INTRODUÇÃO
GNOSE (gr. Gnosis).
1º-
Conhecimento especial das verdades espirituais.
2º-
Saber por excelência.
3º-
Filosofia dos magos.
4º-
Alta teologia.
5º-
As doutrinas do gnosticismo.
GNOSTICISMO: Movimento sincretista religioso-filosófico da
Antigüidade, que pretendia salvar o homem por um conhecimento especial.
Penetrando o cristianismo, absorveu várias de suas doutrinas, rejeitando
outras. Constituiu aí diversas seitas heréticas que representaram séria ameaça
á ortodoxia nos séculos II e III.
1º Membro da
seita dos agnoítas. Seita Cristã do século IV, que consi-derava a onisciência
de Deus limitada ao presente, o conhecimento que ele tem do passado apenas por
memória e do futuro por dedução do presente.
2º Seita do século VI, aderentes de Temístio,
diácono de Alexandria, que negava a onisciência de Jesus homem. Portanto,
agnosticismo: Princí-pios doutrinários dos agnoítas.
1º Qualquer doutrina que afirma a impossibilidade de conhecer a
natureza última das coisas.
2º Doutrina que afirma a impossibilidade de conhecer a Deus e a origem
última do universo.
3º O que ignora ou aparenta ignorar tudo quanto não cais sob
domínio dos sentidos.
VISÃO GERAL
Na
época do nascimento de Jesus, as terras que circundam o Mediterrâneo estavam
na posse de Roma. Esses vastos territórios, que abrangiam toda a civilização
então conhecida pelo homem comum, eram dominados por um tipo único de cultura.
Em nenhum outro período da história anterior ou posterior se encontra exemplo
de predomínio cultural que se possa comparar ao exercido por Roma nessa época.
O cidadão comum do Império Romano não tinha conhecimento algum das civilizações
da Índia ou da China. Além de suas fronteiras - pensava ele - só existiam
tribos selvagens ou semi-civilizadas. As fronteiras do Império Romano,
portanto, coincidiam com as do mundo civilizado. A lealdade ao único imperador
e o sistema militar a ele sujeito eram os fatores que preservavam a unidade.
Embora pequeno, se comparado ao de um estado militar moderno, o exército de
Roma era bastante para preservar a paz romana. Sob a égide dessa paz, o comércio
prosperava, as comunicações eram facilitadas pelas excelentes estradas e pelo
mar, e entre os homens de cultura, ao menos nas cidades maiores, o intercâmbio
de idéias era propiciado pela existência de uma língua comum, a saber, o
grego. Apesar dos maus governantes e dos funcionários corruptos, o império
assegurava a administração de uma justiça severa sem precedentes no mundo de
então. Os cidadãos orgulhavam-se
do império e de suas conquistas.
No
entanto, a despeito da unidade, propiciada pela autoridade imperial e pelo
controle militar, Roma evitava a supressão das instituições existentes nas
diferentes localidades. No geral, os habitantes das províncias governavam-se a
si mesmo no que concerne ás questões internas. Respeitavam-se as práticas
religiosas locais. Preservavam-se os costumes e as línguas antigas dos povos
das províncias. Tal como nos estados nativos existentes dentro do âmbito dos
impérios modernos, concedia-se aos governantes locais um domínio limitado em
certas porções do império. É o caso da Palestina na época do nascimento de
Jesus. Muito do sucesso de Roma, na dominação de população tão diversas e a
ela sujeitas, se deve á consideração com que tratava os direitos e
preconceitos locais. A diversidade existente dentro dos limites do império era,
assim, tão notável quanto a sua unidade. Mais do que em qualquer outro, no âmbito
das idéias religiosas essa variedade saltava aos olhos.
O
cristianismo não veio a ocupar um vácuo. Na época do seu surgimento,
pululavam na mente dos homens concepções várias do universo, da religião, do
pecado e da recompensa e punição.
O
cristianismo tinha de defrontar-se com elas e procurar ajustar-se. Não se
tratava, portanto, de semear em solo virgem. As concepções já existentes
forneciam muito do material a ser usado nas concepções já existentes
forneciam muito do material a ser usado na conformação da sua estrutura.
Muitas dessas idéias feneceram e desapareceram do mundo moderno. O fato de ter
havido essa mescla deve levar o estudioso a distinguir os elementos permanentes
dos transitórios no pensamento cristão, apesar da extrema dificuldade implícita
nesse processo, e da diversidade das soluções propostas pelos vários
eruditos.
Certos
fatores presentes ao ambiente intelectual em que se inseriu o cristianismo provêm
das religiões antigas universais e remontam a datas antiqüíssimas. Com exceção
de uns povos representantes do pensamento filosófico mais requintado, todos
criam na existência de um poder - ou de poderes - invisível, sobre-humano e
eterno, que controlava o destino e devia ser adorado, ou aplacado por meio de
orações, atos rituais, ou sacrifícios.
A
Terra era considerada o centro do universo. Ao redor dela o Sol, os planetas e
as estrelas seguiam o seu curso. Acima dela, o céu; abaixo, a morada dos espíritos
já mortos ou dos maus. Na mente popular não havia a noção do que hoje se
denomina lei natural. Tudo o que acontecia na natureza era obra dos poderes
invisíveis do bem e do mal, que governavam o mundo arbitrariamente. Os
milagres, por conseguinte, eram considerados, não simplesmente possíveis, mas
coisa esperada, quando as forças superiores desejassem gravar, na sensibilidade
do homem, a impressão de algo importante ou fora do comum. O mundo era
considerado habitação de inúmeros espíritos bons e maus, que influíam em
todas as facetas da vida humana e, de tal forma se apossavam dos homens, que
passam a controlar suas ações, para o bem ou para o mal. Grande parte da
humanidade caracterizava-se por um profundo sentido de indignidade, ou de
insatisfação de sentimento religioso eram indícios da necessidade de
estabelecer melhores relações com o espiritual e o invisível, e da ânsia
generalizada por um socorro maior que o que os homens podiam prestar uns aos
outros.
Além
desses conceitos gerais comuns á religião popular, o mundo a que se dirigiu o
cristianismo devia muito á influência específica do pensamento grego. As idéias
helênicas dominavam a inteligência do Império Romano, mas sua influência
estendia-se tão somente ás camadas mais cultas da população. A reflexão
filosófica dos gregos ocupou-se inicialmente com a explicação do universo físico.
Porém, com Heráclito de Éfeso (cerca de 490 a C.), embora tudo seja ainda
considerado, em certo sentido, físico, o universo, que está num contínuo
fluir, passa a ser considerado como formado por elemento ígneo, a razão que
penetra em todas as coisas, da qual a alma do homem é parte. Aí está,
provavelmente, ainda que em germe, o conceito de LOGOS, de grande importância
no pensamento grego subseqüente e na teologia cristã. No entanto, não se
fazia distinção entre esse elemento que dá forma ás coisas, e o calor ou
fogo naturais. Anaxágoras de Atenas (cerca de 500-428 a.C.) ensinava que uma
mente (nous) modeladora age na disposição da matéria e que é independente
dela. Os pitagóricos, na Itália meridional, afirmavam que o espírito é
material e que as almas são espírito decaídos e aprisionados em corpos
materiais. Parecem ter sido levados a essa crença na existência imaterial
mediante a consideração das propriedades dos números, verdades permanentes
pertencentes a um âmbito situado além do da matéria, e impossíveis de serem
discernidos materialmente.
Para
Sócrates (470?-399 a.C.), o objeto primeiro do pensamento é a explicação do
próprio homem, e não a do universo. O tópico de investigação mais
importante é a conduta do homem, isto é, a moral. A ação reta baseia-se no
conhecimento, e o seu resultado são as quatro virtudes:
1ª
A prudência,
2ª
A coragem,
3ª
O autocontrole e
4ª
A justiça, as quais, sob a forma de “virtudes naturais”, viriam a
ocupar lugar proeminente na teologia cristã medieval. A identificação
da virtude com o conhecimento, vale dizer, a doutrina de que o conhecer leva
necessariamente ao agir, transformou-se num legado desastroso para todo o
pensamento grego e veio a influenciar muito a reflexão cristã, particularmente
o gnosticismo do século II .
Foi
em Platão (427-347ªC.), discípulo de Sócrates, que o espírito
grego chegou ao ápice de suas conquistas. Dele se pode dizer, com justeza, que
foi um homem de piedade mística e de percepção espiritual muito profunda.
Para Platão, as formas passageiras do mundo visível não fornecem conhecimento
real. O conhecimento do que é de fato permanente e real provém do
conhecimento das “idéias”, que são os arquétipos ou padrões
universais e imutáveis existentes no mundo espiritual invisível. Este é o
mundo “inteligível”, já é conhecido pela razão e não pelos sentidos. As
“idéias” dão aos fenômenos passageiros, presentes aos nossos sentido,
tudo o que de real eles possuem. A alma conheceu essas “idéias” numa existência
anterior á presente. O que os fenômenos do mundo visível fazem é chamar á
lembrança ou rememorar as “idéias” anteriores conhecidas. A alma, cuja
existência é anterior á do corpo, é forçosamente independente deste e não
é afetada pelo fato da sua decadência. Esse conceito de imortalidade como
atributo da alma, de que o corpo não participa, sempre influiu no pensamento
grego e contrasta claramente com a doutrina
hebraica da ressurreição. As “idéias” não tem todas o mesmo
valor, as mais elevadas são as do verdadeiro, do belo e, especialmente, a do
bem. Platão talvez não tenha chegado a percepção clara de um Deus pessoal,
tal como corporificada na “idéia” do bem, mas não há negar que se
aproximou dela. O bem, e não o acaso, governa o mundo, é a fonte dos bens
menores e deseja ser imitado nas ações dos homens. O reino das “idéias”
á verdadeira morada da alma, e é em comunhão com elas que esta atinge a sua
prefeita satisfação. A salvação consiste na reconquista da visão da bondade
e da beleza externa.
Aristóteles
(384-322 ª. C.) era um espírito muito menos místico do que Platão. Para ele
o mundo visível era uma realidade insofismável. Rejeitou a distinção radical
entre “idéia” e fenômeno, feita por Platão. Aquela não pode existir sem
este. Exceto no caso de Deus, que é totalmente imaterial, cada existência é
uma substância, resultado da impressão da “idéia”,
enquanto força formativa, sobre a matéria, que é o conteúdo. Em si
mesma a matéria não passa de substância potencial. Sempre existiu, embora
nunca sem forma. O mundo, portanto, é eterno, já que não existe um reino de
“idéias” anterior á manifestação destas em fenômenos. O mundo é o
objeto do conhecimento. Aristóteles é, de fato, um cientista. As mudanças do
mundo exigem o impulso de um “primeiro motor” que, por sua vez, é imóvel.
Aí está a base do célebre argumento aristotélico da existência de Deus. Mas
o “primeiro motor” age com propósito inteligente. Deus é, por conseguinte,
não só o começo mas o fim do processo de desenvolvimento do mundo. O homem
pertence ao mundo das substâncias. Ele é composto, porém, não só de corpo e
“alma” sensível, característicos do animal, mas também duma fagulha
divina, um LOGOS, que o homem tem em comum com Deus e que é eterno, embora
essencialmente impessoal, ao contrário da concepção platônica de espírito.
No que tange á moral, Aristóteles afirmava que o alvo é a felicidade ou o
bem-estar, atingindo mediante a preservação cuidadosa da via médica ideal.
Não
foi grande o avanço da filosofia grega, do ponto de vista científico, depois
de Platão e Aristóteles. No entanto, a influência direta destes dois
pensadores era pequena ao tempo de Cristo. Duzentos e cinqüenta anos após o
seu nascimento, surgira uma forma modificada de platonismo - o neoplatonismo -
de grande importância, que afetou profundamente a teologia cristã, notadamente
a de Agostinhho. Aristóteles viria a influenciar poderosamente a teologia escolástica
do fim da Idade Média. Esses
antigos filósofos gregos tinham considerado o homem especialmente á luz do seu
valor para o estado. As conquistas de Alexandre,
que morreu em 323 ª C., trouxeram grande mudança na perspectiva do
homem daquele tempo. A cultura helênica estendeu-se ao mundo oriental, mas os
pequenos estados gregos deixaram de ter impressão com entidades políticas
independentes. Tornou-se difícil manter, em relação ás novas e vastas
unidades políticas, a mesma devoção que, por exemplo, a Atenas independente
tinha evocado nos seus cidadãos. A ênfase deslocava-se para o indivíduo como
entidade independente. E era em termos de vida individual que a filosofia tinha
agora de ser interpretada. De que maneira poderia o indivíduo tirar o máximo
proveito da sua vida? A essa pergunta crucial para a época ofereciam-se duas
respostas:
1ª - Era
totalmente contrária á índole do cristianismo e, portanto, impossível de ser
usada por este.
2ª - Tinha certas afinidades com ele, e, por conseguinte, estava
destinada a exercer grande influência sobre a teologia cristã. (estamos nos
referindo ao epicurismo e ao estoicismo.) Atos
17
Epicuro
(342-270), que passou a maior parte de sua vida em Atenas, ensinava que a
satisfação mental é o alva mais alto do homem,
que esse estado é mais perfeito quando é passivo. Consiste ele na ausência
de tudo quanto perturba e importuna. Vê-se desde já por que Epicuro não
merece as censuras freqüente assacadas ao seu sistema. Na realidade, sua vida
demonstra que ele foi um asceta. Os piores inimigos da felicidade mental, dizia
ele, são os temores injustificados, dos quais o principal é o horror á ira
dos deuses e á morte. Ambos são temores infundados. Os deuses existem, mas não
criam nem governam o mundo. Como Demócrito (470? 380? ª. C.), Epicuro afirmava
que o mundo tinha sido formado pelo acaso, e pela combinação sempre nova de átomos
eternamente existentes. Tudo é material, inclusive a alma do homem e os próprios
deuses. A morte é o fim de tudo. Isso não significa que seja um mal, pois não
subsiste pela consciência de cisa alguma. Enquanto religião, portanto, o
epicurismo consistia numa forma de indiferentismo. Essa escola espalhou-se
rapidamente. Na sua brilhante De Erum Natura, o poeta romano Lucrério (98?-55?
ª. C.) exprimiu o aspecto mais nobre do epicurismo, mas a influência do
sistema como um todo foi de caráter destrutivo, e levava a um conceito sensual
de felicidade.
Contemporâneo
de Epicurio, Euêmero (cerca de 300 a.C.) ensinava que os deuses das velhas
religiões não passavam de homens deificados, cuja aura de divindade provinha
de mitos e tradições a seu respeito. O poeta Ênio (239?-170? a.C.) repetia e
pregava as mesmas idéias em Roma. Paralelamente ao epicurismo, surgiram idéias
cépticas, representadas pelo ensino de Pirro de Eléia (360?-270?) e seus
seguidores. Afirmavam eles que a natureza real das coisas nunca pode ser
compreendida. Mais que isso, a escolha de uma linha de ação é sempre dúbia.
Na prática, Pirro, com Epicuro, pregava o afastar-se de tudo o que importuna e
perturba, como ideal de vida. O cristianismo pouco teria das idéias de Euêmero,
nos seus ataques á mitologia pagã e os Pais lançassem mão de argumentos
herdados do cepticismo, com o fito de fazer valer sua afirmação de que a razão
humana é severamente limitada.
Outra
grande resposta era a do estoicismo, o exemplo mais nobre do pensamento ético
pagão antigo. Entre o cristianismo e o estoicismo havia, em algumas facetas,
grandes pontos de aproximação; em outras, grade distância. Seus líderes
eram: Zenão (?-264? a.C.), Cleantes (?-301?-232 ? a.C.) e Crisipo (280 ?-
a.C.). Embora originário de
Atenas, desenvolveu-se com mais intensidade fora da Grécia, especialmente em
Roma, onde Sêneca (3 ? ªC.-65 d.C.), Epicteto (60 d.C.-7) e o Imperador Marco
Aurélio (121-180 d.C.) tiveram grande influência.
O estoicismo era
muito atuante em Tarso durante os primeiros anos da vida do apóstolo Paulo,
sendo, antes de mais nada, um grande sistema ético, embora alguns o
considerassem religião. Sua idéia do universo era curiosamente materialista.
Tudo o que é real é físico, embora haja grande diferença na espessura dos
corpos, sendo os mais grosseiros penetrados pelos mais finos. Fino e grosseiros
correspondem, em linhas gerais, ás distinções comuns entre espírito e matéria.
O estoicismo estava próximo da idéia de Heráclito, se bem que a tivesse
modificado bastante. A fonte de tudo, a influência modeladora e harmonizadora
do universo, é o calor vital, a partir do qual tudo se desenvolveu
mediante gruas de tensão. Ele penetra todas as coisas e para ele tudo retorna.
Muito mais que o fogo de Heráclito, a que se assemelha, ele é a alma universal
inteligente, autoconsciente, a razão disseminada por toda as coisas, o Logos,
do qual a razão humana e parte. É Deus, vida e sabedoria de tudo. Ele está
verdadeiramente dentro de nós. E nós, então, podemos
“seguir o Deus que está dentro de nós”. Por isso, é possível
dizer, como Cleantes dizia de Zeus: “Também nós somos geração tua”. Os
deuses populares são meros nomes aplicados ás forças que emanam de Deus.
LOGOS:
1º-Na
filosofia de Platão, a razão como manifestação ou emanação do ser supremo.
2º-Na
filosofia de Heráclito e dos estóicos, o princípio racional que governa e
desenvolve o universo.
3º-Na
teologia cristã, o verbo de Deus, Cristo, Segunda pessoa da Trindade.)
Se em todo o
mundo há uma sabedoria, segue-se que há uma lei natural, uma regra de conduta
par todos os homens. Todos são moralmente livres. Todos os homens são irmãos,
já que provêm todos do mesmo Deus. As diferenças em situação de vida são
meros acidentes. O supremo dever é seguir os ditames da razão na situação em
que cada um se encontra, e isso é igualmente digno de louvor, quer seja o indivíduo
imperador quer seja escravo. A obediência á razão o Logos, é o objeto único
dos esforços humanos. A felicidade não é o alvo a ser perseguido, embora o
cumprimento do dever tenha como subproduto a felicidade. Os principais inimigos
da obediência perfeita são as emoções e a sensualidade, que pervertem a
capacidade de julgamento. Delas deve o homem afastar-se. Deus inspira todas as
boas ações, embora a noção de Deus seja essencialmente panteísta. (PANTEÍSMO:
Sistema filosófico que identifica Deus com o mundo, como PANENTEÍSMO. Adoração
da natureza, vendo Deus em tudo quanto existe).
A teologia cristã
viria a sofrer profundamente a influência da estrênua atitude ascética do
estoicismo, da sua doutrina da sabedoria divina que tudo impregna e governa, o
Logos, da insistência em que todos os que agem retamente são igualmente
merecedores, seja qual for sua posição, e da afirmação da irmandade
essencial de todos os homens. Nos seus representantes mais notáveis, o credo
estóico e seus resultados atingiram estatura nobre. No geral, porém, era uma
doutrina dura, estreita e pouco simpática, reservada a uma pequena elite. O próprio
estoicismo reconhecia que poucos poderiam atingir o padrão de excelência por
ele pregado. Daí o tom de orgulho presente em muitos dos seus representantes,
muito mais flagrante quando se comprara com o espírito de humildade presente no
cristianismo. No entanto, o estoicismo mesmo assim teve efeitos notáveis. Deu a
Roma excelente imperadores e funcionários do estado. Nunca chegou a tornar-se
um credo realmente popular, mas era seguido por pessoas de influência e posição
elevada no mundo romano, e modificou para melhor a lei romana, introduzindo na
jurisprudência o conceito de lei natural, expressa na razão e superior a
quaisquer estatutos humanos arbitrários. Seu ensino de que todos os homens são,
por natureza, iguais amenizou gradualmente as facetas mais perversas da
escravatura, propiciando a muitos conquistarem a cidadania romana.
Durante o período
em que surgiu o cristianismo, os antigos sistemas filosóficos sofreram mudanças
notáveis.. A tendência ao sincretismo era largamente difundida e as várias
escolas influenciavam-se mutuamente. Por exemplo, a ética rigorosa original dos
estóicos foi modificada pela idéia do termo médio aristotélico. O célebre
filósofo estóico Possidônio (135-551 a.C.) mostra influência platônica.
Foi, aliás, um dos espíritos mais universais da Antigüidade. Á preocupação
racional e mística somou a de
historiador e geógrafo. É evidente em Plutarco
o caráter eclético do platonismo médio. Nele misturam-se temas estóicos,
aristotélicos e pitagóricos. O caráter sincrético do pensamento helênico
torna-se evidente em muitos dos Pais da Igreja.
Apesar da
disseminação do epicurismo e do estoicismo, pode-se dizer que, ao tempo de
Cristo, a tendência principal do pensamento mais refinado em Roma e nas províncias
encaminhava-se em direção ao monoteísmo panteísta, ao conceito de Deus como
bom __ contrastando com o caráter amoral das antiga s divindades gregas e
romanas __ á crença numa providência divina soberana, á idéia de que a
verdadeira religião não consiste em cerimônias mas em imitação das
qualidades morais de Deus e a uma atitude mais humana para com as criaturas.
Faltavam á filosofia de então dois elementos que o cristianismo viria realçar,
a saber, a certeza que só pode advir da crença numa revelação divina, e a idéia
de lealdade a uma pessoa.
O povo em geral,
no entanto, desfrutava de poucos dos benefícios advindos do pensamento filosófico.
Campeava no seu meio a superstição mais crua. Se é verdade que o predomínio
das velhas religiões da Grécia e de Roma diminuíra, não menos verdade é que
o povo comum permanecia na crença em deuses muitos e senhores vários. Cada
cidade, cada profissão, a agricultura, a primavera, o lar, os eventos
principais da existência, o casamento, o nascimento __ tudo tinha o seu patrono
na pessoa de um deus ou deusa. Essas noções viriam mais tarde a aparecer na
história cristã sob a forma de veneração de santos. Adivinhos
e mágicos, especialmente os de raça judaica, faziam comércio próspero
entre os ignorantes. Acima de tudo, o povo em geral estava convicto de que a
preservação do culto religioso histórico dos deuses antigos era necessário
á segurança e perpetuação do estado. Se esse culto não fosse praticado, os
deuses exerceriam vingança por meio de calamidades. Foi essa opção que deu
causa a muitas das perseguições movidas contra o cristianismo. Essas idéias
populares não encontravam oposição da parte dos mais cultos, os quais, em
geral, admitiam que as velhas religiões tinham valor policial, e consideravam
as cerimônias do estado como uma necessidade do homem comum. Sêneca expressou
sem rodeios a opinião dos filósofos, ao declarar que “o homem sábio observa
todos os costumes da religião tais como ordenados pela lei, e não como agradáveis
aos deuses”.
Era ás massas
que apelavam os pregadores cínicos desse período. A corrupção moral do império
favoreceu o reavivamento desse antigo credo de independência e auto-suficiência.
Seu campeão fora Diógenes de Sinope (400?-325 a. C.) Embora muitos desses
pregadores itinerantes fossem grosseiros e mesmo obsceno, havia os que eram
dignos de honra, como Dio Crisóstomo (40. d. C. 112?), que discursava contra o
vício e a sensualidade, propunha a vida do campo como muito superior á do
citadino a bastado, e proclamava uma mensagem de harmonia mundial e verdadeira
piedade, fundamentada na idéia universal e inata d e Deus. É possível
perceber alguma influência da vida ascética e itinerante do cínico sobre o
desenvolvimento do monarquismo
cristão.
Por razões
patrióticas, os imperadores mais atilados procuram fortalecer as religiões
populares antigas e transformá-las em adoração do estado e do seu chefe. Na
verdade, foi nos dias da república que começou a deificação patriótica do
estado romana. Já em 195 a.C. encontra-se em Esmirna o culto da “Dea Roma”.
Essa reverência era favorecida pela popularidade do império nas províncias, já
que ele assegurara um governo melhor do que o da república. Em 29 a.C. Pérgamo
já dispunha de um templo dedicado a Roma e a Augusto. Espalhou-se rapidamente
esse culto dedicado ao governante como corporificação do estado ou, melhor
dizendo, ao seu “gênio” ou espírito que nele habitava. Criou-se logo um
sistema sacerdotal patrocinado pelo estado, dividido e organizado em províncias,
encarregado da celebração não só do culto como também dos jogos anuais, em
larga escala. Foi essa provavelmente a organização de caráter religioso mais
desenvolvida ao tempo do primeiro império. Ainda está por ser verificado com
exatidão o grau de influência que exerceu sobra as instituições cristãs. Do
ponto de vista do homem moderno, havia nesse sistema muito mais patriotismo do
que religião. Mas a sensibilidade cristã primitiva considerava a adoração do
imperador absolutamente irreconciliável com a fidelidade a
Cristo. A descrição da igreja de Pérgamo (Ap.2:13) é exemplo típico
dessa opinião. Para os romanos, a recusa dos cristãos em render culto ao
imperador parecia pura e simples traição, razão porque se iniciou a grande
era dos mártires.
A necessidade
que o homem tem de religião é muito mais profunda do que a de filosofias ou
cerimônias. Só o homem excepcional se satisfaz com uma filosófica. As cerimônias
atraem maior número, mas não bastam aos que exercem com mais zelo a capacidade
de raciocínio, nem aos dotados se um sentimento agudo de indignidade pessoal.
Surgiram tentativas de reavivar o paganismo popular mais antigo, já moribundo.
Muitos dos primeiros imperadores mostraram-se grandes construtores e protetores
de templos. O exemplo mais típico e notável de tentativa de reavivamento e
purificação da religião popular é o de Plutarco (46? d.C.- 120?), de Queronéia,
na Grécia. Criticando a mitologia antiga, Plutarco rejeitava tudo o que
subentendesse a prática de atos cruéis ou moralmente indignos por parte dos
deuses. Há um só Deus, afirmava ele. Os deuses populares são personificações
de atributos seus, ou espíritos
subordinados. Cria também em oráculos, providências especiais e retribuição
futura, e pregava uma vigorosa moralidade. Seus esforços no sentido de reavivar
o que de melhor havia no antigo paganismo estavam, porém, destinados ao
fracasso e conquistaram poucos seguidores.
A grande maiores
dos que sentiam necessidades de ordem religiosa simplesmente adotavam as religiões
orientais, notadamente aquelas em que predominava a preocupação com a redenção,
em que o misticismo e o sacramentalismo eram traço marcante. Isso era
grandemente favorecido pelo vasto fluxo de escravos orientais para a área
ocidental do mundo romano no fim da república. A disseminação dessas crenças
independentes do cristianismo __ e, até certo ponto, rivais deste
__ durante os três primeiros séculos de nossa era, contribuiu para o
aprofundamento do sentimento religioso em todo o império e, nesse sentido,
facilitou o triunfo do cristianismo.
Uma dessas
religiões foi o judaísmo, a que teremos oportunidade de fazer referência mais
pormenorizadamente em outro local. Apesar do pouco elemento de mistério que
apresentava, o judaísmo conquistou popularidade considerável. A mente popular
voltava sua preferência para outros cultos do Oriente com ênfase maior no
misterioso ou, antes, mais peso no elemento sacramental e redentor. A importância
desses cultos no desenvolvimento religioso do mundo romano tem sido muito realçada
ultimamente. Os mais populares dentre eles eram:
Grande Mãe (Cibele).
Átis, originários
da Ásia Menor.
Ìsis e Serápis,
do Egito.
Mitras, da Pérsia.
Ao mesmo tempo,
observava-se grande sincretismo entre essas religiões, cada uma apossando-se de
elementos de outra e das religiões mais antigas nas suas zonas de origem. O
culto da Grande Mãe aportou a Roma em 204 a.C. Era em essência uma religião
rudimentar de adoração da natureza, acompanhada de ritos licenciosos. Foi o
primeiro a fixar-se no Oriente em larga escala. O de Ísis e Serápia, com sua
ênfase na regeneração e na vida futura, estabeleceu-se em Roma mais ou menos
em 80 a.C., mas defrontou-se com oposição governamental por muito tempo. O de
Mitras o mais elevado de todos, apesar de sua longa história no Oriente, não
chegou a tornar-se importante em Roma senão após o ano 100 d.C.
aproximadamente. Seu período áureo de crescimento foi na última parte do século
II e no século III. Era preferido especialmente pelos soltados. Nos últimos
anos __ ao menos do seu progresso no Império Romano __ Mitras foi identificado
como o Sol, o Sol Invictus dos imperadores imediatamente anteriores a
Constantino. Como outras religiões de origem persa, tinha uma visão dualista
do universo.
Todas essas
religiões pregavam um deus-redentor e originavam-se do culto á natureza. Sua
mitologia variava, mas em geral falava de um deus que morria e ressuscitava, e
celebrava o ciclo natural do nascimento e da morte, aplicando-se ao renascimento
da alma, de modo a vencer a morte. Outra constante nessas religiões era a
afirmação de que os iniciados participavam, de modo simbólico (sacramental),
das experiências da natureza divina, geralmente por meio de uma refeição de
que o próprio deus simbolicamente partilhava, tornado-se também partícipe da
sua imortalidade. Todas essas religiões tinham ritos secretos reservados aos
iniciados e a tos de purificação mística (sacramental) dos pecados. Nas
religiões de Ìsis e Serápis essa purificação se dava por meio do banhar-se
em águas sagradas. Nas da Grande Mãe e de Mitras, por meio do sangue de um
touro - o tourobolium - no qual os iniciados “renasciam pra sempre”, segundo
rezam algumas inscrições. Todas elas prometiam vida futura feliz para os fiéis.
Em sua atitude para com o mundo,
eram todas mais ou menos ascéticas. Algumas, como, por exemplo, o mitraísmo,
pregava a imortalidade e igualmente essencial de todos os discípulos. Não
parece haver dúvida de que o desenvolvimento da primitiva doutrina cristã dos
sacramentos foi afetado, se não diretamente por essas religiões, ao menos pelo
ambiente religioso que elas ajudaram a criar e com o qual muito bem se
coadunavam.
Resumindo a
situação do mundo pagão na época do nascimento de Cristo, pode-se dizer que
eram evidentes certas necessidades religiosas, mesmo em meio a grande confusão
e expressas em formas as mais variadas. Para fazer face ás exigências da época:
1-
Uma religião teria de pregar um Deus único e justo, embora deixasse
lugar pra inúmeros espíritos, bons e maus.
2-
Teria de possuir uma revelação definida da vontade de Deus, isto é, de
uma escritura dotada de autoridade, como era o caso no judaísmo.
3-
Teria de inculcar nos seus seguidores a virtude da negação do mundo,
baseada em ações morais agradáveis á vontade e á natureza do seu Deus.
4-
Teria de apontar um vida futura plena de recompensas e castigos.
5-
Deveria dispor de ritos simbólicos de iniciação e prometer efetivo
perdão de pecados.
6-
Teria de possuir um deus-redentor com o qual os homens pudessem unir-se
mediante atos sacramentais.
7-
Deveria pregar a irmandade de todos os homens, ou, ao menos, de todos os
seus seguidores.
Por mais simples que fosse o seu começo, o cristianismo tinha de
possuir tais características, ou delas apropriar-se, a fim de conquistar o Império
Romano, ou tornar-se uma religião universal. Em sentido muito mais amplo do que
se pensava, o cristianismo surgiu “na plenitude dos tempos”. Para os que crêem
na providência poderosa de Deus, é evidente a importância fundamental nessa
grande preparação, por mais que se reconheça o fato de que algumas das
característica s do cristianismo primitivo levam o timbre e as limitações da
época e têm de ser joeiradas, para que nele se percebam os elementos eternos.
ANTECEDENTES JUDAICOS
O
desenvolvimento do judaísmo nos seis séculos anteriores ao nascimento de
Cristo foi determinado pelos eventos concretos da história. Desde a conquista
de Jerusalém por Nabucodonosor, em 586 a.C., a Judéia estava sob controle político
estrangeiro. Coubera-lhe a mesma sorte do antigo Império Assírio e de seus
sucessores, o Império Persa e o de Alexandre. Após a dissolução deste último,
caiu sob o domínio dos Ptolomeus do Egito e então a dinastia selêucida de
Antioquia. Apesar dessa dependência política, as instituições religiosas
estavam praticamente intactas depois da restauração efetuada quando da
conquista de Babilônia pelos persas. As famílias sacerdotais hereditárias,
constituíram a verdadeira aristocracia da terra. Caracterizavam-se, nos seus
escalões mais altos, por interesses políticos e indiferença religiosa. O
cargo de sumo-sacerdote passou a ser cobiçado, por causa de sua influência
econômica e política. Com segurança, a partir do período grego, esse cargo
estava vinculado um colégio de conselheiros e intérpretes das leis, o Sinédrio,
que veio a ser constituído de 71 membros. Assim administrando, o templo e o seu
sacerdócio vieram a representar o aspecto mais formal da vida religiosa dos
hebreus. De outra parte, a convicção de que a nação era um povo santo, que
vivia sob o domínio da lei santa de Iavé, bem como a idéia de separatismo
religioso e relativa cessação da profecia, levaram-na ao estado da lei,
interpretada por um conjunto sempre crescente de tradições. Tal como acontece
nos países muçulmanos de hoje, a lei judaica era não só preceito religioso,
mas também estatuto civil. Seus intérpretes, os escribas, tornavam-se cada vez
mais claramente os líderes religiosos efetivos do povo. O judaísmo tornou-se,
por fim, religião de uma escritura sagrada com sua coleção de precedentes
interpretativos. Onde que o judaísmo estivesse presente, passou a existir a
sinagoga, como instrumento para favorecer a compreensão mais plena e administração
da lei, e como lugar de oração e culto. A origem da sinagoga é incerta.
Remonta, provavelmente, ao exílio. Sua forma típica era a de uma congregação
local que incluía todos os judeus de uma certa região, sob a presidência de
um grupo de “anciãos” que tinham, muitas vezes, um “príncipe” por
chefe. Esse grupo tinha poder para excomungar e punir os culpados. Os ofícios
eram simples e podiam ser dirigidos por qualquer hebreu, embora os preparativos
estivessem o cargo do “príncipe da sinagoga”. Constava de oração, leitura
da lei e dos profetas, tradução do trecho
lido e, ás vezes, exposição ou sermão, e bênção. Quanto mais próximos
nos colocamos da época do nascimento de Jesus, tanto mais evidente se torna o
fato de que o templo, embora ainda em alta estima, se torna cada vez menos
importante na vida religiosa do povo, em virtude do caráter pouco
representativo do sacerdócio, e também da importância crescente da sinagoga.
Sua destruição total, no ano 70 d.C., não chegou sequer a perturbar nenhum
dos elementos essenciais do judaísmo.
Sob o domínio
dos reis selêucidas, a Judéia foi invadida por influências helenizantes, que
dividiram os que reivindicavam o cargo de sumo-sacerdote. O apoio decidido ao
helenismo, dado por Antíoco IV, Epifânio
(175 a.C.) e a campanha por ele movida contra o culto e os costumes
judaicos suscitaram a grande rebelião dos Macabeus, em 167 a.C., sendo também
a causa remota de um período de independência judaica, que durou até a
conquista pelos romanos, em 63 a.C. As lutas em torno da tendência helenizante
produziram uma profunda cisão na vida dos judeus. Os governantes Macabeus
apossaram-se do cargo de sumo-sacerdote. Contudo, embora tivessem galgado posições
de liderança graças ao seu zelo
religioso, os Macabeus pouco a pouco descambaram para o helenismo, e deixaram
–se dominar por ambições puramente políticas. Com João Hircano o Macabeu
que governou de 135 a 105 a.C., tornaram-se claras as distinções entre os
partidos religiosos do judaísmo posterior.
O partido aristocrático-político, ao qual se aliaram Hircano e as
principais famílias sacerdotais, tornou-se conhecido como o partido dos
saduceus (palavra sobre cujo sentido e origem pouco se sabe). Era em essência,
um partido mundano e desprovido de condições
religiosas marcantes. Muitas das idéias apregoadas pelos saduceus eram
representativas do judaísmo mais antigo. Por exemplo: guardavam a lei sem a
interpretação tradicional e negavam a ressurreição e a imortalidade da
pessoa. Rejeitavam, de outro lado, a velho idéia de espíritos bons e maus.
Embora de grande influência política, não gozavam de popularidade entre o
povo comum, o qual se opunha a toda e qualquer influência estrangeira, e se
colocavam ao lado da lei tal como interpretada pela tradição. Os
representantes mais radicais desta atitude democrático-legalista eram os
fariseus (palavra que significa “separados ou santos”). Embora o nome por
que eram chamados tenha aparecido poucos antes do tempo de João Hircano, os
fariseus apresentavam uma atitude que remontava a épocas muito anteriores. É
no reino deste Macabeu que se inicia a luta histórica entre fariseus e saduceus.
No geral, os
fariseus não constituíam um partido político embora dentre eles tenham
surgido os zelotes (ou “homens de ação”). Nunca chegaram a ser numerosos,
não obstante contassem com a admiração da maioria do povo. O judeu comum não
dispunha da instrução nas minúcias da lei, nem do tempo disponível necessários
para tornar-se um fariseu. A atitude dos membros desse partido para com a massa
do judaísmo era de desprezo (João 7:49). Os fariseus representavam, contudo,
idéias nutridas por muita gente, resultado, em muitos sentidos, do
desenvolvimento religioso judaico desde os tempos do exílio. Sua ênfase
principal era na observância exata da lei tal como interpretada pelas tradições.
Mantinham-se aferrados á crença na existência de espírito bons e maus, com a
doutrina dos anjos e de Satanás grandemente influenciada, ao que parece, por idéia
persas. Representavam a crença na ressurreição do corpo e em recompensas e
castigos futuros, crenças essa que se havia desenvolvido grandemente nos dois séculos
imediatamente anteriores ao nascimento de Cristo. Tal como o povo em geral,
mantinham-se fiéis á esperança messiânica. Os fariseus eram, em muitos
aspectos, merecedores de grande respeito. Alguns dos discípulos de Cristo
provieram de círculos imbuídos dessas idéias. O mais culto dos apóstolos
tinha sido fariseu, e assim se declarava, mesmo muito depois de se Ter tornado
cristão (Atos 23:6). O fervor demonstrado pelos fariseus era admirável. O
farisaísmo, porém, tinha dois grande feitos:
1º-
Equacionava a religião com a mera observância de uma lei externa, mediante a
qual se conquistava uma recompensa. Isso podia levar facilmente ao esquecimento
da retidão interior do espírito e da relação pessoal íntima com Deus.
2º-
Alijava das promessas divinas aqueles para quem era impossível a observância
do padrão farisaico, por causa de seus pecados, falhas e imperfeição na obediência
á lei. Deserdava, portanto, as “ovelhas perdidas” da casa de Israel, e, com
isso, tornou-se merecedor da justa condenação da parte de Cristo.
A esperança
messiânica, nutrida tanto pelos fariseus como pelo povo em geral, era fruto da
forte consciência nacional e da fé em Deus. Nos tempos de opressão nacional
ela se tornava ainda mais vigorosa. Tronara-se débil ao tempo do governo dos
primeiros Macabeus, quando uma dinastia temente a Deus trouxera independência
ao povo. A tradição familiar, porém, foi abandonada pelos últimos Macabeus.
Os romanos conquistaram o país em 63 a.C. Do ponto de vista estritamente
judaico, a situação em nada melhorou quando um aventureiro, pelo sangue meio
judeu, Herodes, filho do idumeu Antipáter, governou como rei vassalo do poder
romano, entre 37 a.C. e 4 a.C. O povo considerava-o instrumento dócil nas mãos
dos romanos e, no fundo, um helenizante, apesar dos inegáveis serviços que
prestou á prosperidade material do país e da suntuosa reconstrução do templo
por ele empreendida. Os herodianos eram odiados tanto por fariseus quanto por
saduceus quanto por fariseus. Morto Herodes, seu reino foi dividido entre três
dos seus filhos:
1º- Arquelau
tornou-se “etnarca” da Judeia, Samaria e Iduméia (4 a.C.- 6 d.C.).
2º- Herodes
Antipas, “tetrarca” da Galileia e Peréia (4 a.C.- 39 d.C.).
3º-
Filipe, “tetrarca” da região situada a leste e nordeste do mar da Galiléia,
predominantemente pagã.
Arquelau
suscitou profundas inimizades, foi deposto pelo Imperador Augusto e sucedido por
um procurador romano. O ocupante deste cargo entre 26 e 36 d.C. era Pôncio
Pilatos.
Diante de condições
políticas tão desalentadoramente adversas, parecia que só por intervenção
divina a esperança messiânica poderia concretizar-se.
No tempo de Jesus, tal esperança implicava a destruição da autoridade
romana pela intervenção divina mediante um messias, e o estabelecimento de um
reino de Deus, no qual florescia um judaísmo libertado e poderoso, sob o
governo de um rei messiânico justo de descendência davídica, reino esse para
o qual acorreriam todos os judeus dispersos pelo Império Romano. Seria o início
de uma idade áurea. Para o judeu comum, era provável que isso significasse
simplesmente a expulsão dos romanos, por intervenção divina, e a restauração
do reino de Israel. Era crença comum, baseada em Malaquias 3:1, que a vinda do
Messias seria anunciada por um precursor.
Essas esperanças
eram fomentadas pela literatura apocalíptica, com seu pessimismo em relação
ao presente e sua visão colorida da idade vindoura. Os escritos eram em geral
atribuídos a antepassados notáveis. É o caso, por exemplo, da profecia de
Daniel, incluída no cânone do A .T., no livro de Enoque, da Assunção de Moisés,
e tantos outros. Exemplo cristão desse tipo de literatura, embora prenhe de
conceitos judaicos, é o livro do Apocalipse, incluído no N.T. Tais obras
incutiam uma atitude religiosa de abertura para o futuro e esperança, atitude
essa que deve Ter servido para compensar o legalismo rígido da interpretação
farisaica da lei.
Presentes na
Palestina desse tempo, encontravam-se ainda outras correntes de vida religiosa
cuja penetração é impossível avaliar, mas cuja realidade é evidente.
Distante dos crentes do judaísmo oficial, especialmente nas regiões agrícolas
havia uma piedade mística muito concreta. Era a piedade dos últimos Salmos e
dos “pobres de espírito” do N.T. É bem provável que o Magnificat” e o
‘Benedictus” (Lc.1:46-55; 68-79), tenham sido expressões desse tipo de
religiosidade, também consubstanciada nas assim chamadas Odes de Salomão.
Dessa piedade mais simples, em maior ou menor sentido místico, provinham apelos
proféticos ao arrependimento, dentre os quais os de João Batista são os mais
conhecidos.
A descoberta dos
manuscritos do Mar Morto veio chamar a atenção para essa piedade e para a
existência de uma facção do judaísmo distinta da dos saduceus e fariseus. A
biblioteca e as ruínas do mosteiro da comunidade de Qunran, na margem noroeste
do Mar Morto, revelaram a localização de ima irmandade vinculada de certa
forma aos essênios, a respeito de quem Fílon, Josefo e Plínio, o Velho,
escreveram no primeiro século da nossa erra. É bem provável que muitas outras
comunidades semelhantes a essa tenham existido. Levavam uma vida semimonástica,
protestando contra o judaísmo oficial de Jerusalém. Ás vezes, como no
caso dos essêrnios, renunciavam ao casamento; outras, como Qunran,
permitiam-no. Esses “puritanos” ou “contratantes”, como poderiam ser
chamados, consideravam-se verdadeira congregação de Israel, o remanescente
fiel. Tinham a lei em alta conta e interpretavam-na a seu próprio modo.
Diziam-se especialmente “iluminados”, razão por que se declaravam guardiães
do sentido exato da lei, em meio ás perversões da época. Veneravam um certo
“Mestre de Justiça” (cuja identificação histórica permanece ainda
obscura) como o verdadeiro intérprete da lei. Submetiam-se a purificações
periódicas, observavam um rito anual de adesão e renovação da Aliança, e
partilhavam de uma refeição sagrada de pão e vinho. Quando as regras da
comunidade (preservadas no Manual de Disciplina) eram violadas, exerciam severo
disciplinamento. A piedade nobre, embora um tanto legalista da comunidade, é
evidente nesse documento, e o aspecto mais místico está patente nos Salmos de
Ação de Graças, documentos encontrados nas escavações.
A organização
da comunidade compreendia vários postos:
1º
“superintendente”,
2º
“Sacerdotes de Sadoque”,
3º
“os doze perfeitos” ou “anciãos”, “juizes” e outros. Resta
acrescentar que aguardavam fervorosamente a redenção de Israel.
Criam que um
novo Profeta, um novo Mestre, Sumo-Sacerdote e Rei (personagens missiânicos) se
levantaria para reunira as hostes dispersas de Israel, derrotar seus inimigos e
instaurar a era do Reino.
Tem sido muito
debatida a hipótese da influência desses grupos sobre João Batista e sobre o
cristianismo primitivo. Parece claro, contudo, que havia muitos pontos em comum
e que, embora o N. T. omita qualquer referência a essa corrente sectária do
judaísmo do primeiro século, o cristianismo muito deveu a ela. Não é impossível
que João Batista e alguns dos primeiros discípulos de Jesus tenham pertencido
a uma vez a tais comunidades.
Devemos fazer
referência a uma outra corrente de pensamento no judaísmo dessa época,
especialmente em razão da influência que exerceu sobre o desenvolvimento da
teologia cristã. Referimo-nos á corrente que dava ênfase á “sabedoria”.
Atribuía-se-lhe existência praticamente personificada, como subsistente ao
lado de Deus, unida a Ele, por Ele “possuída” antes da fundação do mundo
e agente seu na criação (Pr.3:19; 8; Sl.33:6). É possível divisar nessas idéias
a influência da noção estóica do Logos divino que tudo penetra. Há nelas
uma conotação mais ética do que a que se nota no ensino grego correspondente.
Vê-se, porém, que seria fácil uma assimilação entre as duas idéias.
É natural que,
ao falar-se no judaísmo, de dê atenção em primeiro lugar á Palestina, seu
lugar de origem e berço do cristianismo. No entanto, grande foi a importância
da dispersão dos judeus fora da Palestina, não só para a vida religiosa do
Império Romano como um todo, mas também para o efeito reflexo que o conseqüente
contato com o pensamento helênico teve sobre o próprio judaísmo. Essa dispersão
começara com as conquistas dos monarcas assírios e babilônicos, e fora
fomentada por muitos governantes, notadamente os Ptolomeus do Egito e os grandes
romanos dos últimos dias da república e do começo do império. Quaisquer
dados estatísticos não passarão de conjeturas, mas é provável que, á época
do nascimento de Jesus, o úmero de judeus fora da palestina fosse cinco ou seis
vezes superior ao dos radicados dentro de suas fronteiras. Constituíam parte
ponderável da população de Alexandria. Haviam criado profundas raízes na Síria
e na Ásia Menor. Embora em número relativamente pequeno, estavam presentes
também em Roma. Eram poucas as cidades do império em que não fizessem notar
sua presença. Olhados com suspeita pelas populações pagãs, dada a tendência
a unir-se em grupos fechados, os judeus prosperavam no comércio, eram
apreciados pelos governantes em virtude de suas boas qualidades, viam em geral
respeitados seus escrúpulos religiosos e, por sua vez, davam mostras de um espírito
missionário que fazia notada sua influência religiosa. Tal como praticado em
terras pagãs, o judaísmo da dispersão era um credo muito mais simples do que
o farisaísmo palestinense. Pregava o Deus único, que tinha revelado sua
vontade nas escrituras sagradas; uma moralidade vigorosa, uma vida futura com
recompensas e castigos e uns poucos mandamentos, relativamente simples,
referentes ao “Sabbath”, á circuncisão e ao usa de carnes. Por onde ia
carregava consigo a sinagoga com seu culto simples e despido de ritualismo.
Exercia grande atração para muitos pagãos. Além dos prosélitos, as
sinagogas reuniam ao seu redor um número muito maior de conversos parcialmente
judaizados, os chamados “devotos”. Foi dentre os deste último grupo que a
propaganda missionária cristã incipiente recrutou os seus primeiros ouvintes.
O judaísmo da
dispersão, por sua vez, sofreu forte influência do helenismo, especialmente da
filosofia grega. Essa influência em nenhum outro lugar foi mais profunda do que
no Egito. Foi na cidade egípcia de Alexandria que o A .T. foi traduzido para o
grego - na versão comumente chamada de “SEPTUAGINTA” - já na época do
reinado de Ptolomeu Filadelfo (285 a .C., - 246). As escrituras judaicas, até
então encerradas numa língua obscura, tornam-se assim, acessíveis a muitos.
Também em Alexandria, as concepções religiosas do A . T. associaram-se aos
conceitos filosóficos gregos, especialmente os platônicos e estóicos, para
formar um sincretismo admirável. O mais importante desses intérpretes
alexandrinos foi Fílon (20? a. C.-42? D C.). Para ele, o A .T. era o mais sábio
dos livros, verdadeira revelação divina, e Moisés, o maior dos mestres.
Mediante a interpretação alegórica, porém, Fílon vê harmonia entre o A .T.
e os melhores elementos do platonismo e estoicismo. Essa convicção teria
tremenda importância para o desenvolvimento da teologia cristã. O método alegórico
de interpretação da Bíblia viria a influir grandemente no futuro estudo cristão
das Escrituras. Segundo Fílon, o Deus único fez o mundo como expressão de sua
bondade para com sua criação. Mas os eles de ligação entre Deus e o mundo são
uma série de poderes divinos, considerados ora como atributos de Deus ora
como seres pessoais. Destes, o mais elevado é o Logos, que emana do próprio
ser de Seus e é o agente, não só através do qual Deus criou o mundo mas,
também, do qual emanam todos os outros poderes. Mediante o Logos, Deus criou o
homem ideal, de quem o homem concreto é uma pálida cópia, produto que é, não
só o Logos, mas também dos poderes espirituais inferiores. Apesar do seu
estada decaído, o homem pode elevar-se á comunhão com Deus através do Logos,
agente da revelação divina. O conceito que Fílon tem Logos, porém, é mais
filosófico do que o de “sabedoria” tal como encontramos no livro de Provérbio,
que , aliás, fazemos menção. E a origem da doutrina neotestamentária do
Logos se encontra na concepção hebraica de “Sabedoria”, e não no
pensamento de Fílon. Não obstante, Fílon é uma ótima ilustração da
maneira em que se poderiam unir idéias helênicas e hebraicas, tal como veio
depois acontecer na evolução da teologia cristã. Em parte algum do mundo
romano o processo representado pelo trabalho de Fílon se desenvolveu com tanta
plenitude quanto em Alexandria.
JESUS E OS DISCÍPULOS
O caminho para
Jesus foi preparado por João Batista, considerado pelos primeiros cristãos o
“precursor” do Messias. De vida ascética, pregou, na região do Jordão,
que o dia do julgamento de Israel estava próximo, que o Messias estava prestes
a chegar. Desprezando todo formalismo religioso e qualquer dependência em relação
á descendência de Abraão, proclamava a mensagem dos antigos profetas:
“arrependei-vos, fazei justiça”. As instruções que dava aos vários tipos
de ouvintes eram simples e radicalmente não-legalistas (Lc.3:2-14; Mt.3:1-12).
Batizava seus discípulos, como sinal da purificação dos seus pecados. (O ato
do batismo talvez simbolizasse submissão ao rio de fogo que se aproximava, pelo
qual Deus haveria de purificar e redimir o mundo). Ensinava-lhes um tipo
especial de oração. João Batista foi descrito por Jesus como o último dos
profetas e um dos maiores entre eles. Embora muitos dos seus seguidores se
tivessem tornado discípulos de Jesus, alguns deles continuaram independentes,
sendo encontrados por Paulo, muito mais tarde, no seu ministério em Éfeso
(At.19:1-14).
Falta-nos
material para compor uma biografia de Jesus comparável á que se poderia
escrever de alguém que tenha vivido os tempos modernos. Os fatos registrados
nos Livros Biográficos são, antes de mais nada, testemunho do divino evento de
Jesus, o Cristo, e seus pormenores foram sem dúvida coloridos pelas experiências
e situações vividas pela Igreja primitiva. Há profunda divisão entre os
estudiosos no que concerne á exatidão de muitos incidentes narrados nos Biográficos.
Nos seus traços essenciais, porém, o caráter e o ensino de Jesus tornaram-se
visíveis nas páginas destes quatro livros. Ele cresceu em Nazaré da Galiléia,
na atmosfera simples de uma casa de carpinteiro. Embora olhada com desprezo
pelos judeus mais puros que
habitavam a Judéia, por causa da considerável mistura de raças que nela
havia, a Galiléia era fiel á religião e ás tradições hebraicas. A população,
vigorosa e altiva, estava imbuída de intensa esperança messiânica. Ali Jesus
chegou á idade adulta, sem que tenhamos um registro das experiências por ele
vividas na infância e mocidade. A julgar, porém, pelo seu ministério
posterior, devem Ter sido anos de profunda penetração espiritual e de “graças
diante de Deus e dos homens”.
A pregação de
João Batista o afastou da vida calma que levava. Por ele foi batizado no Jordão.
Junto com o batismo veio-lhe a convicção de que era designado por Deus para
desempenhar papel específico no reino iminente a ser instaurado pelo Filho do
Homem, personagem celestial que viria nas nuvens do céu. Saber se Jesus se
considerava efetivamente o Messias __ eis um problema muito debatido. Seja como
for, a história da tentação dá a entender a rejeição da idéia de Messias
colocada nos temos das expectativas judaicas populares e a recusa a servir-se de
métodos políticos e egocêntricos. O reino significa o governo por parte de
Deus, iniciado por Ele mesmo, e não inaugurado pela subversão do governo
romano. É o reino dos puros de coração que reconhecem sua pecaminosidade,
arrependem-se e aceitam a exigência radical do amor e as reivindicações do
seu Pai celestial.
Depois do seu
batismo, Jesus imediatamente começou a pregar o reino e a curar os atribulados
na Galiléia, granjeando desde logo grande número de seguidores dentre o povo.
Reuniu ao redor de si um grupo pequeno de companheiros mais íntimos, os apóstolos,
e um outro, maior, de discípulos menos chegados. Não é possível dizer, ao
certo, por quanto tempo se estendeu o seu ministério. É possível que sua duração
tenha sido de um a três anos. A oposição a ele começou a fazer-se sentir tão
logo se tornou evidente a natureza espiritual da sua mensagem e clara a sua
hostilidade ao farisaísmo da época. Muitos dos seus primeiros seguidores se
afastaram. Dirigiu-se então para o norte, na direção de Tiro e Sidom,
e depois para a região da Cesaréia de Filipe, onde os Biográficos
registram o reconhecimento da sua missão messiânica pelos discípulos. Jesus
julgava, porém, que devia pregar em Jerusalém, qualquer que fosse o risco que
isso acarretasse. Munido de coragem heróica, para lá se dirigiu,
defrontando-se com hostilidade crescente. E lá foi preso e crucificado,
provavelmente no ano 29 e comprovadamente sob o governo de Pôncio Pilatos (26
d. C.-36). Seus discípulos de dispersaram, para logo depois reunir-se outra
vez, com redobrada coragem, na alegre convicção de que ele ainda vivia, tendo
ressurgido dentre os mortos. Tal foi, em linhas muito gerais, a história da
vida daquele que mais profundamente influenciou a história da vida daqueles que
mais profundamente influenciou a história do mundo.
No ensino de
Jesus, o reino de Deus subentende o reconhecimento da soberania e paternidade de
Deus. Nós somos filhos seus, razão por que devemos amá-lo e ao nosso próximo
(Mc.12:28-34). Próximo é todo aquele a quem podemos ajudar (Lc.10:25-37). Não
é o que fazemos agora. É preciso, portanto, que nos arrependamos, contristados
pelo nosso pecado, e nos volvamos para Deus. Essa atitude de contrição e
confiança (arrependimento e fé) é acompanhada do perdão de Deus (Lc.15:11-32).
O padrão ético do reino é o mais elevado que se possa conceber. “Portanto,
sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste”. (Mt.5:48) Implica
em atitude absolutamente enérgica em relação ao que eu, (Mc.9:43-50) e ilimitada disposição de perdoar em relação
aos outros (Mt.18:21-22). O perdoar aos outros é
condição necessária para que Deus nos perdoe (Mc.11:25,26). Há dois
caminhos que podemos seguir na vida: um largo e fácil, o outro estreito e árduo,
levando ou a um futuro abençoado, ou á destruição (Mt.7:13,14). A atitude de
Jesus, tal como a de sua época, era fortemente escatológica. Sentia ele que,
embora começasse agora (Mc.4:1-32; Lc.17:21), o reino se manifestaria com poder
muito maior no futuro próximo. O fim da presente época não parecia muito
distante (Mt.10:23; 19:28; 24:34; Mc.13:30).
Não há dúvida
de que muitos desses pronunciamentos e idéias encontram paralelo no pensamento
religioso da época. Seu efeito global, porém, foi revolucionário. “Ele os
ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas” (Mc.1:22). Jesus
podia dizer que o menor dos seus discípulos era maior do que João Batista
(Mt.11:11) e que os céus e a terra passariam, mas não as suas palavras (Mc.13:31).
Chamava a si os cansados e oferecia-lhes alívio (Mt.11:28). Aos que o
confessassem diante dos homens prometia que haveria de confessá-los diante de
seu Pai (Mt.10:32). Declarava que ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele
a quem quisesse revelar (Mt.11:27; Lc.10:30). Proclamava-se senhor do Sábado (Mc.2:23-28)
__ e o Sábado era o que, no pensamento popular, havia de mais sagrado na lei
dada por Deus ao povo judaico. Afirmava que tinha autoridade para pronunciar o
perdão de pecados (Mc.20:1-11). De outro lado, não era menor a clareza com que
sentia sua própria humanidade e limitações. Ele orava e ensinava os discípulos
a orar. Declarava não saber o dia e a hora do fim do presente século, coisas
que só o Pai conhecia (Mc.13:32). Não lhe competia resolver quem, quando de
sua exaltação, havia de sentar-se á sua direita ou á sua esquerda (Mc.10:40).
Orava para que se cumprisse, hão a sua, mas a vontade do Pai (Mc.14:36). E, na
agonia da cruz, clamou: “Deus meu, por que me desamparaste:?” (Mc.15:34).
Está nesses pronunciamentos o mistério da sua pessoa. Sua humanidade é tão
evidente quanto a sua divindade. A explicação de como isto é possível excede
os limites de nossa experiência e, tem-se preocupado sempre com o problema e, não
raro, dado ênfase praticamente a uma das facetas, em detrimento da outra.
Em lugar da
religião de exterioridades, de obras meritórias e de cerimonias, Jesus
apregoou a idéia de que a piedade consiste no amor a Deus e ao próximo __ a um
Deus que é Pai e a um próximo que é irmão __ manifesto principalmente numa
atitude do coração e da vida interior, tendo como fruto os atos externos. A
força propulsora dessa vida é a lealdade ao próprio Jesus como revelação do
Pai, o tipo da humanidade redimida.
O que deu imensa
significação ao que Jesus ensinava e era, foi a convicção dos seus discípulos
de que a sua morte não era o fim, isto é, foi a fé na ressurreição. O como
dessa convicção constitui um dos problemas históricos mais enigmáticos. O
fato de tal convicção é, não obstante, irrefutável. Ao que parece, o
primeiro de quem ela se apossou foi Pedro (1ªCo. 15:5), o qual, ao menos nesse
sentido, foi o apóstolo que se constituiu em “pedra fundamental” da Igreja
Visível. Ela era comum a todos os primeiros discípulos. Foi o ponto decisivo
na conversão de Paulo. Transmitiu coragem aos discípulos dispersos, reuniu-se
de novo e fez deles testemunhas. De agora em diante, eles tinham um senhor
ressurreto, exaltado em glória, e, no entanto, sempre interessado neles. Com um
realismo espiritual muito mais profundo do que o judaísmo jamais imaginara, o
Messias da esperança judaica tinha de fato vivido, morrido novamente, par sua
salvação.
Tais convicções
tornaram-se ainda mais sólidas quando das experiências do dia de Pentecostes.
Talvez seja impossível recuperar a natureza exata da manifestação
pentecostal. É certo que o conceito de que essa experiência significa uma
proclamação do Evangelho em muitas línguas estrangeiras, não é consistente
com o que se sabe do “falar em línguas” em outros lugares (1ª Co.14:2-19),
nem tampouco com a crítica de que os discípulos estavam embriagados (At.2:13),
relatada pelo por Lucas, critica essa
que Pedro se sentiu obrigado a refutar. O importante é que nessas manifestações
“espirituais” se manifestava a prova visível e audível do Dom e do poder
de Cristo (At.2:33) na era apostólica.
Para esses primeiros cristãos, tratava-se do triunfante estabelecimento de uma
relação com o Senhor vivo. A confiança nessa relação condicionou muito do
pensamento da Igreja Apostólica. Se o discípulo __ cria-se __ reconhecesse
visivelmente sua lealdade, mediante a fé, o arrependimento e o batismo, o
Cristo exaltado, por sua vez, reconhecia o discípulo não menos manifestamente,
concedendo-lhe o dom do Espírito. O Pentecostes foi, de fato, um dia do Senhor.
Embora não possa ser designado como o dia do nas cimento da Igreja __ pois que
esta começara com o relacionamento dos discípulos com Jesus __ significou um
marco na proclamação do Evangelho, na convicção que os discípulos tinham da
presença de Cristo e no aumento do número de adesões á nova fé.
AS COMUNIDADES CRISTÃS NA PALESTINA
A comunidade
cristã de Jerusalém parece ter crescido rapidamente. Logo passou a incluir
judeus que tinham vivido na dispersão, tanto quanto naturais da Galiléia e da
Judéia, e mesmo alguns dos sacerdotes hebreus. O nome de “Igreja” foi
adotado pela comunidade cristã muito cedo. O vocábulo significava,
provavelmente, na sua origem, pouco mais do que “reunião”, usado para
marcar a diferença entre a congregação daqueles que aceitavam Jesus como
Messias e os seus coetâneos judeus que não aceitavam. O termo
carregava, porém, conotações advindas do seu uso no A .T. Na Septuaginta,
tinha sido empregado para significar o povo inteiro de Israel considerado como
congregação divinamente convocada. Era, assim, título apropriado para o
verdadeiro Israel, o povo efetivo de Deus __ e como tal os primitivos cristãos
de Jerusalém mantinham-se fiel no freqüentar o templo e na obediência a lei
judaica. Além disso, porém, tinha seus próprios ofícios especiais, com oração,
exortação mútua e “o partir do pão”, diariamente, em casas particulares
(At.2:46). O “partir do pão” servia a um duplo objetivo: era vínculo de
comunhão e meio de sustento para os necessitados. A espera da pronta volta do
Senhor fazia do grupo de cristãos de Jerusalém uma congregação em
expectativa. Em seu seio, o sustento dos menos favorecidos era feito mediante as
ofertas dos mais privilegiados, de sorte que “tinham tudo em comum”
(At.2:44). Mas o “partir do pão” era muito mais do que isso : era uma
continuação e um memorial da Última Ceia do Senhor com seus discípulos,
antes de sua crucificação. Teve, por conseguinte, desde o princípio,
significação sacramental.
A organização
era muito simples. A liderança da congregação de Jerusalém era ocupada, a
princípio, por Pedro e, em menor grau, João. Com estes, o grupo apostólico
inteiro desfrutava de posição de destaque, embora se possa duvidar de que
constituísse uma junta governante plenamente organizada, tal como afirmava a
tradição no tempo em que o livro de Atos foi escrito. Problemas suscitados
pela distribuição de ajuda aos necessitados resultaram na nomeação de uma
comissão de sete (At.6:1-6). Embora essa comissão
seja considerada a origem do diaconato, é mais provável tenha sido o começo
de um sistema de presbíteros para atender ás necessidades locais das igrejas.
Seja como for, ouvem-se desde logo referências aos “presbíteros” (ou
“anciãos”) nas igrejas fundadas por Paulo (At.14:23).
Pode-se quase
afirmar que tal sistema de organização deve algo não só ao Zekenim do judaísmo
__ conselho que governava cada comunidade local, interpretando a lei e
administrando as obras do tipo da de Qumran.
O tipo de
esperança messiânica de que estava impregnada a congregação de Jerusalém
pareceria, á primeira vista, muito mais cru e muito menos espiritual do eu
Jesus tinha ensinado (At.1:6). Era devotadamente leal ao Cristo que haveria de
voltar prontamente, o qual, porém, “é necessário que o céu receba até aos
tempos da restauração de todas as coisas”
(At.3:21). A salvação, dizia-se então, é algo que se obtém mediante o
arrependimento, que inclui contrição não só pelos pecados pessoais mas também
pelo pecado nacional de rejeição de Jesus como Messias. A esse arrependimento
e reconhecimento de lealdade seguia-se o batismo em nome de Cristo, como sinal
de purificação e penhor de uma nova relação, sendo selado com a aprovação
divina mediante a concessão de dons espirituais (At.2:37,38). O fato de os
cristã os pregarem Jesus como verdadeiro Messias e o medo da conseqüente
desconsideração do ritual histórico levaram os judeus helenistas farisaicos
ao ataque, de que resultou a morte
do primeiro mártir cristão, Estevão, apedrejado pela multidão. Conseqüência
imediata foi uma dispersão parcial da congregação de Jerusalém. Foi assim
que a semente do cristianismo começou a ser semeado pela Judéia, Samaria e
mesmo em regiões mais remotas, como Cesaréia, Damasco, Antioquia e a Ilha de
Chipre. Dentre os primeiros apóstolos, o único que se sabe, ao certo, Ter
desenvolvido considerável atividade missionária é Pedro, embora a tradição
atribua a todos eles participação em tal trabalho. É possível que João
tenha colaborado nessa atividade, embora muito pouco se discuta hoje com
respeito á história desse apóstolo.
A paz relativa
desfrutada pela igreja de Jerusalém, logo após o martírio de Estevão, foi
perturbada por uma perseguição muito mais severa instigada, em 44 d.C., por
Herodes Agripa I, o qual desde 41 ate sua morte, em 44, foi rei-vassalo do
antigo território de Herodes, o Grande. Pedro foi preso, mas escapou da morte.
O apóstolo Tiago foi decapitado. O pouco da verdade que se possa provar esteja
implícita, na tradição de que os apóstolos deixaram Jerusalém doze anos após
a crucificação, vincula-se á dispersão que se seguiu a essa perseguição.
Seja como for, parece que, desde então, Pedro só esteve em Jerusalém em
poucas ocasiões. A liderança da Igreja naquele lugar passou a Tiago, o “irmão
do Senhor”, que já antes ocupara lugar proeminente (Gl.1:19; 2:9; At.21:18).
Esse cargo, por ele ocupado até seu martírio, aproximadamente em 63, tem sido
não raro chamado de “episcopado”. Não há dúvida de que correspondia, em
muitos sentidos, ao episcopado monárquico das igrejas gentílicas. Não
obstante, não há provas de que o título de “bispo” tenha sido aplicado a
Tiago durante sua vida. Se levar em conta as sucessões de líderes religiosos
entre os povos semitas, especialmente a importância atribuída ao
parentesco em o fundador, ver-se-á que o caso em tela assemelha-se mais
a um califato rudimentar. Tal interpretação se torna ainda mais provável,
diante do fato de que o sucessor de Tiago no lugar de líder da igreja de
Jerusalém foi Simeão, tido na conta de parente de Jesus, embora escolhido após
a conquista da cidade por Tito, em 70.
Sob a liderança
de Tiago, a Igreja em Jerusalém compreendia dois partidos, ambos acordes em que
a antiga lei de Israel ainda se aplicava aos cristãos de raça judaica, mas
diferindo no que concernia á aplicabilidade da lei aos cristãos conversos do
paganismo. Uma das alas afirmava que a lei se aplicava a todos. A outra, de que
Tiago era representante, dispunha-se a conceder
aos cristãos gentios liberdade em relação á lei, embora não olhasse com
bons olhos a mistura de judeus e gentios á mesa comum, tal como Pedro, ao menos
durante certo tempo, estava inclinando a admitir (Gl.2:12-16). A catástrofe que
pós fim á rebelião judaica, no ano 70, foi fatal, no entanto, para toda s as
comunidades cristãs da Palestina, embora a de Jerusalém, fugindo para Pela,
tivesse evitado os perigos. O cristianismo palestinense ficou reduzido a um frágil
remanescente depois do aniquilamento, ainda maior, infligido por Adriano ás
esperanças judaicas, na guerra de 132 a 135. Mesmo antes da primeira captura da
cidade, era em outras localidades do império que se encontravam os focos de
influência cristã mais pronunciada. Mais do que por sua influência, através
de liderança direta e permanente, sobre o desenvolvimento do cristianismo como
um todo, a igreja de Jerusalém e as comunidades palestinenses a ela associadas
foram importantes, por terem sido os mananciais
de onde começou a fluir o cristianismo e as preservadoras de tantas
tradições a respeito da vida e das palavras de Jesus, que de outra forma
se perderiam.
PAULO E O CRISTIANISMO GENTÍLICO
A perseguição
que deu causa ao martírio de Estevão, como dissemos, teve também
como conseqüência o fato de o cristianismo ter
sido levado para além das fronteiras da Palestina. Missionários cujos
nomes ficaram esquecidos pregavam Cristo aos seus irmãos de raça judaica. Em
Antioquia um fato novo nessa pregação viria a acontecer. Capital da Síria,
Antioquia era cidade de grande importância, notavelmente cosmopolita,
verdadeira encruzilhada em que se encontravam gregos, sírios e judeus. Ali a
nova fé foi pregada aos gregos. E o resultado de tal pregação constituiu no
fato de o Evangelho começar a espalhar-se entre homens de cepa gentílica. Começaram
a ser apelidados de “Cristãos”, pelo populacho. Só por volta do século II
é que os próprios seguidores de Jesus começaram a aplicar essa designação a
si mesmos, embora ela já antes se tivesse tornado popular entre os pagãos.
Antioquia não ficou sendo o ponto final do esforço de expansão dos cristãos.
No ano 51 ou 52, na própria cidade de Roma, a atenção do governo, dirigido
por Cláudio, foi suscitada por alguns tumultos havidos entre os judeus da
cidade, como conseqüência da pregação feita por missionários cristãos
desconhecidos. Neste primeiro período, porém, Antioquia foi o centro da expansão.
A conversão de homens de antecedentes pagãos viria levantar inevitavelmente o
problema da relação entre esses discípulos e a lei judaica. Se impusesse aos
gentios a observância da lei, o cristianismo não passaria de seita judaica.
Isentassem-se os gentios dela, o cristianismo poderia tornar-se religião
universal, mas a expensas, em muito, da simpatia judaica. Mas do que a qualquer
outro, cabe ao apóstolo Paulo o mérito
de Ter feito com que esse dilema fosse resolvido em favor da doutrina mais
“liberal”.
Paulo, cujo nome
hebraico - Saulo - lembra o herói da tribo de Benjamim, de que era membro,
nasceu na cidade de Tarso, na Cilícia, de descendência farisaica. Seu pai, porém,
tinha cidadania romana. Tarso era cidade eminente do ponto de vista cultural e,
ao tempo do nascimento do apóstolo, era um centro de ensino estóico. Educado
num severo lar judaico, não há razão para crer que Paulo tivesse alguma vez
recebido educação helênica formal. Nunca chegou a ser um helenizante, do tipo
de Fílon de Alexandria. Numa cidade como Tarso, no entanto, um jovem
inteligente jamais poderia deixar de absorver muitas idéias helências e
familiarizar-se, ao menos até certo ponto, com a atmosfera política e
religiosa do mundo que se espraiava além dos limites do seu lar de judeu
ortodoxo. Foi, contudo, em contato com a tradição rabínica que ele se educou
e, em idade agora desconhecida, como futuro escriba, foi estudar sob a orientação
do famoso Gamaliel, o velho, em Jerusalém. Nos é impossível averiguar até
que ponto Paulo chegou a conhecer o ministério de Jesus por meios outros que não
os de relatos de Segunda mão. Era extremado na sua devoção ao conceito
farisaico de uma nação santificada mediante a observância minuciosa da lei
judaica. Julgada por tal padrão, sua conduta era “sem dolo”. Homem de
profunda percepção espiritual, porém, mesmo enquanto fariseu veio a sentir
profunda insatisfação interior com as conquistas
do seu próprio caráter. A lei não era bastante para dar um sentido de
retidão interior efetiva. Era esse o seu estado de espírito ao entrar em
contato com o cristianismo. Se Jesus não era verdadeiro Messias, era justo que
tivesse sofrido, era justo que seus discípulos fossem perseguidos. Pudesse ele
convencer-se de que Jesus era o escolhido de Deus, este passaria a ser para
Paulo objeto de lealdade absoluta. Por intervenção divina, estaria então
ab-rogada a lei __ e fora por opor-se á interpretação farisaica dessa lei (a
única interpretação que Paulo
aceitava), que Jesus morrera.
As datas
referentes á vida de Paulo não passam de conjeturas. É possível que a grande
transformação de sua vida tenha ocorrido por volta do ano 35. Viajando par
Damasco, em missão de perseguição, Paulo teve uma visão em que contemplou a
Jesus exaltado, o qual o convocava para o seu serviço. Não iremos além de
suposições se tentarmos decifrar qual tenha sido a natureza dessa experiência.
Mas, para Paulo, não havia dúvidas quanto á sua realidade e ao seu poder
transformador. Não só se convenceu, desde então, de que Jesus era tudo o que
dele dizia o cristianismo, mas, também, passou a sentir tal devoção pessoal
por seu Mestre, que implicava em nada menos do que uma união espiritual. Dizia
ele: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl.2:20). Fora-se
o antigo legalismo, e com ele o conceito do valor da lei. Para Paulo, de ora em
diante, as nova vida consistia em serviço consagrado ao Senhor exaltado, que
era também o Cristo presente no seu íntimo. Sentia-se preso de grande
intimidade com o Cristo ressurreto. Deus, o homem, o pecado e o mundo eram agora
banhados e nova luz. Seu maior desejo era fazer a vontade de Cristo. Era seu
tudo o que Cristo tinha conquistado. “Se alguém está em Cristo, é nova
criatura: as coisas antigas já passara; eis que se fizeram novas” (2ª
Co.5:17).