
Por David Wilkerson
em torno de 1979
A coisa mais difícil
do mundo para o cristão é perdoar. Considerando tudo que se fala na igreja
sobre perdão, restituição, e cura, há muito pouco disto verdadeiramente
demonstrado. Sempre gostamos de considerarmo-nos pacificadores, ajudadores dos
caídos, e que sempre perdoamos e esquecemos. Mas até os mais profundamente
espirituais de nossos dias são culpados por ferir irmãos e irmãs, por não
mostrarem espírito de perdão.
Até
o melhor dos cristãos acha difícil perdoar os que ferem seu orgulho. Deixe que
dois bons amigos cristãos tenham um “desentendimento”, e haverá rancor por
toda a vida. Eles raramente o admitem, pois cobrem a ausência de espírito
perdoador com uma fachada de telefonemas de cortesia, palavras bonitas, e um
convite do tipo “apareçam aqui qualquer hora.” Mas nunca é a mesma coisa.
Na verdade não passamos a odiar o outro; é como se disséssemos: “Não tenho
nada contra ele, mas vamos deixá-lo para lá. Ele fica na dele, e eu fico na
minha.” Simplesmente ignoramos as pessoas que não perdoamos.
A
pessoa mais difícil de se perdoar é o ingrato. Você amou alguém sem ser
amado.Você se sacrificou para ajudar um amigo que precisava, acabou sendo
criticado, e acharam que era sua obrigação. Você sai de sua rotina para
ajudar alguém, e ela só lhe dá ingratidão em troca. As suas boas intenções
são mal interpretadas, e o que você fez acham que foi por egoísmo. Você não
acredita, e diz: “Como podem falar isso, depois de tudo que fiz por eles? É
isso que eu ganho por ter um coração grande?” Alguma vez perdoamos este
ingrato? Dificilmente. Sorrimos para ele, cumprimentamos à distância, mas
resolvemos “nunca mais mexer uma palha por ele.”
Achamos
praticamente impossível perdoar quem nos engana. Estamos muito interessados em
sermos perdoados por nossas mentiras e erros, mas nada nos ofende mais do que
descobrir que alguém mentiu para nós. Isso é considerado quebra de confiança.
Perdemos o respeito por essa pessoa com tanta rapidez. Se realmente perdoamos,
é sempre assim: “Dessa vez lhe perdôo; mas se mais uma vez mentir para mim,
acabou.”
Não
conseguimos perdoar os que nos dizem que estamos errados. Convencidos de termos
uma boa razão para tudo que fazemos, consideramos quase impossível perdoar a
pessoa que sugere tenhamos errado. Em vez de olharmos com honestidade o que a
pessoa está nos dizendo, nos envolvemos numa longa explicação, justificando
nossos atos. Quanto mais próximos da verdade estiverem os nossos críticos,
mais difícil lhes perdoar por trazerem isso ao nosso conhecimento.
Uma
caixa de banco me deu dez dólares a mais. Eu sorri, devolvi os dez dólares, e
disse: “Jovem, você cometeu um pequeno engano. Você me deu dez dólares a
mais.” Ela explodiu; ficou vermelha de raiva e respondeu: “Você vai querer
o quê? Uma medalha de honestidade? Todo mundo erra.” É bem assim que somos,
em nossa maioria. Não gostamos que nos lembrem de nossos erros, e os que o
fazem, mesmo com amor, recebem um frio sacolejar de ombros, em vez de obrigado.
A
maioria dos cristãos não sabe o mínimo sobre como receber as críticas -
especialmente críticas impressas, ou escritas. Uma carta crítica aciona todos
os tipos de raiva. A gente se senta, pega uma caneta, e ponto a ponto, vamos
retaliando como um urso ferido. A caneta navega em um rio de tinta venenosa.
Queremos deixar a coisa clara. Ninguém vai falar mal de nós, e não seremos
mal compreendidos. Estamos prontos para defender, a qualquer preço, a honra e
nossa honestidade. Que obras primas de defesa escrevemos! O orgulho ferido nos
deixa muito eloqüentes para provar nossos pontos.
Mesmo
aqueles de nós que aprendem a nunca responder aos críticos, e a colocar toda
crítica no cesto de lixo, acham difícil honestamente perdoá-los. Na verdade,
a gente está dizendo: “Eu não vou responder, mas um dia Deus vai lhe pegar
por causa disto! Um dia você paga!” Em vez de perdoar e esquecer, deixamos o
rancor ficar queimando por meses e até anos, só esperando a hora de enfrentar
o crítico cara a cara e lhe “dizer uma boas.”
Acredite
ou não, precisamos aprender a perdoar a Deus primeiro. Deus nunca pecou contra
alguém, mas isto não nos impede de guardarmos um rancor sutil contra Ele.
Muitas vezes vamos a Ele em oração, e alguma coisa fica atrapalhando lá
dentro, por Ele não ter feito o que achávamos que deveria.
Uma
adolescente me confessou: “Dois anos atrás minha mãe e meu pai foram mortos
em um desastre de carro. Os dois eram ministros, e eram os pais melhores e mais
piedosos que uma adolescente poderia ter. Durante os últimos dois anos, desde o
dia do funeral, tenho guardado esse pequeno rancor contra o Senhor. Me pergunto
como Ele poderia permitir que fossem mortos de um jeito tão violento. Deus não
protege os Seus? Não consigo mais orar com confiança real em Jesus, porque
carrego a idéia de que Ele me desapontou. O que posso fazer? Acho que dá para
dizer que estou com raiva do Senhor.”
Um
jovem casal que conheço, e que mora em um estado do sul, tem carregado amargura
contra o Senhor por quase dez anos. Sua linda filha de cinco anos faleceu pouco
após ser atacada por um tumor cerebral. Eles ficaram amargurados. Não pararam
de freqüentar a igreja; continuaram com toda a rotina. Mas cessaram de crer na
eficiência da oração. Temem negar a importância do Senhor; temem chamar-Lhe
de mentiroso ou de Pai infiel. Mas não há dúvida quanto ao rancor arraigado
contra Deus. Nunca perdoaram o Senhor por “ter levado sua única filha.”
Encontro
este sutil espírito de não perdão a Cristo por todo lugar que vá. Uma jovem
senhora ao norte do país pergunta: “Como vou conseguir orar de novo com fé?
Vivo tão só, e preciso de um marido cristão. Comecei reivindicando todas as
promessas da Bíblia. Exercitei a fé, jejuei, chorei. Sei que minha vida é de
agrado do Senhor. Mas tudo ruiu: quando finalmente encontrei um bom jovem, e
achei que seria aquele enviado por Deus, ele me deixou e se foi. Agora nem fala
mais comigo. Será que Deus realmente responde as orações? O que preciso fazer
para ter uma resposta? Não quero pôr a culpa em Deus, mas por que permitiu que
eu sofresse? Por que tenho de viver só, quando tudo que quero é dar o meu amor
a alguém?”
Quase
todo cristão em alguma época da vida teve de enfrentar esse problema: uma oração
que fica sem resposta por semanas e meses - até anos; uma doença inesperada,
ou uma tragédia que leva um ente querido. Coisas acontecem sem explicação. E
aí a fé começa a vacilar. Mas a Palavra deixa muito claro que aquele que
vacila nunca receberá coisa alguma de Deus.
Jesus
entendeu a tendência que Seus filhos têm de guardar rancor contra os céus,
quando as montanhas não se movem segundo o programado. Ele previne Pedro a não
pedir nada na presença de Deus, a menos que estivesse perdoando.
“E
quando estiverdes orando, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai, para
que o vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe as vossas ofensas” (Marcos
11:25).
Creio
que Jesus está dizendo: “Não vá à presença de Deus pedindo que os montes
se movam, ou que seus pecados sejam perdoados, se você tiver ressentimento
secreto no coração contra os céus. Tire isso! Permita que o Espírito de perdão
flua através de você. Clame - Deus é fiel! Ele não lhe desapontou! Ele vai
responder! Submita-se, e peça que Ele lhe perdoe por permitir que tais dúvidas
tenham surgido.”