Israel, fazendo abalar sua economia. Era Deus
abalando a vida financeira daquele povo!
"Esperastes o
muito, e eis que o muito veio a ser pouco, e este pouco, quando o trouxeste para
casa, eu com um assopro o dissipei. Por quê? Diz o SENHOR dos Exércitos; por
causa da minha casa, que permanece em ruínas, ao passo que cada um de vós
corre por causa da sua própria casa.
Por isso os céus sobre
vós retém o seu orvalho, e a terra os seus frutos.
Fiz vir a seca sobre a
terra e sobre os montes; sobre o cereal, sobre o vinho, sobre o azeite e sobre o
que a terra produz; como também sobre os homens, sobre os animais e sobre todo
o trabalho das mãos."
Ageu 1:9-11.
É estranho demais ver
Deus dizendo que Ele fez com que o muito esperado se tornasse pouco na colheita
de seu povo e, ainda, depois tenha assoprado sobre o pouco, fazendo-o
dissipar-se. Não combina com a mensagem de prosperidade de nossos dias, Deus
mandar os céus reterem o orvalho e a terra reter seu fruto; nem tampouco Ele
fazer vir a seca!
Mas Deus fez tudo isto.
Por quê? Porque somente abalando as coisas naturais na vida de seu povo é que
as coisas espirituais teriam seu lugar. Eles só estavam pensando em si mesmos e
haviam abandonado a restauração da casa do Senhor; mas Deus conseguiu
recuperar a atenção e serviço deles de uma forma muito especial.
Quando o escritor de
Hebreus escreveu sobre as coisas abaláveis serem removidas, ele falou sobre as
inabaláveis permanecerem, e então acrescentou que temos recebido um reino
inabalável! Ou seja, quando estamos sufocando as coisas espirituais por uma
dedicação dirigida somente ao que é natural, Deus pode fazer tremer o que é
abalável, o natural, para que caindo estas coisas, permaneça em nossas vidas
somente aquilo que é espiritual, e então nossa reconstrução poderá começar
a partir deste ponto.
Certa ocasião Jesus
contou a parábola de um rico insensato que só queria edificar para si mesmo e
não para Deus. Disse que ele fazia planos para aumentar sua produção e
armazenagem para depois poder dizer à sua própria alma que descansasse e se
regalasse por ter bens para muitos anos; mas Deus chamou este homem de louco,
pois o que ele preparou não era para si mesmo, e quando sua alma fosse pedida
de nada lhe adiantaria toda a sua riqueza.
Finalmente o Senhor Jesus
termina dizendo: "Assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico
para com Deus" (Lc.12:21). De nada adianta edificarmos somente para nós
mesmos; devemos edificar para o Senhor em nossas vidas, pois quando os abalos de
Deus vierem, só ficará de pé o que construímos para o Senhor, e o que é
nosso, humano, cairá. Em Lucas 14:28-30 Jesus assemelhou a vida cristã à
edificação de uma torre, mostrando que no plano espiritual também edificamos.
O Senhor liberou palavras
como estas num momento em que a vida de muitos irmãos da igreja que pastoreamos
vinha sendo abalada, e não entendíamos o que estava acontecendo. Muitos
estavam passando por verdadeiros terremotos, e todas as áreas de suas vidas
estavam sendo sacudidas. Orávamos e não víamos intervenções espetaculares
como antes; o céu parecia de bronze, pois parecia não haver resposta às orações.
Foi neste período que
Deus começou trazer esta compreensão a nossa equipe pastoral, onde
biblicamente víamos que Deus mesmo pode fazer tremer nossas vidas para a partir
de então reorganizar nossos valores e prioridades. Assim que este ensino começou
a ser ministrado com uma sólida base escriturística, muitos irmãos
compreenderam o que lhes estava ocorrendo e mudaram de atitude. Então, e
somente então, as intervenções de Deus tiveram o seu lugar em muitas destas
vidas.
Tenho percebido isto não
só em minha própria vida e igreja, mas também em contato com muitas outras
igrejas e pastores. É um fato. Tal qual nos dias de Ageu, quando nos esquecemos
das coisas de Deus e queremos buscar somente as nossas próprias, Deus não
somente deixa de ter um compromisso de nos abençoar, como pode nos julgar e
disciplinar, uma vez que a responsabilidade de edificar o reino de Deus é
nossa! Porém, quando procedemos de forma contrária, e colocamos o Senhor em
primeiro lugar, tudo muda. A benção e a provisão divina fluem milagrosa e
abundantemente, como prometeu nosso Senhor:
"Buscai, pois, em
primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas cousas [materiais]
vos serão acrescentadas."
Mateus 6:33.
Por que Deus estava
sacudindo as finanças do seu povo naqueles dias depois do exílio? Porque os
israelitas haviam se tornado egoístas e descomprometidos com o reino de Deus, e
o propósito destes abalos era mudar a atitude do povo. Quando compreenderam que
os abalos era uma forma de Deus fazê-los voltar a investir em sua casa, eles se
animaram a obedecer sobre uma promessa divina de que então a prosperidade viria
sobre eles. Em uma de suas profecias, Ageu deixa claro que os abalos visavam
trazer para Deus os recursos para a restauração de sua casa:
"Pois assim diz o
SENHOR dos Exércitos: Ainda uma vez, dentro em pouco, farei abalar o céu, a
terra, o mar, e a terra seca; farei abalar todas as nações e as cousas
preciosas de todas as nações virão, e encherei de glória esta casa, diz o
SENHOR dos Exércitos.
Minha é a prata, meu
é o ouro, diz o SENHOR dos Exércitos.
A glória desta última
casa será maior do que a primeira, diz o SENHOR dos Exércitos; e neste lugar
darei a paz, diz o SENHOR dos Exércitos."
Ageu 2:6-9.
Deus nunca está contra o
seu povo. Estes abalos visavam corrigí-los e tratá-los, não destruí-los. Tão
logo voltaram a cumprir a vontade de Deus, foram abençoados. Quando o livro de
Hebreus fala sobre os abalos de Deus, fala também sobre "retermos a graça"
(Hb.12:28), pela qual servimos a Deus de forma agradável.
Reter, significa não
perder, não desperdiçar; isto nos mostra que mesmo em meio aos abalos divinos,
podemos estar sob a graça de Deus, desde que não nos rebelemos insistindo em
deixar nossos valores invertidos, de forma contrária aos valores da Palavra.
Quando somos abalados pelo
tratamento divino, devemos corresponder em obediência e mudança de mente, de
atitude; ao obedecermos, a disciplina dará lugar à benção do Senhor. Foi
nestes mesmos dias e condição que Malaquias também foi usado por Deus para
profetizar ao povo e desafiá-los a honrar o trabalho de reconstrução da casa
de Deus; e ele falou inspirado pelo Espírito Santo, que à medida que o povo
voltasse a dar os dízimos e ofertas alçadas, Deus abriria as janelas do céu e
derramaria uma grande benção que não seria igualada por nenhuma outra
(Ml.3:8-12)! E a partir do momento em que decidiram seguir a voz divina e obedecê-la,
os israelitas viram a benção de Deus sobre eles:
"Considerai, eu
vos rogo, desde este dia em diante, desde o vigésimo quarto dia do mês nono,
desde o dia em que se fundou o templo do SENHOR, considerai nestas cousas.
Já não há semente no
celeiro. Além disso a videira, a figueira, a romeira e a oliveira não têm
dado os seus frutos; mas desde este dia vos abençoarei."
Ageu 2:18,19.
Embora Deus tenha abalado
a vida financeira deles, fez isto só até que voltassem a priorizar o reino de
Deus. Abalou as coisas abaláveis para que as inabaláveis permanecessem. Deus
é soberano e governa em toda e qualquer circunstância, fazendo com que tudo
contribua para o bem daqueles que amam a Deus, que são chamados segundo seu
propósito. Nem sempre poderemos entender o agir invisível e misterioso de
Deus, mas sempre poderemos ter a certeza de que é para o nosso próprio bem que
Ele trata conosco e nos corrige.
Talvez sua vida esteja
sendo abalada pelo Senhor e você não sabe o que fazer; aliás não há
realmente nada a fazer quando os abalos divinos chegam a não ser permanecer
firme e reconstruir a partir do que sobrou. Deus quer mudar seus valores,
levando-te a colocar o reino d'Ele em primeiro lugar, e quando o fazemos o
processo é invertido, e então Ele nos abençoará e nos levará à reconstrução
do que ruiu, porém com novos alicerces.
Eu já experimentei estes
abalos em momentos que não havia necessariamente deixado de ter o reino de Deus
em primeiro lugar, mas estava me afastando do plano de Deus para o meu ministério.
De forma geral eles sempre vêm como correção, quando não damos ouvidos à
voz do Senhor.
Se você tem percebido os
tremores e abalos em sua própria vida, não se demore em separar tempo para
estar com o Senhor e sondar seu próprio coração. Muitas pessoas reclamam que
o Pai jamais fala com elas, mas na verdade nunca tiram tempo para o ouvir! Fique
à sós com Deus e derrame seu coração diante d'Ele, deixando-O falar sobre os
seus valores (o que está certo e o que não).
Não se justifique, nem
tente provar nada; procure ouvir a voz de Deus, que poderá se manifestar de
formas diversas. Você pode ter uma experiência extraordinária e sobrenatural
como também pode simplesmente ter avivado em seu coração determinadas
passagens bíblicas nas quais Deus estará falando com você através delas. Não
sei de que maneira Deus falará, mas se houver disposição e entrega de sua
parte, certamente Ele o fará.
Assim como no caso dos
aguilhões, também é com os abalos; não há nada que os resolva a não ser
arrependimento e submissão. Somente por meio da obediência e mudança de
atitude o quadro será revertido. Do mesmo modo que os israelitas dos dias de
Ageu tiveram que mudar seus valores e comportamento para então verem a benção
do Senhor em lugar dos abalos, nós também teremos que reordenar nossos valores
e comportamento para vermos tudo mudar. Não conseguimos ver Deus agindo em meio
a um desmoronar geral em nossa vida, mas Ele age exatamente assim: fora da vista
dos olhos.
É lógico que não
estamos falando do melhor de Deus para nós, mas sim de correção. O plano do
Senhor é nos abençoar, nos fazer o melhor. Creio que o Pai prefere não ter
que abalar nossas vidas. Contudo, pela dureza de nossos corações e tão
somente por causa da nossa própria obstinação é que Ele nos trata desta
maneira. Não haveriam abalos se não nos desviássemos de sua vontade; eles só
ocorrem quando algo está errado na nossa forma de agir. E a intensidade dos
abalos sempre virão na proporção direta da nossa distorção de valores ou da
nossa resistência ao Senhor e seu plano; não será maior e nem menor do que
aquilo que necessitamos.
08
PLANOS DE BEM
E NÃO DE MAL
Deus sempre
deseja o nosso bem. Mesmo quando permite situações contrárias para tratar
conosco, Ele quer o que é melhor para nós. Tudo concorre juntamente para o
nosso bem se de fato o amamos e somos chamados segundo seu propósito. Perder
isto de vista e questionar o amor e cuidado do Senhor para conosco é dar espaço
para que Satanás consiga tirar proveito.
O Senhor afirma claramente
que seus planos para conosco (e consequentemente o seu agir) são de bem e não
de mal. Nos dias em que a nação israelita foi levada para o cativeiro babilônico
por causa da sua desobediência, muitos começaram a pensar que Deus só queria
lhes fazer o mal; mas na verdade, o Senhor queria tratá-los e corrigí-los para
o próprio bem deles. Depois da correção e tratamento, viria a intervenção
divina na situação pela qual eles passavam: o cativeiro. É quando Deus fala
que o cativeiro tinha um tempo estabelecido e que neste tempo seu povo
aprenderia a buscá-Lo e invocá-Lo; e então, somente então, Ele os traria de
volta à sua terra. Veja a profecia de Jeremias que nos revela isto:
"Assim diz o
Senhor: Logo que se cumprirem para Babilônia setenta anos atentarei para vós
outros e cumprirei para convosco a minha boa palavra, tornando a trazer-vos para
este lugar.
Eu é que sei que
pensamentos tenho a vosso respeito, diz o Senhor; pensamentos de paz, e não de
mal, para vos dar o fim que desejais.
Então me invocareis,
passareis a orar a mim, e eu vos ouvirei.
Buscar-me-eis, e me
achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração.
Serei achado de vós,
diz o Senhor, e farei mudar a vossa sorte; congregar-vos-ei de todas as nações,
e de todos os lugares para onde vos lancei, diz o Senhor, e tornarei a
trazer-vos ao lugar donde vos mandei para o exílio."
Jeremias 29:11-14.
Para o povo israelita,
aquele era um momento difícil. Parecia que Deus já não se importava com eles
e que tudo o que queria lhes fazer era o mal e não o bem. Mas Deus lhes fala de
maneira enfática que intentava o bem para a nação; que mesmo tendo-os
corrigido e tratado, queria o seu bem.
Às vezes parece-nos que o
Senhor já não está nos abençoando tanto; outras vezes parece que se esqueceu
de nós ou até mesmo que esteja contra nós; mas na verdade apenas parece,
pois Deus SEMPRE quer o nosso bem. Ele jamais nos intentará o mal, pois nos ama
profundamente. É lógico que em seu amor Ele irá nos corrigir e tratar, mas
nunca intentar o mal.
Mesmo quando julga alguém,
o Senhor quer que a pessoa venha a se arrepender; e se ela não se arrepender e
perecer sob o juízo, Deus ainda vai querer usar esta situação como um exemplo
para que outros não procedam de igual modo. Isto não pode ser jamais
questionado: Deus quer o nosso bem sempre; em toda e qualquer situação devemos
lembrar que Ele nos ama e nos deseja o melhor. Quando não entendemos, devemos
confiar em seu amor e soberania, mas nunca questionar sua benignidade.
Em todo o Velho Testamento
o povo era instruído a louvar ao Senhor dizendo: "O Senhor é bom e a
sua benignidade dura para sempre". Penso que Deus queria incutir na
mente e coração de seu povo isto; Ele é a própria expressão da bondade e
benignidade e sempre agirá assim para conosco. Não conseguiremos ver a
benignidade de Deus se avaliarmos seu agir pelo que nossos olhos vêem, mas se
olharmos para o que sua Palavra diz a seu respeito nunca questionaremos este
fato. O Senhor quer nos dar um futuro e uma esperança; quer o melhor para as
nossas vidas.
Para muitos cristãos as
provações, o tratamento, e até mesmo a correção de Deus não são uma
demonstração de cuidado mas sim de abandono. Estão terrivelmente enganados!
Em toda e qualquer situação Deus está querendo o nosso bem e usará todas as
circunstâncias para que sejamos beneficiados:
"Sabemos que todas
as cousas cooperam PARA O BEM daqueles que amam a Deus, daqueles que são
chamados segundo o seu propósito."
Romanos 8:28.
Nada foge ao controle de
Deus. Desde que andemos em fidelidade, sem dar lugar ao diabo através do
pecado, tudo cooperará para o nosso bem, embora nem sempre pareça.
AMARRAS QUEIMADAS
Fico pensando naqueles três
amigos de Daniel, Hananias, Misael e Azarias, a quem o rei da Babilônia chamou
de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego. Eles eram fiéis ao Senhor e se recusaram
prostrar-se perante uma estátua, pois haviam sido ensinados na lei de Moisés a
adorar somente a Deus e nunca aos ídolos. E por causa da sua fidelidade (e não
pela falta dela) eles enfrentaram uma das mais duras provas de sua vida,
relatada no terceiro capítulo do livro de Daniel.
Resolveram ficar firmes em
servir a Deus ainda que isto custasse a própria vida deles, e passaram por uma
experiência única: foram lançados na fornalha de fogo, mas saíram vivos, sem
sequer ter um fio de cabelo chamuscado ou mesmo cheiro de fumaça em suas
vestes, pois pela fé apagaram a força do fogo. O fogo não pode fazer nada
contra eles, nem queimar nada que lhes dizia respeito; EXCETO UMA COISA: as
cordas que os amarravam! Veja o que diz a Bíblia:
"Então o rei
Nabucodonosor se espantou, e se levantou depressa e disse aos seus conselheiros: Não lançamos
nós três homens ATADOS dentro do fogo? Responderam ao rei: É verdade, ó rei.
Tornou ele e disse: Eu,
porém, vejo quatro homens SOLTOS, que andam passeando dentro do fogo, sem
nenhum dano; e o aspecto do quarto é semelhante a um filho dos deuses."
Daniel 3:24,25.
Até a hora em que foram
lançados no fogo, os três servos de Deus estavam amarrados, mas logo depois
estavam soltos, pois a única coisa que o fogo teve poder de queimar foram as
suas amarras. De modo semelhante, quando Deus permite que as provações venham
como um fogo sobre as nossas vidas (I Pe.1:7), o máximo que Ele quer que se
queimem, são as amarras de áreas de nossa vida que necessitam de seu
tratamento.
Não é porque as
adversidades nos sobrevenham que Deus não queira o nosso bem, pois Ele pode até
mesmo usá-las para nos beneficiar. Espiritualmente falando, as amarras
queimadas na vida de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, mostram-nos o poder e
soberania de Deus sobre as provas para nos fazer crescer em meio à adversidade.
José passou momentos difíceis
no Egito, depois de ter sido renegado e vendido por seus irmãos, mas o que o
fortaleceu diante de tudo o que passou, foi a certeza de que Deus queria o seu
bem, e de que lhe daria um futuro e uma esperança. Depois de toda provação já
ter passado e Deus o ter exaltado, ele declarou aos seus irmãos: "Vós,
na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para
fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida" (Gn.50:20).
Aleluia! Mesmo quando
outras pessoas intentam o mal contra nós (e até mesmo o diabo), Deus está ao
nosso lado para transformá-lo em bem, pois é isto mesmo que Ele intenta para
cada um de nós, o nosso bem.
FOGO CONSUMIDOR
Há um aspecto do
tratamento de Deus que não tem sido compreendido por muitos cristãos. É a
revelação de Deus como um fogo consumidor:
"Porque o nosso
Deus é um fogo consumidor."
Hebreus 12:29.
Muita gente não entende
que Ele executa o seu juízo sem deixar de ser amoroso, e acham que ser fogo
consumidor é ser destruidor, mas Deus está interessado em nosso bem
mesmo quando se revela como um fogo consumidor.
Quero deixar bem claro um
princípio: o fogo não consome todas as coisas, somente as que são consumíveis.
Quando Paulo escreveu aos coríntios, falou a respeito disto:
"Contudo, se o que
alguém edifica sobre o fundamento é ouro, prata, pedras preciosas, madeira,
feno, palha, manifesta se tornará a obra de cada um, pois o dia a demonstrará,
porque está sendo revelada pelo fogo; e qual seja a obra de cada um, o próprio
fogo o provará.
Se permanecer a obra de
alguém que sobre o fundamento edificou, esse receberá galardão; se a obra de
alguém se queimar, sofrerá ele dano; mas esse mesmo será salvo, todavia, como
que através do fogo."
I Coríntios 3:12-15.
O ouro, a prata, e as
pedras preciosas não se queimam; somente a madeira, o feno, e a palha. O fogo não
queimará tudo, mas somente o que tem que ser queimado; há obras que
resistem ao fogo, pois o propósito dele não é destruir tudo o que encontre,
mas tão somente aquilo que é inútil e que não deve permanecer em nossas
vidas. Há momentos em nossa vida onde passaremos por provas de fogo, mas assim
como no caso dos três amigos de Daniel em que o fogo só queimou as amarras,
também nas nossas vidas o fogo se limitará a queimar somente aquelas coisas
que devem ser consumidas. Quando o tratamento chega ao fim, Deus dá testemunho
de que o fogo não consome tudo, só o que é necessário.
No Velho Testamento, lemos
a história do profeta Elias que orou e por duas vezes desceu fogo do céu e
consumiu os homens que os perseguia (II Re.1:9-15). Já no Novo Testamento,
lemos que Tiago e João, filhos de Zebedeu, quiseram imitar Elias quando Jesus não
foi recebido por uma aldeia de samaritanos, e se propuseram a orar para que
descesse fogo do céu e os consumisse.
Naquela mesma hora, Cristo
repreendeu seus discípulos dizendo-lhes: "Vós não sabeis de que espírito
sois. Pois o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas
para salvá-las" (Lc.9:55,56). Ou seja, a visão de fogo consumidor que
eles possuíam era a de destruição, mas o fogo consumidor deve ser visto por
outra ótica, pois Deus não quer nos destruir, mas sim nos restaurar, e o fogo
só queima o que é consumível.
Esta é a revelação da
sarça ardente que Moisés viu. Há momentos quando o fogo consumidor já não
está consumindo, como foi no caso da sarça, pois Deus só quer ser fogo
consumidor em nossas vidas até a hora em que já não haja mais o que ser
consumido. A revelação da sarça nos mostra exatamente isto, o ponto em que
Moisés chegara depois de quarenta anos no deserto: já não havia mais o que
ser consumido.
Porque na sarça o fogo
ardia e não a consumia? Vejamos o texto bíblico em seus detalhes para dele
extrairmos os princípios:
"Apascentava Moisés
o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Midiã; e, levando o rebanho para o
lado ocidental do deserto, chegou ao monte de Deus, a Horebe.
Apareceu-lhe o Anjo do
Senhor numa chama de fogo do meio de uma sarça; Moisés olhou, e eis que a sarça
ardia no fogo, e a sarça não se consumia.
Então disse consigo
mesmo: Irei para lá, e verei esta grande maravilha, porque a sarça não se
queima.
Vendo o Senhor que ele
se voltava para ver, Deus, do meio da sarça, o chamou, e disse: Moisés, Moisés!
Ele respondeu: Eis-me aqui.
Deus continuou: Não te
chegues para cá; tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é
terra santa.
Disse mais: Eu sou o
Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó. Moisés
escondeu o rosto, porque temeu olhar para Deus."
Êxodo 3:1-6.
Afim de entendermos bem o
que acontecia com Moisés neste momento da visão, é preciso fazer uma pequena
retrospectiva de sua vida. Moisés foi colocado por seus pais num cesto nas águas
do rio Nilo, e encontrado pela filha de Faraó, que o adotou. A mãe dele foi
chamada para criá-lo até determinada idade e ainda foi paga para isto; Moisés
viveu no palácio e foi educado em toda ciência dos egípcios.
Havia uma distância muito
grande entre a realidade que ele vivia no palácio e a que o seu povo vivia sob
o jugo egípcio da escravidão; isto contribuiu para que o seu coração
ansiasse pela libertação de seu povo. Aos quarenta anos de idade, ele visita
seu povo e vendo um egípcio maltratando a um hebreu, o matou. Fez isto por uma
única razão que Estevão nos revela em sua pregação: "Ora, Moisés
cuidava que seus irmãos entenderiam que Deus os queria salvar, por intermédio
dele; eles, porém, não compreenderam" (Atos 7:25).
Esta é uma declaração
importantíssima acerca de Moisés, pois mostra que mesmo antes de Deus ter lhe
falado ao coração sobre libertar seu povo, ele já desejava isto. De fato, a Bíblia
declara que Deus opera em nós o querer e o realizar (Fl.2:13); Ele começa
despertando em nós um desejo antes de nos levar a fazer o que planeja. Contudo,
não é só o querer que vem de Deus, o realizar também deve vir, e nesta ocasião
Moisés ainda não entendia isto e quis fazer sozinho a obra de Deus. Ele quis
ser o libertador na força da carne e de seu próprio braço, mas Deus não
aceita e não abençoa isto, pois devemos depender d'Ele e nos mover n'Ele se
queremos fazer sua obra!
Moisés começou
fracassando, pois o homicídio que praticou foi descoberto e o rei quis matá-lo
ao entender suas intenções. Então teve de fugir e foi para a terra de Midiã,
onde peregrinou por quarenta anos, casou e teve seus dois filhos. Este homem com
toda cultura e sabedoria que possuía, passou quarenta anos apascentando os
rebanhos de seu sogro no deserto. Quando o Senhor se revela a ele, já tinha
oitenta anos de idade. Já não lhe parecia que o Senhor ainda o quisesse usar,
afinal de contas quando Moisés estava no auge de seu vigor físico Deus o
"rejeitara". Mas para que o Senhor o usasse como veio a usar, era
necessário trabalhar a vida dele, tratá-lo, adestrá-lo.
Por que Moisés não pôde
libertar o povo aos quarenta anos?
Simplesmente porque não
era o tempo de Deus. O Senhor já havia falado a Abraão acerca disto; que os
hebreus seriam escravizados e afligidos por quatrocentos anos, e retornariam na
quarta geração para a terra de Canaã, pois era necessário que a medida da
iniqüidade dos cananeus se enchesse antes que Deus os julgasse, dando a terra
aos hebreus (Gn.15:13-16). Mas havia também o tempo de Deus na vida de Moisés.
Ele precisava estar espiritualmente preparado, e tudo o que ele tinha era o
preparo dos egípcios, pois fora educado como um príncipe.
É aí que entra a revelação
da sarça. Depois de quarenta anos consumindo os "excessos" do preparo
egípcio de Moisés, Deus se revelou a ele mostrando que já não mais havia o
que consumir, que ele agora estava pronto para fazer a obra para a qual Deus o
designara. É interessante notar que Deus também não acusa Moisés pelo homicídio
que cometera quarenta anos antes, pois a revelação de Deus no fogo da sarça,
não é de destruição, mas sim de restauração.
O Senhor pede que ele tire
as sandálias de seus pés para que a sola de seus pés estivessem em contato
direto com terra santa, para se expor à santidade de Deus. Veja que o propósito
do Senhor é restaurá-lo e usá-lo depois de quarenta anos consumindo as coisas
que deveriam ser consumidas em sua vida. Então o Senhor lhe mostra que o fogo só
consome enquanto tem o que consumir, depois já não mais, pois o propósito do
fogo não é destruir, mas aperfeiçoar.
Em todo o tratamento que
passamos, Deus quer o nosso bem. Ele tem planos de bem e não de mal, e quer nos
dar o fim que desejamos, com um futuro e uma esperança. Não devemos ter medo
de seu tratamento, nem do fogo consumidor; pois se estamos abertos ao seu
tratamento, tudo o que iremos provar é o aperfeiçoamento.
NÃO ESMAGARÁ A CANA QUEBRADA
Um texto bíblico que me
ajudou a compreender que Deus quer me fazer o bem e nunca me destruir, mesmo no
mais intenso período de tratamento, foi o seguinte:
"Não esmagará a
cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega; em verdade promulgará o
direito."
Isaías 42:3.
Nunca havia entendido o
termo "não esmagará a cana quebrada" até um dia em que fui com um
amigo à sua lavoura. Entramos de caminhonete na plantação de trigo para que
ele pudesse avaliar o estado do trigo em diferentes pontos, e percebi que à
medida em que avançávamos, deixávamos um trilho, com a marca dos pneus que
pareciam esmagar as indefesas plantinhas. Inocentemente eu lhe perguntei se não
estava estragando aquela parte da plantação por onde passávamos e ele me
disse que não; parou para mostrar que mesmo com o talo quebrado, aquele trigo
se levantaria de novo, num verdadeiro processo de regeneração da natureza, e
mostrou-me outras áreas onde isto já havia acontecido.
Quando a Bíblia fala da
cana, está falando do caule das plantas. Deus está dizendo que mesmo que se
quebre, Ele não destruirá a planta por causa disto, mas permitirá que ela
seja restaurada e suas rachaduras refeitas. Esta é a mesma mensagem do fogo
consumidor. Deus não quer nos destruir quando trata conosco, mas nos aperfeiçoar.
Ele sempre quer o nosso bem. Quando estamos "quebrados" em alguma área
de nossa vida, o Senhor não vai nos esmagar por não sermos perfeitos, mas vai
permitir que a restauração aconteça.
A outra frase do versículo
que transmite a mesma mensagem que a primeira, é: "não apagará a
torcida que fumega". É uma alusão ao pavio da lâmpada que já não
está mais aceso, está se apagando. Novamente a Bíblia declara que mesmo
quando não estamos dentro daquilo que Deus planejou que estivéssemos, Ele não
vai nos destruir. O Senhor não vai molhar a ponta dos dedos com saliva e
apertar o pavio que fumega, como fazemos com uma velinha num bolo de aniversário.
Não, Ele não quer nos destruir, quer o nosso bem! Como diz o antigo cântico
pentecostal: "Se apagar o pavio que fumega, Jesus assopra e o fogo
pega". Aleluia! Jesus jamais apagará o último pavio da esperança!
LUCRANDO NAS PERDAS
Sei que muitas coisas que
nos sucedem não parecem ter por trás de si o controle de Deus e nem que vá
nos levar a algo melhor. Porém Deus sabe como tratar conosco. As Escrituras
Sagradas estão cheias de exemplos de como podemos lucrar em situações de
perdas.
Isaque começou a ser abençoado
por Deus e prosperar em tudo o que fazia; chegou a plantar em época de fome e
colher a cem por um! Tudo parecia bem e abençoado e Ele decidiu abrir os poços
que Abraão seu pai havia cavado, mas de repente a calmaria cessou e os homens
de Gerar começaram a contender com ele por causa daqueles poços; contudo, isto
fez com que ele começasse a cavar outros poços e deixasse de andar só na
sombra de seu pai, como fazia até então (Gn.26:12-33).
Isaque é, ao meu ver, a
figura menos proeminente de todos os patriarcas. Como herdou tudo do pai, não
fez muitas conquistas, como foi o caso de Abraão e também Jacó. Mas este episódio
aparentemente negativo em dias onde a benção do Senhor estava com ele, fez com
que iniciasse suas próprias conquistas. O que parecia ser a ausência da benção
de Deus, se tornou numa benção ainda maior .
O apóstolo Paulo passou
por uma situação de naufrágio, onde o navio encalhou e começou a ser destruído
pela força das ondas, o que fez com que todos abandonassem o navio e tentassem
se salvar chegando até a terra a nado ou segurando-se nos destroços do navio.
Ele poderia até mesmo ter questionado a Deus como muitos de nós o fazemos, mas
não o fez, pois sabia que Deus nos faz lucrar nas perdas; sua segurança foi o
ânimo do coração dos demais.
Já em terra, Paulo foi
pegar lenha para alimentar o fogo onde se secavam e aquentavam, e uma serpente
saiu do meio da madeira e picou-lhe a mão; enquanto todos esperavam que ele
morresse, Deus o guardou de forma milagrosa e uma porta se abriu para que ele
pregasse o evangelho e ministrasse cura a muitos enfermos na Ilha de Malta. Deus
pode nos fazer lucrar nas perdas!(At.27:41-28:10).
Quando Paulo e Silas foram
açoitados e presos por terem expulsado o espírito de adivinhação de uma moça
em Filipos, não se entristeceram, antes, começaram a orar e cantar louvores a
Deus, e um grande terremoto os libertou e permitiu que ganhassem o carcereiro e
toda a sua família para Cristo. O que aparentemente poderia ser visto como
derrota ou perda Deus transformou em lucro, pois Ele é soberano sobre todas as
coisas (At.16:16-34).
Ouvi, certa ocasião, um
relato de um ocorrido entre um grupo de pescadores que moravam numa mesma vila.
Os homens saíram todos a pescar e, em enquanto estavam ao mar, sobreveio grande
tempestade que os deixou totalmente perdidos, sem conseguirem retornar. Quando a
tempestade foi acalmando, já estava anoitecendo e eles não conseguiam se
situar afim de poderem voltar. Aflitas, as mulheres e crianças se dirigiram à
praia para os esperar, e num descuido gerado pela aflição, uma das casas
incendiou-se e não havendo meios de controlar o incêndio, perdeu-se tudo o que
havia naquela casa.
Não muito tempo depois do
incêndio, os pescadores conseguiram retornar e foram recebidos com festa pelas
famílias. Porém, uma das famílias recebeu seu chefe com choro. Não
entendendo porque seus familiares choravam, ele perguntou-lhes o que os
entristecia e a mulher lhe contou acerca do incêndio e de terem perdido a casa
e seus pertences. Então o homem respondeu: - "Pois vocês deveriam se
alegrar. Se não fosse pelo incêndio que iluminou a praia, jamais teríamos
conseguido retornar!"
Tal qual este episódio
dos pescadores, devemos crer que o Senhor também nos levará a lucrar em cada
circunstância.
COMPREENDENDO A CORREÇÃO
Até mesmo quando somos
corrigidos, é para o nosso próprio bem, como reconheceu o salmista:
"Antes de ser
afligido andava errado, mas agora guardo a tua palavra.
Foi-me bom ter eu
passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos"
Salmo 119:67,71.
O Senhor não quer nos
destruir quando nos corrige, quer o nosso bem. Logicamente a correção é um
trato de Deus quando estamos errados, e não quando estamos andando em
fidelidade. Mas mesmo quando estamos procurando andar com Deus, podemos errar
com nossas motivações. A grande verdade é que somos falhos e imperfeitos e
precisamos ser trabalhados por Deus. Mas isto será sempre para o nosso bem.
A epístola aos Hebreus
também nos ensina a respeito da correção divina:
"E estais
esquecidos da exortação que, como a filhos, discorre convosco: Filho meu, não
menosprezes a correção que vem do Senhor, nem desmaies quando por ele és
reprovado; porque o Senhor corrige a quem ama, e açoita a todo filho a quem
recebe.
É para disciplina que
perseverais (Deus vos trata como a filhos); pois, que filho que há que o pai não
corrige?
Mas se estais sem correção,
de que todos se têm tornado participantes, logo sois bastardos, e não filhos.
Além disso, tínhamos os
nossos pais segundo a carne, que nos corrigiam, e os respeitávamos; não
havemos de estar em muito maior submissão ao pai dos espíritos, e então
viveremos?
Pois eles nos corrigiam
por pouco tempo, segundo melhor lhes parecia; Deus, porém, nos disciplina para
aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade.
Toda disciplina, com
efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao
depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela
exercitados, fruto de justiça."
Hebreus 12:5-11.
Se somos filhos, seremos
corrigidos, e isto é demonstração de amor do Pai celeste. Mas não quer dizer
que iremos nos sentir "confortáveis" quando somos corrigidos. A
advertência é que não menosprezemos a correção e também que não
desmaiemos quando somos corrigidos. Por que a Bíblia fala sobre desmaiar?
Certamente porque há
momentos em que a correção parece ser mais forte do que nós. E ela não trará
alegria a princípio, só tristeza; mas depois produzirá em nós frutos de
justiça. Portanto o que devemos ter em mente quando somos corrigidos é que
Deus quer o nosso bem; ele nos disciplina para o nosso APROVEITAMENTO!
Devemos reconhecer sempre
que os planos que Deus têm para nós não são planos de mal, mas sim de paz,
de bem. E que o desejo do Senhor é nos dar um futuro e uma esperança, quer
entendamos isto, quer não.
Há momentos em que parece
que o tratamento divino em nossa vida não poderá ser suportado. Há horas em
que nos parece que seremos destruídos. Mas não! Deus quer o nosso bem. Nunca
deixe o inimigo sugerir que o Senhor está contra você.
Mesmo que Ele esteja
usando seus aguilhões ou abalando nossas vidas, mesmo que o fogo esteja
consumindo muitas coisas em nossa vida, ou que Deus, à semelhança da águia,
nos tenha lançado ao ar para que aprendamos a voar, não podemos perder de
vista que ELE QUER O NOSSO BEM! Seus planos para nós são os melhores e
haveremos de desfrutá-los em sua plenitude.
CONCLUSÃO
O agir de Deus é, e
sempre será invisível aos nossos olhos. Quando não o vemos agir, não quer
dizer que não esteja agindo. Quando não compreendemos o que Ele está fazendo,
não quer dizer que não esteja fazendo. Quando nada à nossa volta parece
refletir sua presença, não quer dizer que Ele tenha nos abandonado. Devemos
ter sempre a certeza e convicção de que Deus é soberano sobre todas as
coisas, e se andarmos na sua presença com um coração dedicado e sincero,
provaremos o que Ele tem de melhor.
Com certeza Deus estará
abençoando toda a jornada que você tem pela frente!