
Por
David Wilkerson
19 de maio de 2003
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Em Mateus 18, Jesus usa uma parábola para ensinar aos discípulos
como é o reino dos céus. Como em muitas das parábolas, tudo no relato se
relaciona a Cristo e Sua igreja.
Jesus começa descrevendo um rei que chama seus servos para
prestarem contas. As escrituras registram: "E (o rei), passando a fazê-lo,
trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos" (Mateus 18:24). Cá estava
um servo com uma tremenda dívida. Ele devia ao rei o equivalente a centenas de
milhões de dólares, quantia que nunca poderia pagar.
Jesus não conta como esse homem caiu numa dívida tão incrível.
Algumas versões da parábola dizem que ele era um escravo, e que a dívida era
um empréstimo não pago. Contudo, tudo que sabemos do evangelho de Mateus é
que ele teve acesso a grandes recursos, e os esbanjara.
Quero mostrar duas coisas importantes relacionadas a esta parábola.
Primeiro, os servos representam crentes, os que trabalham no reino de Deus;
assim o servo endividado aqui não era estranho ao trabalho do rei. Segundo,
descobrimos mais adiante (em Mateus 25) que o propósito de Deus ao dar talentos
ao Seu povo é produzir frutos. Todos os que recebem talentos do Pai são
ordenados a investi-los. Deus não dá talentos simplesmente de modo
indiscriminado. Ele espera colher fruto dos investimentos que faz no Seu povo.
Evidentemente, o rei em Mateus 18 estava tratando com servos
que haviam sido denunciados por haverem cometido crimes. E o servo com grande dívida
foi um dos primeiros ofensores a serem levados até ele. Esse servo
provavelmente era um homem muito talentoso, do qual muito se esperava. (Caso
contrário, não teria tido acesso a tudo que esbanjou.) Porém quando foi
chamado a prestar contas, viu-se que ele não tinha "porém, com que
pagar" (Mateus 18:25). Então "ordenou o senhor que fosse vendido ele,
a mulher, os filhos e tudo quanto possuía e que a dívida fosse paga"
(18:25).
Esse homem não tinha nada de valor que pudesse usar para seu
débito criminal; não tinha dinheiro, bens, nada de mérito a oferecer. Então,
o quê fez? Ele "prostrando-se reverente rogou: Sê paciente comigo, e tudo
te pagarei" (18:26).
É importante saber o significado de "reverente"
aqui. Em grego quer dizer "bajulando ou curvando-se servilmente; beijando
como o cão lambendo as mãos do dono". Esse homem não estava ajoelhado se
arrependendo; ele estava bajulando, tentando adular o senhor; não estava
pedindo perdão ao rei, mas paciência. Ele queria outra chance, rogando:
"Me dê um pouco de tempo. Posso compensar pelo meu pecado, e satisfazer
todas as suas exigências".
A verdade é: não havia possibilidade de o servo pagar pelo
crime. Ele jamais iria conseguir o necessário para repor os fundos que havia
usado mal, ou esbanjado. Eu assemelho a atitude dele à do cristão que é pego
em adultério. Quando o seu pecado é mostrado, a primeira reação é a de uma
dor falsa, bajuladora. Ele chora: "Ó Deus, não deixe que eu perca o meu
casamento, a minha família. Não acabe com a minha carreira; não me leve à
falência. Tenha paciência comigo. Preciso só de mais uma oportunidade".
Aí ele suplica ao cônjuge: "Por favor, me dê apenas uma chance".
Porém em realidade, esse homem nunca poderá compensar pelo que fez. É
simplesmente impossível.
O Servo da Parábola Foi Perdoado da Grande Dívida
Baseado Unicamente na Compaixão e na Misericórdia
Jesus continua a parábola: "E o senhor daquele servo, compadecendo-se, mandou-o embora e perdoou-lhe a dívida" (Mat. 18:27). Por que o rei iria se compadecer por um bajulador? O servo não estava arrependido. Em verdade, não tinha noção da extensão de sua pecaminosidade. Descobrimos isso mais adiante na parábola, quando se revela que o coração dele é duro e sem compaixão.
Esse homem era um ator, sem intenção de mudar. E certamente
o rei discerniu isso; afinal, ele aqui representa o próprio Cristo. Ele tinha
de saber que o servo estava tentando trabalhar com as emoções, provocar dó.
No entanto, a despeito disso, o rei se compadeceu dele. Por que? Não foi por
causa das lágrimas falsas. E não foi porque o servo suplicou por paciência e
mais tempo. Não, o rei se compadeceu por causa da terrível enfermidade que
grassava no coração e na mente daquele homem.
Veja, só um terrível delírio poderia levar este servo a
acreditar que poderia realmente pagar a dívida ao senhor. A atitude dele
refletiu o quão insignificante ele achava ter sido o seu pecado. Para ele, era
apenas um pequeno engano que precisava de tempo para ser resolvido; estava
convencido de que se trabalhasse o suficiente, poderia usar suas habilidades
para equilibrar os balanços financeiros. Mas o rei entendia de outra forma:
nenhuma quantidade de mérito ou de força de vontade poderia resolver o enorme
débito no qual esse homem havia incorrido.
Você está entendendo a mensagem? Segundo Jesus, não estamos
realmente arrependidos enquanto não nos conscientizarmos da impossibilidade de
nós mesmos realizarmos a expiação de nossos próprios pecados. Jamais
poderemos reembolsar ou restituir a Deus por nossas transgressões - seja pela
oração, consagração ou boas intenções. A Nova Aliança deixa isso claro.
No Velho Testamento, o adultério foi declarado como pecado a ser punido
severamente. Contudo Jesus viu o pecado do adultério de modo ainda mais sério.
Ele diz que se uma pessoa sequer olhar à outra com cobiça, já cometeu adultério.
Em resumo, sob a Nova Aliança, as exigências de Deus quanto à santidade se
tornam maiores.
Ora, o rei na parábola de Jesus sabia o quanto eram graves as
conseqüências dos pecados do servo. E podia ver que se entregasse aquele homem
a tais conseqüências, este estaria perdido para sempre. Afinal, tal homem já
estava cego aos horrores do seu pecado. E se não fosse perdoado, se tornaria
ainda mais endurecido. Iria se aprofundar progressivamente na desesperança, se
tornando mais duro para o resto da vida. Então o rei decidiu perdoá-lo. Ele
declarou o homem livre e limpo, liberando-o de qualquer dívida.
Quero dizer uma breve palavra aqui sobre arrependimento. Esse
conceito é geralmente definido como uma "conversão". Fala de uma
meia-volta, de um retorno de 180 graus do caminhar de uma pessoa. Diz-se também
que o arrependimento é acompanhado por uma dor piedosa.
Porém, mais uma vez, a Nova Aliança torna um conceito do
Velho Testamento ainda mais amplo. Arrependimento é muito mais do que meramente
se afastar dos pecados da carne. Ele envolve mais do que a dor pelo passado, e a
tristeza por haver entristecido ao Senhor. De acordo com a parábola de Jesus,
arrependimento se relaciona ao afastamento da doença mental que nos permite
achar podermos, de algum modo, compensar pelos nossos pecados.
Essa doença afeta milhões de crentes. Toda vez que esses
cristãos caem em pecado, eles pensam: "Posso acertas as coisas com Deus.
Vou trazer-Lhe lágrimas sinceras, mais oração séria, mais leitura da Bíblia.
Resolvi que vou compensá-Lo pelo que fiz". Mas isso é impossível. Esse
tipo de raciocínio leva à seguinte posição: desespero profundo. Essas
pessoas ficam para sempre lutando e sempre caindo. E acabam se estabilizando em
uma falsa paz. Elas possuem uma falsa santificação feita por elas mesmas,
convencendo-se a si próprias de uma mentira.
É por isso que Jesus nos deu essa parábola. Ele está
exibindo a nós o exemplo de um homem de confiança e de talentos, que de
repente se revela o maior dos devedores. Eis alguém sem méritos, cheio de
motivações erradas, indigno de qualquer compaixão. Contudo o senhor o perdoa
graciosamente - assim como Jesus fez com você e comigo.
Diga-me, o quê salvou você? Foram as suas lágrimas, e suas
sinceras súplicas? A profunda dor por entristecer a Deus? Sua sincera decisão
de sair do pecado? Não, não foi nenhuma destas coisas. Foi somente a graça
que o salvou. E como o servo na parábola, você não a mereceu. O fato é que
você ainda não é digno dela, não importa o quão piedoso seja o seu
caminhar.
Eis uma definição simples para arrependimento real. Quer
dizer: "Deixo de lado, de uma vez por todas, qualquer idéia de que eu
possa algum dia restituir a Deus pelo que devo. Jamais poderei fazer algo para
conseguir de Sua boa graça. Logo, nenhum esforço ou boa obra de minha parte
pode pagar pelo meu pecado. Eu simplesmente tenho de aceitar a Sua misericórdia.
É o único caminho para a salvação e a liberdade".
Ao Ser Perdoado Unicamente pela Graça,
O Servo Recebeu uma Grande Responsabilidade
O rei subestimou o pecado do servo? Ele fez vista grossa à dívida dele, e simplesmente a desculpou? Não, em absoluto. O fato é o seguinte: ao perdoá-lo, o rei pôs sobre este homem uma pesada responsabilidade. E essa responsabilidade foi ainda maior que o peso da dívida. Em verdade, o servo agora devia ao senhor mais do que nunca. Como? Ele seria responsável para perdoar e amar os outros, assim como o rei havia feito com ele.
Que tremenda responsabilidade é essa. E ela não pode ser
separada de outros ensinamentos de Cristo sobre o reino. Afinal, Jesus disse:
"Se... não perdoardes aos homens [as suas ofensas], tampouco vosso Pai vos
perdoará as vossas ofensas" (Mat. 6:15). O ponto é claro: "Se você
não perdoar os outros, não o perdoarei". Essa palavra não é opcional,
é uma ordem. Jesus está nos dizendo basicamente: "Fui paciente contigo;
te tratei com amor e misericórdia. E o perdoei unicamente por minha bondade e
misericórdia. Igualmente, você deve ser amoroso e misericordioso com seus irmãos
e irmãs. Você deve perdoá-los graciosamente, exatamente como te perdoei. Você
deve ir para o seu lar, sua igreja, seu trabalho, às ruas, e mostrar para todos
a graça e o amor que lhe mostrei".
Paulo se refere à ordem de Jesus, dizendo: "Assim como o
Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós" (Colossenses 3:13). Ele então
expõe como prosseguir na obediência a essa ordem: "Revesti-vos, pois,
como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de
bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade. Suportai-vos uns aos
outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra
outrem... acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição"
(3:12-14).
Então, o que quer dizer suportar? Em grego significa:
"tolerar". Isso sugere suportar coisas que não gostamos. É nos dito
que devemos tolerar os defeitos dos outros, agüentar modos que não entendemos.
Então, como o servo perdoado respondeu à graça e ao perdão
do senhor? A primeira coisa que fez foi atacar outro servo que lhe devia
dinheiro. Ele agarrou o homem, prendeu-o pelo pescoço, e exigiu ser pago
imediatamente. É incrível - a quantia era uma ninharia, menos que a paga de três
dias de trabalho. Mesmo assim o servo ameaçou o devedor, gritando "Quero o
pagamento já!". O homem nada tinha, então se prostrou, suplicando paciência.
Mas o servo responde: "O seu tempo acabou".
Digo-lhe o seguinte: esse é um dos pecados mais abomináveis
da Bíblia. Primeiro, é perpetrado por um servo de Deus. Diga-me, que tipo de
pessoa iria agir assim tão sem piedade? Que coração poderia ser tão ingrato,
tão desprovido de um pingo da misericórdia que lhe havia sido mostrada?
Está nos sendo dado um vislumbre das trevas que, o tempo
todo, estavam no coração deste servo. Em Romanos 2, Paulo descreve essas
trevas: "Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas, quem quer
que sejas; porque, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas
as próprias cousas que condenas...Tu, ó homem, que condenas os que praticam
tais cousas e fazes as mesmas, pensas que te livrarás do juízo de Deus? Ou
desprezas a riqueza da sua bondade, a tolerância, e longanimidade, ignorando
que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?" (Romanos 2:1,
3-4).
O que Paulo quer dizer quando diz que tal pessoa despreza a
riqueza da bondade de Cristo? A palavra "despreza" aqui significa:
"Ela não acha ser possível". Em outras palavras, esse crente diz:
"Tamanha graça e misericórdia são impossíveis. Não dá para se
aprofundar nisso". Tal não se ajusta à teologia dele. Então, ao invés
de aceitar essa riqueza, dispõe sua mente contra ela.
Por que o servo ingrato não pôde aceitar a graça do rei? Há
uma razão: ele não levou a sério a enormidade do seu pecado. Ele estava muito
resolvido, convencido de que poderia sobrepujar o seu débito. Porém o rei já
havia dito: "Você está livre. Inexiste mais culpa, cobranças, liberdade
condicional ou cumprimento de tarefas. Daqui para frente, você só precisa se
concentrar na bondade e na tolerância as quais lhe mostrei".
Tragicamente, uma pessoa que não aceita amor não é capaz de
amar outra. Antes, se torna condenatória quanto aos outros. É isso que
aconteceu com esse servo. Ele não conseguiu atinar com a misericórdia do rei
por ele. Veja, a tolerância e o perdão imerecido da parte de Deus têm um único
objetivo: nos levar ao arrependimento. Paulo diz: ignoras "que a
benignidade de Deus te leva ao arrependimento?" (Rom. 2:4). Paulo sabia
disso por experiência própria, tendo se declarado o maior de todos os
pecadores.
Está claro a partir da parábola que essa é a razão de o
senhor perdoar o servo. Ele queria que esse homem, o qual fora digno de confiança,
se afastasse de suas obras na carne para repousar na incrível bondade do rei.
Este repouso iria lhe liberar, por sua vez, para amar e perdoar os outros. Mas
em vez de se arrepender, o servo foi embora duvidando da bondade do senhor. Ele
não conseguia tirar da cabeça a idéia de que o rei poderia mudar de opinião.
Então, resolveu ter um plano de contingência. E, desprezando as misericórdias
do rei, tratou os demais com atitude condenatória.
Dá para você imaginar a torturada mente dessa pessoa? Este
homem deixou uma situação de perdão, onde experimentou a bondade e a graça
do senhor, e ao invés de se alegrar, desprezou a idéia de uma liberdade tão
farta. Digo-lhe o seguinte: todo crente que acha que a bondade de Deus é impossível,
se abre a qualquer mentira de Satanás. Sua alma não descansa; a mente se agita
o tempo todo. E ele fica continuamente com medo do juízo.
Fico imaginando: quantos cristãos vivem hoje essa existência
torturante? Será por isso que há tanta contenda, tantas divisões no corpo de
Cristo? É por isso que tantos ministros estão em divergências, que tantas
denominações se recusam a ter comunhão com as outras?
O espírito de julgamento dentro da igreja é muito pior do
que qualquer julgamento que ocorra no mundo. E isso é um tapa na frase de
Jesus: "Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor
uns aos outros" (João 13:35). Eu lhe pergunto: há alguma possibilidade de
o mundo reconhecer o povo de Deus por esse padrão? Será que os não-crentes
dizem: "Essas pessoas realmente são discípulas dEle. Eu nunca as vejo
brigando. Elas realmente se amam" ?
Tenho ficado totalmente chocado com as profundas divisões que
tenho testemunhado na igreja. Vi isso pessoalmente em uma conferência de
pastores num país estrangeiro. Quando cheguei, vários ministros proeminentes
me avisaram: "Não coopere com o Reverendo Fulano. Ele tem toda aquela
coisa esquisita de adoração, e todo tipo de bobagem carismática. Acho que você
não deve dar a ele nenhuma função importante nos cultos". Até os
companheiros pentecostais desse homem me disseram para evitá-lo.
Mas quando encontrei o pastor e o conheci, eu vi Cristo nele.
Uma ocasião alguém me cochichou: "Este homem é um dos maiores homens de
oração do país; ele passa dois dias inteiros por semana só orando". Em
verdade, achei o pastor bondoso, gentil e amoroso - exatamente os frutos que
Jesus disse que todos devemos ter.
Ao pregar, convidei esse ministro ao púlpito comigo, junto
com outros. Isso ofendeu a muitos, e depois vários pastores zombaram de mim. A
única coisa que eu podia pensar foi: "Esses homens sabem o quê quer dizer
ser perdoado de uma grande dívida. Contudo, entre todos, tais líderes da
igreja de Deus se recusam a tolerar um colega pastor a quem nem conhecem".
Em uma outra conferência, testemunhei várias denominações
cooperando alegremente. Havia um maravilhoso senso de unidade entre batistas,
pentecostais, luteranos e episcopais. A cada noite, o líder de uma denominação
diferente dirigia a reunião. Uma noite, um bispo pentecostal fez a abertura do
culto; foi seguido por um grupo pentecostal de louvor. Os jovens do grupo
estavam cheios de alegria, batendo palmas ao dirigir a jubilosa adoração. Mais
tarde soube que alguns deles haviam sido libertos do vício das drogas, e
estavam gratos simplesmente por poderem estar presentes.
Mas quando olhei para o bispo, o seu rosto estava ficando
vermelho. Ele estava fechando a cara e começando a ferver. Entendi então que a
sua denominação não acreditava em adoração impetuosa. E eu havia aderido
livremente. Depois do culto, o bispo veio com passos largos até mim e declarou:
"Aquilo foi uma vergonha, totalmente da carne. Como você permitiu isso?
Vou deixar a conferência, e estou levando todos os 200 pastores comigo".
Eu fiquei estarrecido, sem fala. Eu tinha passado semanas ajoelhado em oração,
preparando-me para essas reuniões. Mas agora me perguntava o quê havia feito
de errado. A verdade é que eu estava sendo sufocado pela raiva daquele homem.
Era como a cena da parábola: ele havia me pegado pela garganta, e me fazia
cobranças com raiva. Felizmente, o bispo mudou seu coração e não abandonou a
conferência. Mas o quê possuiria de tal modo um ministro de Deus, a ponto de
se recusar a tolerar um
companheiro servo de Cristo? Não houve paciência, nem misericórdia, nem amor
por outros possuidores de igual preciosa fé.
Durante anos, o bispo de uma certa denominação me convidou
ao seu país para dirigir reuniões. Ele dizia: "Esse país precisa ouvir o
quê Deus tem lhe falado". Finalmente, o Senhor me liberou para ir, mas só
sob a condição de todas as denominações terem permissão de tomar parte nos
cultos. Quando o bispo ouviu isso, se recusou a participar. E proibiu todos os
seus ministros de comparecerem. Eles tinham se separado das outras denominações
há anos. Um associado deste bispo me ligou explodindo, e disse "Que
vergonha! Como um homem de Deus pode cooperar com essa gente?".
Quem, exatamente, eram as pessoas de quem ele estava falando?
Como descobri, eram: um bispo luterano que estava pleno de Jesus...um grupo de
humildes bispos pentecostais...e um bispo batista que ficara preso sob o
comunismo, onde havia lido uma versão copiada à mão do meu livro, A Cruz e o
Punhal. Todos estes líderes estavam ansiosos para adorarem juntos, como um em
Cristo. Você poderia imaginar qualquer outro líder cristão se recusando a ter
comunhão com um grupo destes?
O que há por trás desta rivalidade condenatória? Por que
servos de Deus, a quem tanto foi perdoado pessoalmente, tratam mal seus irmãos
e se recusam a ter comunhão com eles? Remontando às origens chega-se ao mais
doloroso dos pecados: desprezo pela bondade de Deus.
Eu só cheguei a essa conclusão pesquisando o meu próprio
coração em busca de uma resposta. Recordei a minha própria luta para aceitar
a misericórdia e a bondade de Deus por mim. Por anos, eu havia vivido e pregado
sob uma escravidão legalista. Eu me esforçava para corresponder aos padrões
que eu acreditava levavam à santificação. Mas eram em sua maioria apenas uma
lista dizendo: faça isso, não faça aquilo.
A verdade é que eu me sentia mais confortável no monte
Sinai, na companhia de profetas trovejantes, do que na cruz onde a minha
necessidade se expunha nua. Eu pregava a paz, mas eu nunca a experimentara
plenamente. Por que? Porque eu estava inseguro do amor do Senhor, e de Sua paciência
com minhas falhas. Eu me via tão fraco e mal, que me tornava indigno do amor de
Deus. Em resumo, eu tornava os meus pecados maiores que a Sua graça.
E porque eu não sentia o amor de Deus por mim, eu julgava
todo mundo. Eu enxergava os outros do mesmo modo que eu percebia a mim mesmo:
como transigentes. Isso afetou a minha pregação. Eu me irava contra o mal
presente nos outros, ao senti-lo crescer em meu próprio coração. Tal como o
servo ingrato, eu não havia crido na bondade de Deus por mim. E por não ter me
apropriado de Sua amorosa paciência comigo, eu não a tinha pelos demais.
Finalmente, a pergunta real ficou clara para mim. Deixou de
ser: "Por que há tantos cristãos duros e não perdoadores?". Agora
eu perguntava: "Como conseguir cumprir o mandamento de Cristo para amar os
outros como Ele me amou, se não estou convencido de que Ele me ama?".
Volto agora a pensar no bispo que ficou bravo com a adoração
impetuosa. Eu creio que aquele homem agiu sob o medo. Ele viu a unção de Deus
sobre aqueles cantores, ele ouviu o meu sermão, que ele sabia ser do trono de
Deus - e isso ameaçou as suas tradições. Ele estava agarrado a uma doutrina
mais do que ao amor de Cristo. E essa doutrina havia se tornado uma parede que o
alienava de seus irmãos e irmãs em Cristo.
Paulo admoesta: "Longe de vós, toda amargura, e cólera,
e ira, e gritaria, e blasfêmias, e bem assim toda malícia. Antes, sede uns
para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como
também Deus, em Cristo, vos perdoou" (Efésios 4:31-32).
Jesus Termina a Parábola Com Uma Terrível Advertência
Precisamos levar a sério essa palavra da parábola de Cristo: "Servo malvado, perdoei-te aquela dívida toda... não devias tu, igualmente, compadecer-te do teu conservo, como também eu me compadeci de ti?" (Mateus 18: 32,33).
Ninguém foi mais perdoado de pecados do que eu. Sou um
daqueles que foi purificado de pecados "que se elevam acima de minha cabeça",
iniqüidades da carne e do espírito muito numerosas para serem contadas. Fui
desobediente à palavra de Deus, limitei a Sua obra em minha vida, fui
impaciente em relação às pessoas, julguei aos outros sendo eu mesmo culpado.
E o Senhor me perdoou de tudo isso.
A pergunta para mim agora - e na verdade, para todo cristão -
é essa: "Será que eu tenho paciência com os irmãos? Será que os
suporto? Eu efetivamente tolero as suas diferenças?". Se me recusar a amá-los
e perdoá-los, como fui perdoado, Jesus me chama de "servo malvado".
Não entenda mal: isso não quer dizer que devamos fazer
concessões. Paulo pregou ousadamente a graça, mas instruiu Timóteo:
"Corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina" (2
Timóteo 4:2). Devemos ser ousados guardiões da sã doutrina.
Contudo não devemos usar as doutrinas para construir paredes
entre nós. Esse foi o pecado dos fariseus. A lei dizia: "Santifique o sábado".
Mas o mandamento em si não era suficiente para a carne deles. Eles
acrescentaram suas próprias salva-guardas, múltiplas regras e regulamentos que
permitiam o mínimo possível de movimentos no sábado. A lei também dizia:
"Não tome o nome de Deus em vão". Mas os fariseus construíram ainda
mais paredes dizendo: "Nem sequer mencionaremos o nome de Deus. Assim não
poderemos tomá-lo em vão". Em algumas seitas judaicas, essas paredes
ainda estão em vigor hoje. Mas são paredes de feitura do homem, não de Deus.
Logo, é uma escravidão.
Hoje, o Senhor nos diz: "Sede santos, porque eu sou
santo" (I Pedro 1:16). Mas os homens pegaram esse mandamento e o usaram
para edificar paredes. Eles redigiram códigos quanto a vestimentas, códigos
que restringem comportamentos e atividades, padrões impossíveis que nem eles
conseguem cumprir. Tais paredes têm levantado fortalezas invisíveis, e só os
que estão dentro delas são considerados santos. Todos os que estão fora das
paredes estão condenados e devem ser evitados.
Digo-lhe o seguinte: isso é corrupção do pior tipo. A parábola
de Jesus deixa isso claro. Tais pessoas estão agarrando os outros pela garganta
e exigindo: "Vai ter de ser do meu jeito, e só". Mas nenhum dos
mandamentos do Senhor foi feito para ser transformado em parede de alienação.
Qual foi a resposta do rei à ingratidão do servo na parábola
de Jesus? As escrituras dizem: "Indignando-se, o seu senhor o entregou aos
verdugos, até que lhe pagasse toda a dívida" (Mateus 18:34). Em grego a
tradução é: "levado até o fundo para ser atormentado". Não
consigo deixar de pensar que Jesus aqui está falando do inferno.
Então, o quê essa parábola nos diz? Como Jesus resumiu a
mensagem aos discípulos, Seus companheiros mais íntimos? "Assim também
meu Pai celeste vos fará, se do íntimo não perdoardes cada um a seu irmão"
(18:35).
Eu estremeço ao ler essa parábola. Ela faz eu querer me
dobrar sobre minha face, e pedir a Jesus um batismo de amor para com os demais
servos como eu. Eis a minha prece; eu encorajo-o a torná-la a sua oração:
"Deus, me perdoe. Eu com tanta facilidade me sinto
provocado pelos outros, e tantas vezes reajo com raiva. No entanto, não sei
onde estaria a minha própria vida sem a Tua graça e a Tua paciência. Fico
perplexo com o Teu amor. Por favor, me ajude a entender e aceitar o Teu amor por
mim inteiramente. Essa será a única maneira pela qual algum dia serei capaz de
cumprir o Teu mandamento para amar. Então serei capaz de ter paciência e tolerância
com os meus irmãos, em Teu espírito de amor e misericórdia". Amém.