SEBEMGE - Seminário Batista do Estado de
Minas Gerais
Disciplina: Análise do Velho Testamento I -
Eclesiastes
Professor: Anísio Renato de Andrade
Apostila do Quinto e Sétimo períodos dos cursos:
Bacharel em Teologia
Bacharel em Teologia Ministerial e
Médio em Teologia
Introdução
Em nosso estudo do Eclesiastes, pretendemos
fazer uma análise que parte de uma observação panorâmica e se aprofunda nos
diversos temas do livro. Em alguns momentos faremos uma leitura que considera o
ponto de vista do autor e vai um pouco além, utilizando, para isso, o
conhecimento que nos oferece o contexto bíblico geral.
Classificação e características
Os livros do Velho Testamento se classificam
como: livros da lei, livros históricos, poéticos e proféticos (maiores e
menores). Entre os livros poéticos (Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e
Cantares) encontram-se os sapienciais ou livros de sabedoria (Jó, Eclesiastes e
Provérbios), os quais se caracterizam por apresentar reflexões, conselhos práticos
e filosofia de vida. Seu objetivo é a transmissão da sabedoria de tal forma
que a mesma venha preencher as lacunas porventura deixadas pelos códigos da
lei.
Alguns trechos do Eclesiastes têm forma poética.
São eles: 3.2-8; 7.1-14; 11.7 e 12.7. As demais passagens se apresentam em
prosa.
Os escritos sapienciais não se restringem ao
conteúdo de Jó, Provérbios e Eclesiastes. Antigas civilizações já
utilizavam escrituras desse tipo, tais como a Suméria (3000 a.C.), Babilônia,
Egito, Arábia, Pérsia, Edom e Fenícia. Mesmo se tratando das Sagradas
Escrituras, a literatura sapiencial se apresenta também em outros textos fora
dos livros poéticos. São parábolas, provérbios e metáforas como os que
encontramos em Jz. 9.7-15; 14.12; I Sm.1.12; 18.7; II Sm.12.1-4.
Os livros bíblicos sapienciais se
especializam em determinados temas. Jó se aplica à questão do sofrimento. O
livro de Provérbios é dedicado à moral, enquanto que Eclesiastes apresenta a
questão da felicidade humana.
Título do livro
O que é eclesiastes? pregador, aquele que
fala a uma assembléia. Este termo tem origem grega, o que, a princípio pode
parecer estranho, uma vez que o Velho Testamento foi escrito em hebraico. Tal
ocorrência se justifica por uma herança da versão chamada Septuaginta. Esta
foi uma tradução do Velho Testamento do hebraico para o grego. O título
original era "Qoheleth", sendo traduzido para o termo grego
"Eclesiastes", o qual foi mantido em nossas versões portuguesas. O
mesmo ocorreu com outros livros da Bíblia, tais como Gênesis e Deuteronômio.
Autoria
Quem é o eclesiastes? Quem é este pregador?
Os versículos encontrados em Ec.1.1; 1.12; 2.1-11 nos conduzem à pessoa de
Salomão. Embora seu nome não seja mencionado em nenhum momento, os textos
citados não deixam margem para que se pense em outra pessoa. Consideremos as
afirmações de Ec.1.1 e 1.12: "Filho de Davi.... rei de Israel em Jerusalém..."
O único homem que se enquadrou nesses termos foi o próprio Salomão pois, após
a sua morte, nunca mais houve um rei de Israel em Jerusalém. O reino foi
dividido e em Jerusalém se encontrava o rei de Judá. Os reis de Israel ficavam
em Samaria.
Entretanto, os críticos apresentam as
seguintes questões contra a autoria salomônica.
Questão 1 – Nas passagens de Ec.1.2 e 7.27
o escritor conjuga os verbos na terceira pessoa. Fala do pregador como sendo
outro e não ele mesmo. Poder-se-ia admitir a hipótese de uma auto-apresentação
em terceira pessoa. Contudo, esse tipo de conjugação aparece em 12.8 em um
contexto mais complexo. A fala em terceira pessoa se apresenta como um aposto no
meio de uma frase dita em primeira pessoa. Parece então bem claro que, de fato,
o pregador e o escritor do livro de Eclesiastes são duas pessoas distintas. Tal
evidência não constitui grande dificuldade, já que era bastante comum a existência
de escribas que registravam as palavras ditadas pelos autores. O profeta
Jeremias tinha a seu serviço Baruque, que escrevia suas profecias. Não é de
se estranhar que um rei, como Salomão, tivesse ao seu dispor um ou vários
escribas. No novo testamento, como exemplo de situação análoga, podemos citar
as cartas de Paulo. Algumas vezes o apóstolo ditava e algum dos seus discípulos
escrevia (Rm.16.22).
Questão 2 – O Eclesiastes apresenta
passagens aparentemente contraditórias. Isto poderia indicar a obra de dois
autores. Partindo dessa premissa, foram formuladas algumas hipóteses:
A) O Eclesiastes seria originalmente uma obra
cética, a qual teria recebido adições posteriores. Foi a proposta dos teólogos
A. H. McNeile (Inglaterra), G. A. Barton (USA) e E.Podechard (França), todos no
século XX.
B) O livro teria sido obra de 9 pessoas: 7
autores e 2 editores. Foi a hipótese de D.C. SiegFried.
Essas especulações sobre possíveis retoques
em uma obra cética original não resistem diante de algumas indagações: Se um
editor tentou melhorar a obra por não concordar com ela, não seria mais prático
eliminá-la? Seria bastante contraditório imaginar um judeu ortodoxo tentando
melhorar uma obra cética ao invés de destruí-la. Se essas hipóteses de edições
posteriores correspondessem à realidade, seria natural a existência de versões
conflitantes do Eclesiastes. No entanto, não existem conflitos significativos
entre os manuscritos conhecidos. As diferenças detectadas se encontram em
detalhes mínimos tais como o uso de artigos e outras partículas.
O vocabulário e os conceitos unem as partes
que muitas vezes são consideradas contraditórias, nos levando a crer que,
embora contrastantes, as idéias partem da mesma pessoa.
Além dos indícios internos no livro, temos a
favor da autoria de Salomão o testemunho dos seguintes rabis judeus: Meir
Zlotowitz , em seu livro Megillas Koeles, e Nosson Schermann.
O mais importante de tudo isso é que a
palavra de Deus prevalece independente do autor humano. Em outros livros, como
Hebreus e Jó, a identificação do autor é ainda mais difícil, ou mesmo
impossível. Contudo, sua mensagem nos é transmitida de forma poderosa e
eficaz.
Data e idioma original
Entre os autores que consideram a autoria de
Salomão, a data de escrita do Eclesiastes tem sido colocada próxima de 977
a.C.. Como é de se esperar, muitos críticos questionam essa datação. Ao se
colocar em dúvida a data questiona-se novamente a autoria. Alguns querem
localizar a origem do livro em período próximo ao terceiro século a.C.. Sendo
assim, estão eliminando a figura de Salomão do contexto. Não se defende uma
época mais recente pois, entre os manuscritos do mar Morto, encontraram-se
fragmentos do Eclesiastes, os quais são considerados como oriundos do século
II a.C.
As dificuldades nesse ponto surgem quando se
analisam as características idiomáticas do livro. No texto em hebraico
encontram-se influências lingüísticas de diversos tipos, as quais se
apresentam em formas pronominais, artigos, uso de consoantes como vogais, e
outras partículas. Assim, tem-se no Eclesiastes um hebraico diferente daquele
encontrado nos outros livros do Velho Testamento, até mesmo em Provérbios, o
qual se atribui a Salomão. Para responder a essa questão surgiram as seguintes
hipóteses:
1 - Para D.S. Margoliouth (1921), o
Eclesiastes foi escrito em um tipo de "hebraico estrangeiro".
2 - F. Zimmermann sugere que o livro tenha
sido escrito originalmente em aramaico e depois traduzido para o hebraico. Sua
idéia é apoiada por C.C. Torrey (1948) e H.L. Ginsberg (1950).
3 - M.Dahood (1952) afirma que o idioma fenício
foi usado no texto original.
A essas colocações, houve a reação de
R.Gordis, o qual defende a tese da escrita em um "hebraico tardio",
numa época em que a língua já havia incorporado termos e detalhes de outros
idiomas.
Aramaísmos são comuns no hebraico a partir
do séc.X a.C.. Contudo, maiores dificuldades surgem quando se encontram duas
palavras do idioma persa no texto. O auge do Império Persa se estendeu de 549
até 331 a.C., muito fora, portanto, do período de vida de Salomão.
Influências fenícias são também
encontradas em Jó, Salmos, Provérbios, Isaías, Ezequiel e Naum, o que não
constitui evidência cabal de que tais escritos tenham sido elaborados
originalmente no idioma fenício.
Como podemos conciliar todas essas informações
e ainda manter a afirmação de que Salomão tenha escrito o livro de
Eclesiastes? Se os críticos tivessem baseado suas teorias no estudo do
manuscrito original do Eclesiastes, então a questão ficaria bem mais difícil.
Contudo, sabemos que ninguém possui os textos originais. Assim, toda a análise
se dá sobre versões posteriores, cópias, sendo que a mais antiga disponível
data do século II a.C. Desse modo, é natural que tais versões apresentem
influências da época em que foram produzidas. Seria normal que o copista
quisesse passar os ensinamentos na linguagem usual daqueles dias, o que poderia
então ser chamado de "hebraico tardio", já influenciado por diversos
idiomas. Tomemos como exemplo uma de nossas versões, a Revista e Corrigida de
João Ferreira de Almeida, a qual utiliza a palavra "indústria" na
passagem de Eclesiastes 9.10. É óbvio que tal anacronismo da tradução não
nos leva a pensar que a obra original tenha sido produzida após a Revolução
Industrial.
O próprio autor poderia ter mencionado a época
e o local da produção de sua obra. Contudo, a ausência de tais informações
acabam por reforçar o caráter universal do tema tratado pelo Eclesiastes, o
qual não se restringe ao judaísmo e ao povo judeu, embora esteja a eles
vinculado.
O Epicurismo
Alguns comentaristas afirmam que o Eclesiastes
apresenta máximas do Epicurismo quando diz que o melhor para o homem é comer,
beber e gozar do fruto do seu trabalho. O Epicurismo foi uma doutrina filosófica
que se originou com Epícuro (342 a 270 a.C.), um filósofo grego. Suas
principais idéias são:
1.
Deísmo – É possível que Deus ou deuses existam, mas, se existirem, não
estão se importando com os seres criados, não havendo de dar-lhes nenhuma
recompensa ou castigo.
Quando analisamos em conjunto os ensinamentos
do epicurismo, concluímos que tal doutrina não se encontra nas páginas do
Eclesiastes, uma vez que o autor fala de Deus de forma bem objetiva e atuante na
vida humana, menciona a sabedoria que é dada por Deus, avisa sobre o juízo
divino em relação às obras humanas. A própria vida após a morte fica
subentendida na questão do juízo (12.14) e também na afirmação de que o espírito
volta a Deus (12.7).
Canonicidade
O exame de partes isoladas do livro podem
conduzir o leitor a ter dificuldades em relação à sua natureza canônica. Há
quem veja na obra contradições, pessimismo, ceticismo e epicurismo. Porém, o
Eclesiastes foi citado como canônico por Melito (Sardes) 170 d.C.; Orígenes
(185-225); Epifânio (Sardes) (315-403 d.C.); Jerônimo (347-419) e diversos
escritores judeus. Soma-se a esses testemunhos a declaração interna do livro,
que diz que suas palavras foram dadas pelo único Pastor. Em se tratando de um
livro do Antigo Testamento, o seu reconhecimento por parte de Israel tem grande
importância para nós. Além disso, há que se levar em conta o que foi dito
pelos já citados "Pais da Igreja".
Salomão – Vida e obra
Devido à insustentabilidade das hipóteses
contrárias, consideraremos Salomão como o autor do Eclesiastes. Seu nome
significa "pacífico". De fato, a paz foi uma característica marcante
do seu reino, que durou de 1015 a 975 a.C., de acordo com uma das datações
mais aceitas. Salomão era filho do rei Davi com Bate-seba, a que fora mulher de
Urias. O Senhor mandou que o profeta Natã lhe desse o nome de Jedidias (amado
de Jeová). II Sm.12.24.
Salomão foi o rei mais rico, sábio e famoso
que Israel teve (I Reis 4.21,29-34). Durante o seu reinado, Israel se tornou um
grande império. Em seus dias, devido à paz dominante, houve grande
desenvolvimento da nação em vários setores, incluindo o comércio e a produção
literária. Contudo, o autoritarismo e os altos impostos também marcaram esse
período. Salomão escreveu Cantares, Provérbios, e Eclesiastes. Os salmos 72 e
127 também são atribuídos à sua autoria. (I Reis 9.20-21; 10.14-29). Há
quem diga que o livro de Cantares tenha sido escrito no tempo da mocidade do
rei; Provérbios seria obra dos tempos da maturidade e Eclesiastes seria a
reflexão na velhice.
Apesar de toda a sua sabedoria, Salomão
cometeu muitos erros. Enriqueceu-se muito às custas do sacrifício do povo,
teve inúmeras mulheres, fez alianças políticas com homens ímpios e acabou se
envolvendo com a idolatria. (I Rs. 11.1-12. Compare com Dt. 17.14–17).
Análise
Análise é um exame minucioso. Uma das providências que favorecem a análise
é a decomposição do que se quer estudar. Por exemplo, ao se analisar a água
torna-se necessário o exame e a compreensão de seus elementos básicos: o oxigênio
e o hidrogênio. No estudo da língua portuguesa temos, por exemplo, a análise
sintática e morfológica, nas quais as frases são divididas de tal forma que
seus elementos sejam identificados e estudados isoladamente. Da mesma maneira, o
nosso estudo partirá de uma visão panorâmica e se aprofundará num exame
minucioso, cujo alcance ficará restrito aos mecanismos, métodos e instrumentos
de estudo de que dispomos.
A análise do texto se fará através da
observação e correlação.
Observação
– Nesse ponto, minúcias do texto devem ser observadas, tais como classificação
de palavras e a ocorrência de palavras-chaves. Dependendo do caso, pode-se
perguntar como, o quê, onde, quando e por quê. Deve-se também investigar o
significado dos vocábulos e tipo de emprego, se é figurado ou não. Nesse
momento, é importante o uso de dicionário da língua portuguesa e dicionários
bíblicos. É também desejável a disponibilidade de versões bíblicas
diferentes.
Correlação
– O texto examinado deverá ser, sempre que possível, correlacionado com
outros versículos e capítulos do mesmo livro e com outros livros da Bíblia.
É importante também que, se possível, o assunto seja confrontado com seu
contexto histórico e social. Como se pode ver, alguns pontos da análise nem
sempre são aplicáveis devido à falta de informações que muitas vezes se
observa em relação a determinado livro ou determinada época.
O Resultado que
se espera da análise é o entendimento, a interpretação. Existe muito
que se pode extrair do texto bíblico através da análise. Contudo, acreditamos
que existem mistérios nas Escrituras os quais só podem ser revelados pelo Espírito
Santo. Pensemos, por exemplo, nas colocações que o apóstolo Paulo fez em relação
a Sara e Hagar. Pelos métodos analíticos jamais chegaríamos a conclusões
como aquelas, as quais não se encontram disponíveis no texto original,
tratando-se de significado oculto pelo Senhor. Contudo, acreditamos que toda
revelação deve ser coerente com a interpretação, sempre que esta for possível.
O Objetivo da
análise é o conhecimento e a aplicação do mesmo.
Texto chave: 12.13: "De tudo quanto se tem ouvido o fim é: teme a Deus, e
guarda os seus mandamentos; porque este é o dever de todo homem".
Palavra chave: Vaidade (37x) - Qualidade do que é vão, fútil, inútil e de pouca
duração.
Tema central e vocabulário em destaque
Tema central: A busca da felicidade no
confronto entre a vida, a morte e a eternidade.
Todo livro sapiencial tem o objetivo de
ensinar ou transmitir a sabedoria, a qual se apresenta como antídoto contra a
tolice do ser humano. Observa-se no Eclesiastes o que poderíamos chamar de
"tratamento de choque contra a tolice". O autor apresenta afirmações
muito fortes e convida o leitor a encarar a realidade humana em face da morte.
A seguir, apresentamos de forma esquematizada
alguns dos principais temas e conceitos do livro. Acrescentamos algumas expressões
que não se encontram no Eclesiastes, mas se apresentam como instrumentos de análise.
|
|
- DEUS |
|
|
|
- TEMPO |
|
------->------->------->------->------->------->------->------->------->------->------->------->------->------->------->------->
|
VIDA |
MORTE |
ETERNIDADE (7x) |
||
|
Passado, presente, futuro próximo |
Futuro indefinido |
Futuro eterno |
||
|
Debaixo do céu (3x) |
|
|
||
|
Debaixo do sol (24 x) |
|
|
||
|
Homem (55 x) |
|
|
||
|
Conhecimento |
|
|
||
|
Sabedoria (sábio) (53x) |
|
|
||
|
Trabalho |
|
|
||
|
Comida |
|
|
||
|
Bebida |
|
|
||
|
Relacionamentos |
|
|
||
|
Dinheiro |
|
|
||
|
Bens, riqueza |
|
|
||
|
Alegria, prazer, |
|
|
||
|
Pecado, |
|
|
||
|
Sofrimento, enfado da carne, vaidade, aflição de espírito |
|
|
||
|
Religião |
|
|
||
|
Lembrar do criador |
|
|
||
|
Temer ao Senhor e guardar os mandamentos |
|
|
||
O Eclesiastes destaca a supremacia de Deus,
acima de tudo. Deus criou o homem (7.29) e deu ele o tempo (9.11).
Esse tempo se divide em passado, presente e futuro. A administração temporal
cabe, parcialmente ao homem, até o momento em que Deus lhe toma esse controle.
Nesse tempo se situa a vida do homem. O seu desafio é descobrir o
melhor a se fazer de modo a se aproveitar bem esse tempo (2.3). Salomão
observou, experimentou e descreveu tudo o que o homem faz em seu tempo de vida.
Em todo esse processo ele procurou descobrir o que traria ao homem maior satisfação,
enfim, a felicidade. A palavra "Deus" aparece em 33 versículos do
livro. "Tempo" aparece em 19 versículos. A palavra "homem"
é mencionada em 47 versos. Essa freqüência nos faz notar a importância
desses termos na análise existencial proposta pelo autor.
Salomão então cita as ocupações humanas,
seus interesses e os alvos dos seus esforços no período chamado vida e
localizado cosmicamente debaixo do sol ou debaixo do céu. Fala então de
conhecimento, sabedoria, trabalho, dinheiro, bens, riqueza, comida, bebida,
relacionamentos, alegria, prazer, pecado, sofrimento e religião. Tais assuntos
ocorrem diversas vezes e se entrelaçam no decorrer dos capítulos de
Eclesiastes. Colocados nessa ordem que escolhemos, percebemos que existe uma
relação natural entre esses elementos, o que não significa a sua realidade
plena na vida de todas as pessoas. Assim, o conhecimento possibilita o trabalho,
que, por sua vez trará o dinheiro. Este se incumbe de trazer os bens, a comida,
a bebida e, eventualmente, a riqueza. Havendo suprimento das necessidades básicas,
já podem ser assumidos relacionamentos, os quais são apresentados por Salomão
como questão importante na vida humana. Tudo isso, em conjunto, deveria
proporcionar o prazer e a alegria para o ser humano e muitas vezes proporciona
de fato. Contudo, Salomão observa que o pecado e o sofrimento também fazem
parte da vida humana. O sofrimento surge de várias fontes. O próprio prazer,
quando se torna escravidão, traz o sofrimento como conseqüência. E mesmo em
suas formas mais legítimas, o prazer tem um fim e em seu lugar se instala
novamente o sofrimento. Olhando pelo lado positivo, em algumas situações o
sofrimento produz crescimento. Logo, sua completa supressão, se fosse possível,
seria também prejudicial.
O pecado contamina a existência humana
(9.18), que poderia ser tão maravilhosa. O sofrimento, como conseqüência do
pecado, acaba também se tornando um dos motivos que conduzem o homem à prática
religiosa. Ao falar da religião (5.1), o autor não a trata como fim em si
mesma, como solução para os problemas observados. Até na casa de Deus
encontra-se o tolo fazendo o seu sacrifício. Nota-se, portanto, a religiosidade
humana contaminada pelo seu pecado.
Com todas as possibilidades de sofrimento, será
que o homem poderá encontrar felicidade entregando-se à sua busca pelo prazer
e pela alegria? Talvez fosse então aconselhável que o homem se dedicasse única
e exclusivamente aos objetos do seu deleite: a comida, a bebida e os
relacionamentos. A certa altura da sua exposição, Salomão nos indica esse
caminho (2.24). Parece então que a busca excessiva pelos prazeres do corpo e
pelas posses materiais possam constituir a justificativa suficiente para a vida
humana. Em um primeiro momento, pensa-se na vida e em seus valores de forma
positiva: construir muito, aproveitar tudo e possuir o máximo. Depois de
mencionar tantas coisas positivas da vida humana, Salomão coloca em destaque a morte.
Esta surge então como uma ameaça contra todas as conquistas humanas e valores
da vida. Diante dessa realidade, tudo passa a ser visto como coisa vã. Daí vem
a máxima: "Tudo é vaidade." Tal afirmação indica que nada tem
valor nem sentido. Tudo o que for conquistado será perdido. Tudo o que for
aprendido será esquecido (9.5). Tudo o que se conseguiu ser será aniquilado.
Esta parece ser uma conclusão desesperada de alguém que se depara com a morte.
Diante desse fato previsível e certo, todas as ocupações humanas, bem como
suas conquistas, têm de ser reavaliadas. O tolo, "personagem" muito
mencionado em Provérbios e Eclesiastes, vive o presente e ignora o futuro. Esta
atitude pode afetá-lo de tal forma que venha a ser negligente em relação ao
trabalho, aos estudos e aos projetos em geral. A sabedoria nos leva a considerar
o futuro. Cabe lembrar aqui o que Cristo ensinou condenando a ansiedade pelo dia
de amanhã (Mt.6.34), mas valorizando o planejamento (Lc.14.38-32).
Além do fato futuro da morte, devemos
considerar também a eternidade que nos aguarda no futuro. Salomão faz
então essas considerações. Muitas coisas que pareciam valer a pena, perdem
seu valor quando confrontadas com a morte. Outras, se desvanecem quando
confrontadas com a eternidade. Salomão toca nesse ponto quando fala do retorno
do espírito para Deus (12.7) e também do futuro juízo divino sobre as obras
humanas (12.14). Eis então completo o plano de confronto: a vida, a morte e a
eternidade. Para que se tenha então uma perspectiva correta da existência,
deve-se considerar tudo isso. Diante do peso de tão grande ponderação, o
autor tece suas conclusões, onde se destaca a necessidade que o homem tem de se
lembrar do Criador e o seu dever de temê-lo e obedecer os seus mandamentos.
Vemos então que o Eclesiastes tem uma linha
de desenvolvimento que vai do natural ao espiritual. A maior parte de suas
colocações se refere ao que é terreno, o que está debaixo do sol. Dentro
desse limite tudo é vaidade. Na busca pelo que atende ao corpo, tem-se como
conseqüência a aflição do espírito. Contudo, o livro vai elevando sua análise
rumo ao que é eterno. Ao tratar especificamente dessa parte, o autor já não
diz que é vaidade. Não é vaidade lembrar do criador, temer e guardar os
mandamentos.
A Preciosidade do tempo
O tempo se divide entre passado, presente e
futuro, ou podemos vê-lo como o tempo da vida, o tempo da morte e
a eternidade. Muitos problemas surgem pelo erro na administração do
tempo. O foco exagerado em alguma dessas divisões pode trazer conseqüências
prejudiciais. Quem vive de recordações não aproveita o presente. O mesmo
acontece com quem é dominado pela ansiedade ou preocupação com o futuro.
Perde-se então o hoje e antecipa-se o sofrimento de amanhã que, em muitos
casos pode ser apenas uma ilusão que não irá se concretizar. Não se pode
pensar apenas na vida como se a morte não existisse. Também não é prudente o
foco na morte a ponto de se perder a motivação pela vida. Outro extremo é a
dedicação exclusiva às questões relativas à eternidade, tais como práticas
espirituais ou religiosas, a tal ponto de se negligenciar o suprimento das
necessidades naturais. Há necessidade de equilíbrio do foco no tempo.
Qual é o ponto de equilíbrio? É uma questão a ser definida pela sabedoria.
O que acontece na maioria das vezes é que o
homem fica preso no âmbito da vida, desconsidera a morte e a eternidade
e poderá ser apanhado desprevenido pelos últimos tempos, sejam estes
universais ou pessoais. Jesus alertou seus discípulos acerca dos "cuidados
desta vida", que consistem no atendimento às necessidades e desejos
humanos, mas que podem constituir laço caso se tornem tão prioritários que
venham a tomar o lugar dos cuidados espirituais. Assim, a busca do necessário
pode se tornar prejudicial quando obscurece os valores eternos (Lc.21.34). Foi o
que aconteceu nos dias de Noé: comiam, bebiam, casavam-se e davam-se em
casamento. Noé entrou na arca e o povo não percebeu até que o dilúvio caiu
sobre eles (Mt.24.38-39). O que importava era apenas o presente, apenas os
interesses do corpo, apenas a vida em seu momento imediato.
Reflexão diante da morte
No capítulo 2 de Eclesiastes, está o relato
das grandes conquistas, experiências e realizações de
Salomão. Nesse processo, certamente há que se perceber o inegável prazer de
todas aquelas aquisições, fartura e conforto. Entretanto, ao se confrontar com
a realidade da morte, Salomão, num primeiro momento desvaloriza todas as
coisas e afirma que tudo é vaidade (2.14-18). Ele chega a aborrecer todo
o seu trabalho e até a própria vida. Percebe-se então a amargura do confronto
com o fim inevitável da vida terrena. É um momento de choque. Sob esta
perspectiva, tudo passa a ser visto de modo crítico e destrutivo. Já que
iremos morrer, o que vale a pena ser vivido? A primeira resposta é: nada vale a
pena. Tudo é vaidade. Tudo está condenado.
Mais adiante, o autor de Eclesiastes já não
parece tão amargurado. Então, ele retoma a valorização de muitas coisas e
fatos terrenos. Agora, porém, de modo mais comedido, moderado. Vamos jogar fora
a vida por causa da morte? Vamos perder a vida antecipadamente abrindo mão de
tudo que podemos usufruir? De modo nenhum. Afinal, se temos algo nesta vida,
isto é dom de Deus e deve ser usufruído, mesmo sendo transitório (Ec.2.24;
5.19). Contudo, já não se observa todo aquele ímpeto de busca que se viu no
capítulo 2.3-10. Vamos, sim, valorizar a comida, a bebida, o trabalho, os bens,
mas sem os extremos anteriores, já que se tem em mente a morte como obstáculo
intransponível e limite decisivo contra as grandes realizações do homem.
A realidade da morte deverá ser confrontada
com nossos atos, atitudes, tratamentos interpessoais, sentimentos, etc., afim de
se determinar o que vale a pena e o que não vale.
Algumas coisas valem a pena por causa da vida
em si: comer, beber, usufruir dos bens na companhia de quem se ama.
Considerando a questão da morte,
constatamos que algumas coisas da vida deixam de valer a pena: Acúmulo de
riquezas, excesso de trabalho, excesso de estudo, atitude de orgulho, etc. A
morte coloca os seres humanos em condição de igualdade, anulando todos os
privilégios naturais, diferenças culturais, econômicas, sociais, etc.
"Como morre o sábio, morre o tolo." (Ec.2.16). Sendo assim, o
orgulho, a soberba, e o tratamento de desprezo para com o próximo, são
atitudes que não se justificam. Perdem totalmente o sentido quando se pensa na
morte e seu significado.
A moderação torna-se palavra de ordem. Já
que a morte é uma realidade, o mais sensato é que o homem adquira apenas o que
puder usufruir. Até a sobra que se deixa como herança é vista negativamente
por Salomão (2.21). Da mesma forma, o trabalho deve ser feito conforme as forças
(9.10) e o estudo demasiado poderá se tornar apenas enfado (12.12). Contudo,
tais palavras não devem ser usadas como justificativa para a preguiça e a
negligência, pois a atitude passiva de cruzar os braços é própria do tolo
(4.5). O que se busca em tudo isso é o equilíbrio, que será produto exclusivo
da sabedoria. Moderação é prudência; Preguiça é tolice. Nosso desafio é
sempre distinguir entre esses elementos nas mais diversas áreas da nossa vida.
Considerando a eternidade, cuja consciência
foi gravada por Deus no coração humano (3.11), passamos a detectar outras
coisas que deixam de valer a pena na vida: os excessos e o pecado, sendo que
ambos estão muitas vezes relacionados. Por outro lado, o autor diz o que vale a
pena em função da eternidade: lembrar do Criador, temê-lo e obedecer aos seus
mandamentos.
Onde está o limite?
Esta é uma pergunta importante para que se
saiba até onde ir nas buscas, conquistas e realizações. Contudo, uma pergunta
sem resposta. Muitos limites estão estabelecidos pelas leis, mas estas não
conseguem abranger a infinita variedade que envolve a ação humana e os
detalhes da vida. E mesmo nas situações previstas em lei, a variação de
aspectos é tão grande e freqüente que justificam a presença dos intérpretes
para definir a correta aplicação dos dispositivos legais. Desse modo, a
sabedoria é superior à lei pois se aplica a toda e qualquer situação. Em
cada instante, em cada caso específico, só a sabedoria poderá definir com
precisão o limite para as ações humanas.
Por exemplo, vimos que o acúmulo de bens não
se justifica diante da morte. Entretanto, qual é o limite para esse acúmulo? O
que é riqueza? Não existe um parâmetro numérico definido para que se
determine o que seja o ponto que separa a pobreza da riqueza. A dificuldade é tão
grande que já se "criou" uma classe média entre as duas posições.
E o problema não está resolvido. Sentiu-se então a necessidade de se dividir
em classe média baixa e classe média alta. E onde está o ponto divisório
entre ambas? Não se sabe. Portanto, está demonstrada a necessidade que cada um
tem de possuir a sabedoria, de modo que possa definir em sua própria vida os
limites para suas buscas, conquistas e realizações.
Divisão do livro
(Adptação do esquema de Norbert Lohfink)
O Eclesiastes não segue uma seqüência
bem definida. Os assuntos estão entrelaçados e sempre voltam à tona. Com
algum esforço consegue-se traçar uma divisão não muito rigorosa. Contudo, ao
se voltar ao texto, verifica-se uma variedade de temas dentro de cada capítulo.
1.1-3 – Prólogo
(introdução)
1.4-11 – Visão
cosmológica
1.12 – 3.15
– Antropologia
3.16 – 4.16
– Crítica Social I
5.1-7 – Crítica
religiosa
5.8 – 6.10
– Crítica social II
6.11 – 9.6
– Ideologia
9.7 – 12.7
– Conclusões éticas
12.8-14 – Epílogo
(encerramento)
Visão cosmológica
– Ao invés de ver positivamente o universo e seus fenômenos, o autor faz uma
observação crítica de tudo isso, destacando a rotina da natureza, o que, a
seu ver, é algo enfadonho e monótono.
Antropologia
– (Antropos = homem) – Nessa parte, Salomão se dedica a descrever as experiências
humanas, inclusive as suas próprias, buscando determinar o que possa ser melhor
para o homem durante seu tempo de vida.
Crítica social I
– Depois de analisar diversas questões do homem, o autor passa a abordar as
relações humanas com o próximo (4.4), desde o simples companheirismo (4.10),
passando pelos laços familiares (4.8,11) até às relações de autoridade.
Salomão valoriza a convivência (4.9) mas destaca as ocorrências de impiedade
(3.16), opressão (4.1), lágrimas (4.1), e inveja (4.4). Observa ainda a ausência
do juízo (3.16) e do consolo para os oprimidos (4.1). Diante de tal quadro,
chega a ver positivamente a morte como um tipo de livramento (4.2). Em meio a
todos os problemas do convívio social, Salomão conclui que pior será a situação
daquele que estiver só (4.8-11).
Crítica religiosa
– Nessa parte é analisada a relação do homem com Deus. Até nesse momento
é observada a tolice (5.1) e o erro humano (5.6). O que deveria ser puro e
santo também corre o risco de contaminação pelo pecado. É o caso do sacrifício
do tolo, sua precipitação diante de Deus e os votos não cumpridos.
Crítica social II
– É bem comum no Eclesiastes o retorno aos assuntos já tratados. O autor
volta então a observar as questões sociais. Vê a opressão e a violência no
lugar da justiça. Contempla a riqueza e a pobreza, embora o proveito da terra
deva ser para todos (5.9). Procura mostrar algo de bom na vida do pobre: seu
sono tranqüilo (5.12) e apresenta aspectos negativos na vida do rico: sua
insaciável busca pelo dinheiro (5.10), sua falta de tranqüilidade (5.12), a
perda dos bens (5.14), e o caso do rico que não pode comer da sua fartura
(6.2).
Ideologia
– O autor apresenta idéias sobre a administração da vida, comparando coisas
(7.27) e apontando qual é a melhor (7.1-3). A busca do equilíbrio é
incentivada (7.14-17). A obediência à autoridade pública é aconselhada
(8.2). A questão da aparente injustiça da vida é explorada (8.11). Novamente
se retoma o tema da morte (8.8; 9.5) e das alegrias que podem ser alcançadas em
vida (8.15).
Conclusões éticas
– A ética envolve questões morais do comportamento, escolhas entre o bem e o
mal. Depois de tantas análises da vida, o autor expõe suas conclusões.
Novamente enfatiza o valor dos prazeres da vida (9.7-9) aliados a um trabalho
sem excessos (9.10). Adverte contra os danos causados pelo pecado e valoriza a
sabedoria (9.18). Faz então uma série de advertências em forma de provérbios
(10). Finaliza com incentivo ao gozo da vida, mas lembra a prestação de contas
(11.9). Termina essa parte incentivando o jovem a lembrar-se do Criador antes
que venham a velhice e a morte e o juízo (12.1-7,14).
O
bem e o mal
O autor de Eclesiastes tem uma grande
preocupação em relação ao bem e ao mal. Verificamos isso ao buscar no texto
essas palavras e suas derivadas. O mal vai sendo detectado em quase tudo, a começar
do coração humano. Mas nem tudo está perdido. Salomão identifica o bem em
muitos aspectos da vida. Cabe a cada um a escolha. O autor se aplica a comparar
várias coisas em busca do que é melhor. Chega ao ponto de mencionar a
excelência da sabedoria. Nosso desafio é evitar o mal, buscar o bem, alcançar
o melhor e o excelente.
Vejamos as ocorrências dos termos
relacionados ao assunto:
Mal - 5.1,13,14,16; 6.1-3; 8.5-6; 9.3; 10.5;
11.2,10.
Maldade - 7.15; 9.3.
Maltratado - 10.9.
Amaldiçoar - 7.21-22; 10.20.
Mau - 9.2; 10.1; 12.1; 9.12.
Má - 4.3; 8.3; 8.11-12.
Bem - 2.24; 3.12,13; 4.8; 6.6; 7.14,20;
8.12,13.
Bom - 2.26; 6.12; 7.18; 7.26; 9.2; 9.7.
Boa - 5.18; 7.11; 11.6.
Melhor 2.3; 2.24; 3.12; 3.22; 4.3,6,9,13; 5.5;
6.3,9; 7.1,2,3,5,8,10; 8.15; 9.4; 9.16; 9.18.
Excelente - 2.13; 7.12.
Vejamos também alguns texto fora do
Eclesiastes que mencionam o termo "excelente": Pv.8.6; Ec.2.13;
Ct.4.16; Rm.2.18; Fil.1.10; I Cor. 12.31. Não se acomode no nível do que é
bom.
Algumas considerações:
A) 5.1 – "... pois não sabem
que fazem mal." Um dos fatores que catalisam o crescimento do mal é a
ignorância. A bíblia nos foi dada para que possamos adquirir o conhecimento
necessário para se identificar o mal em suas diversas formas afim de que o
evitemos.
B) Ao mencionar o mal Salomão não falou
sobre Satanás. Sua ação no Velho Testamento não era bem identificada. Por
exemplo, no livro de Jó: Depois que Satanás destruiu tudo o que aquele homem
possuía, sua conclusão foi: "Deus deu, Deus tomou." Ele atribuía
tudo a Deus. Isso não está absolutamente errado, já que Deus tem o controle
final de todas as coisas. Porém, Jó não percebeu a mão de Satanás nesse
processo.
C) O que é bom torna-se mau quando passa a
ocupar o lugar de Deus em nossas vidas (idolatria), (amor ao dinheiro 5.10);
quando ocupa o lugar da espiritualidade (exemplo: trabalho no lugar do culto). A
serpente de bronze que Moisés fez tornou-se um ídolo e precisou ser destruída
(II Rs.18.4). Muitas coisas tornam-se más quando são feitas no tempo errado ou
da maneira errada. Exemplo: arrancar uma planta que não cresceu ou colher um
fruto que não amadureceu. Ec.10.16-17 (tempo e modo) 8.6. O modo de se fazer as
coisas é, em muitos casos, o fator diferenciador entre o sucesso e o fracasso.
Muitas pessoas falam verdades de modo ofensivo e depois se justificam dizendo
que são "francas". São palavras certas ditas da maneira errada.
Assim, palavras boas surtem um efeito mau.
D) Tudo é bom enquanto for justo, enquanto não
for vergonhoso. (A própria consciência identifica isso com alguma eficiência.
O problema é que a consciência pode ser condicionada e se tornar ineficiente.)
Tudo é bom enquanto não causar escândalo. Vejamos uma lista de considerações
pertinentes a essa questão em Filipenses 4.8.
Desejo x cobiça
A preocupação ética do Eclesiastes
poderia ser resumida em se buscar o bem e evitar o mal. Porém, a definição do
limite entre esses elementos nem sempre é fácil. Como foi observado por Salomão,
o homem precisa de comida, bebida, trabalho, dinheiro, relacionamentos, alegria,
prazer, etc. Em suas buscas, conquistas e realizações, o ser humano vai avançando
numa direção que passa pelos domínios do bem e pode acabar alcançando o espaço
do mal. Mas como se identifica a linha divisória entre as duas coisas? Podemos
ver também nesse movimento uma passagem pelos domínios da sabedoria, da tolice
e da loucura. Para ilustrar, vamos pensar na velocidade desenvolvida por um
automóvel. Só para termos uma idéia, consideremos que até aos 80 quilômetros
por hora estaríamos nos limites da sabedoria. Atingindo os 120, isso
seria tolice. Ao chegarmos aos 180, teríamos alcançado a loucura.
Assim acontece em várias ações humanas. Contudo, não existe um velocímetro
na vida para determinar em que ponto estamos. A lei determina alguns limites,
mas não todos, principalmente para coisas que são boas e aparentemente
inofensivas. Uma faca não é boa nem má, mas o seu uso vai determinar essa
característica. Desse modo, muitas coisas boas podem se tornar más devido a vários
fatores. Em I Coríntios 10, Paulo fala que os judeus "cobiçaram as coisas
más". Que coisas eram essas? Comida, bebida e diversão. Isso não é
originalmente mau. A maldade está então na cobiça (Ec.6.7). Se alcançamos
algo bom motivados pela cobiça, então isso se torna mau.
Vamos então dividir nosso campo de ação em
dois espaços: o desejo e a cobiça.
Linha representativa dos esforços humanos,
suas buscas, conquistas e realizações.
|
DESEJO (ponto de partida da busca) |
COBIÇA (desejo mal orientado) (Ec.6.7). |
|
Bom |
Mau (I Cor. 10 Ec.5.1; 12.14). |
|
A vontade diretiva de Deus |
O que Deus proibiu |
|
Permitido. |
Permitido. (Livre arbítrio). |
|
Sob controle. |
descontrole. |
|
Necessário |
Excessivo |
|
Necessidade real e legítima. |
Necessidade irreal |
|
|
(por soberba/medo/inveja/desvios/etc) |
|
Fome (comida) |
Glutonaria (comida) |
|
Sede (bebida) |
Bebedice, embriaguez (bebida) |
|
Amor (relacionamentos) |
Concupiscência (relacionamentos) |
|
Necessidade material (dinheiro,bens,riqueza) |
Avareza (dinheiro, bens, riqueza) |
|
|
(a avareza de uns cria necessidade para outros). |
|
Nec. física, psicológica e espiritual (fome, sede) |
|
|
Justiça |
Injustiça |
|
Sabedoria |
Tolice / Loucura |
|
O que beneficia |
O que prejudica. |
|
Acerto |
Erro/ crime / pecado. |
A cobiça nunca se satisfaz. Assim, quem busca
o dinheiro motivado pela cobiça nunca estará satisfeito com o que tem
(Ec.5.10; 6.7).
O homem desvia sua necessidade psicológica e
espiritual para o físico, criando falsas necessidades. Por exemplo, muitas
pessoas com ansiedade, desviam seu problema para uma ilusória necessidade de
alimentação. A infelicidade ou sentimento de insatisfação pode ser
erroneamente identificado como falta de alguma coisa material, quando, na
realidade o que está faltando é algo espiritual.
O risco e a inutilidade do excesso –
A importância do equilíbrio
O excesso é uma das origens do mal em muitas
de suas manifestações. Em diversos textos, o autor de Eclesiastes menciona o
excesso.
Onde está o limite entre o suprimento, o
conforto e o exagero?
Algumas vezes, o exagero de alguém causa
necessidade para outro. Por exemplo, enquanto uma pessoa possui muitos hectares
de terra, outra não tem sequer um lote.
Vejamos os versículos de Eclesiastes que se
referem ao excesso ou grande quantidade de qualquer coisa:
1.18 (sabedoria, trabalho) 4.8 (trabalho,
riqueza) 5.2-3 (palavras) 5.7 (sonhos) 5.11 (bens) 5.12 (comida) 6.3 (filhos)
6.3,6 (tempo de vida) 7.16-17 (justiça, sabedoria, impiedade) (extremos) 10.17
(comida e bebida).
A busca excessiva de Salomão.
2.5 - Toda a espécie 2.7 - grande possessão
- mais do que todos 2.8 - amontoei - de toda sorte
2.9 - engrandeci-me e aumentei mais do que
todos. 10 - tudo.
Seria interessante ler outras palavras de
Salomão sobre o excesso em Provérbios: 24.13-14; 25.16.
O homem quer mais do que lhe é dado. Adão e
Eva podiam comer de quase todos os frutos disponíveis, mas quiseram até mesmo
aquele que tinha sido proibido.
A felicidade não está no excesso. Depois de
buscar tudo ao máximo, Salomão encontrou novamente a vaidade e a aflição de
espírito.
O excesso daquilo que você quer trará também
o excesso daquilo que você não quer (1.18). Muito conhecimento poderá trazer
muito trabalho. Este, por sua vez, pode até não trazer excesso de dinheiro. Se
trouxer, este virá acompanhado de muitas perturbações que só o rico conhece.
"Onde se multiplicam os bens, multiplicam-se também os que deles
comem" (5.11).
Salomão apresenta os riscos do excesso e sua
inutilidade. Algumas vezes pode ser perigoso, outras, inútil. Ele não proíbe
o excesso. Proibir é próprio da lei e não da sabedoria. A sabedoria orienta
ao cuidado. Muitos excessos são lícitos, ou seja, não são proibidos.
Contudo, podem não ser convenientes. Cabe a cada um julgar com sabedoria cada
situação. Isso é bem do estilo no tempo da graça. Não é proibido comer
carne de porco, mas convém? Até que ponto? I Cor.10.23.
Vejamos uma linha de conquista progressiva,
onde a primeira posição corresponde ao mínimo necessário para o suprimento
da necessidade. Em um segundo momento, existe algum excesso. Podemos ver nisso,
não um exagero, mas uma posição de conforto. O excesso não será
negativo nesse ponto. A posse material, por exemplo, em níveis ainda maiores
pode se tornar inútil ou até mesmo arriscada. Ao pensarmos em dinheiro,
verificamos sua necessidade e utilidade (7.12). É bom que o tenhamos em
quantidade superior à necessária. Isso seria confortável. Se possuirmos muito
mais do que precisamos, então não seremos capazes de usufruir de tudo. Se
atingimos o que se considera acúmulo de riqueza, então podemos perder a tranqüilidade
e a liberdade. Muitos chegaram a esse nível e vivem se escondendo com medo de
roubos e seqüestros. Os números abaixo tem apenas objetivo ilustrativo.
|
Bom |
melhor |
inútil |
arriscado |
mau |
----->------>------->------>------>------>------>------->-------->------->------->------->------->------>------->------>------>
|
10 lotes |
30 |
100 |
500 |
1000 |
|
10 salários |
30 |
100 |
500 |
1000 |
|
Atende |
atende bem |
não se usufrui |
pode prejudicar |
prejudica a si ou aos outros (5.9) |
|
suprimento |
conforto |
exagero |
exagero |
exagero |
O excesso de alguma coisa pode representar a
falta de outra coisa para si ou para outrem (3.16; 4.8). É necessário o equilíbrio
entre a justiça e a misericórdia; entre o trabalho e o descanso, etc.
Evidências do judaísmo em Eclesiastes,
enfoques teológicos e vínculos bíblicos
A aparente separação do Eclesiastes em relação
ao contexto bíblico se desfaz pelos seguintes elementos:
Referência a Davi (1.1), Jerusalém (1.1,12
2.9), Israel (1.12), Casa de Deus - templo (5.1), sacrifícios (5.1), votos
(5.4), anjo (5.6), mandamentos - lei (12.13). Imortalidade da alma/espírito
(3.19-21 12.7), Deus (5.1) (Elohim 33 vers.), pecado (2.26), juízo (12.14).
- O teocentrismo de eclesiastes, abordando os
vários aspectos das relações divinas com o homem:
Deus criador (12.1) - doador (2.24,26 5.18,19)
- orientador (soberania) (9.1) - único Pastor (12.11), legislador - 12.13),
Juiz (11.9 12.14 3.17).
- O pecado como causa da desgraça humana -
7.25-26 8.3,13 9.18
- O juízo – No tempo presente, na vida
terrena, o justo e o ímpio passam pelas mesmas coisas. Aparentemente se observa
injustiça. Salomão viu isso e se sentiu incomodado (2.14-16; 8.10-14; 9.1-3).
Deus ama a todos e a todos oferece a oportunidade. Por isso, o juízo não se
executa logo. Contudo, Salomão afirma que o julgamento vem e Deus o executará
(11.9; 12.14; 3.17).
- Ligações com Gênesis - Pecado - 2.26
Trabalho - 1.13 Morte - 12.7 3.19-21
- Ligação com Apocalipse - Juízo (11.9
12.14) - A eterna morada do homem (12.5).
- Semelhança com Jó 3 - Ec.4.1-3 6.2-6
- Semelhança com Provérbios - Ec.10; 12.9
Acesso
à segunda parte do estudo de Eclesiastes.
Bibliografia
MELO, Joel Leitão
de, Eclesiastes - Versículo por Versículo - CPAD.
STORNIOLO, Ivo,
BALANCIN, Euclides M., Como Ler o Livro de Eclesiastes - Ed. Paulus.
BOYER, O. S.,
Pequena Enciclopédia Bíblica - Ed. Vida.
EATON, Michael A.,
CARR, G. Lloyd, Eclesiastes e Cantares - Ed. Vida Nova.
GIBERT, Pierre,
Como a Bíblia Foi Escrita - Ed. Paulinas.
ELWELL, Walter A. ,
Manual Bíblico do Estudante - CPAD.
Bíblia de Referência
Thompson - Tradução de João Ferreira de Almeida - Versão Contemporânea -
Ed. Vida
Material do SEBEMGE
- Professora Deuzenir Moreira da Silva.
Produzido em março do ano 2000
Em caso de utilização impressa do presente material, favor mencionar o nome do autor: Anísio Renato de Andrade – Bacharel em Teologia.